Polícia

Novo golpe pelo WhatsApp alerta usuários e Polícia Civil

Em Lajeado, pelo menos oito ocorrências já foram registradas, e em Estrela, uma mulher chegou a perder R$ 1,5 mil


- Lidiane Mallmann

Vale do Taquari - Imagine que sua mãe manda uma mensagem para você pedindo para que deposite um determinado valor. Na mensagem que recebe dela, tem a foto e o contato exatamente como você salvou, escrito "mãe". Ao que tudo indica, não tem porque desconfiar. Você vai até o banco ou casa lotérica e logo faz o que ela pediu. O que até então parece não ter motivo para suspeitar, torna-se um pesadelo e você percebe que deu dinheiro para um estelionatário.


O caso que você leu tem a ver com uma nova modalidade de golpe via aplicativo de mensagens que tem alertado a segurança pública da região. Na fraude, criminosos "clonam" a conta de WhatsApp do usuário a partir de um link acessado ou de um código passado para o falsário. Em Lajeado, já foram registradas oito ocorrências do mesmo tipo na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) desde que o delito surgiu.


Já em Estrela, uma mulher chegou a perder R$ 1,5 mil após acreditar que estaria emprestando o valor para uma amiga. Horas depois de realizar o depósito, ela foi informada que a conhecida teve o celular clonado. Segundo o titular da Delegacia de Polícia Civil de Estrela, Juliano Stobbe, trata-se de uma conduta de estelionato. "Apesar de haver falsificação da identidade da pessoa, podendo ensejar outro crime, ele fica absorvido pelo estelionato porque a falsidade tem como finalidade cometer a fraude", explica.


Uma empresa de telefonia de Lajeado também tomou conhecimento do golpe quando um cliente procurou a loja para resolver o seu problema. "O cliente disse que recebeu uma mensagem, que respondeu e depois a pessoa conseguiu ativar o WhatsApp dele em outro equipamento", confirma um dos responsáveis pela empresa. "O WhatsApp é um aplicativo, então não envolve diretamente as operadoras, tanto que funciona em um equipamento sem chip", complementa.


Conforme o SindiTelebrasil, que responde em nome das operadoras brasileiras, as prestadoras de serviço de telefonia móvel possuem políticas e diretrizes internas voltadas à área de segurança da informação e antifraude, visando sempre a proteção dos dados de seus clientes. "Destacamos ainda que as operadoras não têm responsabilidade legal ou ingerência sobre os conteúdos e transações feitas nesses aplicativos", afirma, em nota. 

Um crime leva a outro

Em Lajeado, uma mulher de 45 anos teve sua conta bloqueada a partir do golpe e, logo após, a prima, uma colega e a vizinha foram alvos de tentativa de extorsão. A gerente administrativa conta que recebeu uma mensagem de uma pessoa próxima e de confiança. "A mensagem era me convidando para fazer parte de um grupo de mulheres e, como eu conhecia ela, disse que faria parte do grupo.

Ela disse que para ser formado o grupo eu iria receber um código de confirmação e que eu teria que informar para ela esse código. Na pressa eu tirei um print da tela e enviei", relembra. No dia seguinte, ela notou que havia perdido a conta do WhatsApp.


Após isso, a vizinha, a prima e a colega de faculdade foram vítimas de uma tentativa de extorsão, na qual o estelionatário solicitava um depósito.

A gerente administrativa conta que depois do ocorrido, notou que poderia mudar condutas ao salvar os contatos em sua agenda e não identificar as pessoas por vínculo familiar, como nominar como "mãe", "pai" ou "vizinha". "As pessoas precisam revisar a agenda de contatos, porque temos a mania de identificar o vínculo com as pessoas. Então é interessante colocar nome e sobrenome, mas não o vínculo que tem", alerta a vítima.

"Na verdade não foi clonado", explica professor

O professor e coordenador do curso de Engenharia da Computação da Univates, Marcelo Malheiros, explica que o golpe não ocorre devido a uma falha no aplicativo. De acordo com Malheiros, no WhatsApp, quando se muda de telefone, é preciso informar dados sobre o novo aparelho. "O fraudador engana o usuário, faz o processo de troca de telefone e assume o WhatsApp da vítima em um outro número. Então o WhatsApp na verdade não foi clonado, ele foi transferido do celular da pessoa para o celular do criminoso", detalha o professor.

"É assim, a pessoa passa uma história qualquer, fala que precisa confirmar uns dados e que vai mandar por SMS um código de confirmação", completa.
Para segurança do usuário, o aplicativo pede a confirmação do código no celular originalmente cadastrado, ou seja, o criminoso precisa do código para dar seguimento à fraude. "O ponto crucial é não repassar o código de confirmação é o alerta principal."

Dificuldade de identificar criminosos

 

Conforme o delegado Juliano Stobbe, a Polícia Civil tem dificuldade de fazer a investigação destes golpes realizados via mensagens online e é mais importante prevenir e alertar a população. "Na medida em que requer a descoberta de qual telefone efetivamente partiu aquele perfil falso, fica difícil a elucidação. Recuperar os valores já perdidos e objetos já entregues é bastante complicado", diz.


Para o coordenador do curso de Engenharia da Computação da Univates, Marcelo Malheiros, o problema dos crimes digitais é que os rastros não são diretos. "Toda atividade online deixa rastros.

O Google e o Facebook, por exemplo, têm acesso ao histórico de quem acessou e postou cada coisa, mas você precisa de uma ordem judicial para que esses dados sejam acessados.

Esses dados existem, é possível rastrear, mas leva um certo tempo." Ainda conforme Malheiros, outro problema é que boa parte destes crimes são feitos por pessoas do Brasil, mas que utilizam computadores em outros países. "Em outros países a legislação brasileira não tem responsabilidade, o que torna o processo de rastrear mais complicado também", afirma.

Cuidados

Juliano Stobbe alerta que os cidadãos devem ficar atentos a negociações pelo WhatsApp. "Deve-se tomar cuidado principalmente com as mensagens sem áudio. Ou procurar falar efetivamente com a pessoa pelo telefone. Simplesmente mensagens escritas, muito embora pareçam se tratar do perfil daquela pessoa, pode ser a forma como a pessoa vai cair em um golpe", comenta o delegado.


O professor Marcelo Malheiros diz que é preciso ter cuidado ao instalar programas ou aplicativos. "Tanto via smartphone, quanto em computadores, a partir do momento que você instala um aplicativo, ele passa a ter controle da sua máquina e toda sua atividade pode ser monitorada."

Conforme Malheiros, o segundo ponto é cuidar os sites em que se têm dados sensíveis, como financeiros e bancários. "Deve-se confirmar se você está realmente entrando no site que você quer. Em geral, em todos os navegadores aparece uma indicação, um cadeado ou barra verde, que são informações dizendo que o site é autenticado."

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