Política

Temer diz que não renuncia e território de incertezas aumenta

Aliados retiram apoio e crise acentua, mas presidente garante que não teme delações

Créditos: Luísa Schardong
Temer diz que não renuncia e território de incertezas aumenta - Agência Brasil

Brasília - "Não renunciarei. Repito: não renunciarei", disse o presidente Michel Temer (PMDB) no ponto alto de um pronunciamento de menos de 4 minutos. O discurso rápido e categórico veio um dia depois que jornal O Globo divulgou a gravação de uma conversa na qual ele libera a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso pela Operação Lava Jato.

O áudio foi entregue ao Ministério Público em acordo de delação premiada por Joesley e Wesley Batista, donos do frigorífico JBS. As delações foram homologadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a abertura de inquérito para investigar o presidente no âmbito da Operação Lava Jato.

Ontem, Temer negou envolvimento no escândalo. "Não comprei o silêncio de ninguém. Exijo [ao STF] investigação plena e muito rápida para os esclarecimentos ao povo brasileiro. Esta situação de dubiedade não pode persistir por muito tempo. Se foram rápidas nas gravações clandestinas, não podem tardar na solução das investigações", declarou.

Antes, ele fez referência a indicadores de economia, inflação e empregos. "Meu governo viveu nesta semana seu melhor e seu pior momento. Todo o esforço para tirar o país da recessão pode se tornar inútil. Meu único compromisso é com o Brasil e é só este compromisso que me guiará."

Desdobramentos
As revelações geraram reações imediatas no Congresso Nacional. As sessões ordinárias conduzidas pelos presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), foram encerradas antes das discussões de projetos.

Até ontem, três pedidos de impeachment foram protocolados. Pela Constituição, quem assume interinamente a presidência em caso de queda do governo peemedebista é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. A lei determina, então, a convocação de novas eleições.

Coxinhas versus mortadelas: a polarização de discursos
Depois que o modus operandi da corrupção em Brasília foi escancarado pela Operação Lava Jato, a descrença do brasileiro na classe política vem fazendo crescer uma onda de polarização de posturas, principalmente na internet. Para o cientista político Fredi Camargo, a adoção de noções extremistas é fruto, justamente, da descredibilidade das esferas que deveriam zelar pelo desenvolvimento do país.

Segundo ele, no meio de tantas incertezas, a única verdade absoluta é que o poder político se rompeu de forma generalizada. "Agora é o momento de colocar nossas instituições em avaliação. PSDB contra PT, verde e amarelo contra vermelho, por exemplo - não é mais assim que o mundo funciona. O que o povo precisa perceber é que não existe um salvador da pátria. Essa ilusão precisa morrer", alerta.

Camargo aponta, ainda, outro antagonismo. Ele usa a XX Marcha de Prefeitos, que aconteceu durante a semana na capital federal, como exemplo, dizendo que ela revelou que os municípios vivem como devedores de favores, enquanto a União arrecada. "O problema é uma máquina central muito pesada na figura do Governo Federal, que não produz nada e só trabalha trocando favores - e que, na iminência de uma quebra econômica, só aumenta impostos que recaem sobre quem vive nos municípios. Reformas devem acontecer na administração, reduzindo 90% dela e cortando privilégios."

Em questão

Quem responde é Fredi Camargo, cientista político.

1 - O Informativo do Vale - Em caso de eleições diretas convocadas por um presidente interino, quais os possíveis candidatos?
Fredi Camargo - Nesse cenário de polarização, temos: prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB); deputado federal Jair Bolsonaro (PP); o ex-presidente Lula (PT) e Ciro Gomes (PDT), que talvez não se sustente como candidato. Outra possibilidade é que surja algum nome fora da política.

2 - O Informativo do Vale - Como ficam as reformas propostas por Temer, que tramitam na Câmara?
Camargo - O campo está aberto para muitas teorias conspiratórias a respeito. Há quem diga que: a) isso estourou para que as reformas não andem; e b) que o objetivo é desvio de foco da população para aprová-las por baixo dos panos. O mais provável, na minha opinião, é que as reformas sejam paradas.

3 - O Informativo do Vale - Novas eleições pode sanar a crise ou, pelo menos, renovar a confiança do eleitor?
Camargo - Temos dois tipos de crise, uma levada pela outra: a mais grave é a política, que arrasta o país para crise econômica. Se não houvesse uma, talvez não houvesse outra. Faço uma analogia com o futebol: trocar técnico no meio do campeonato pode trazer bons resultados nas primeiras partidas e vitória no final, ou ele pode vencer três jogos e depois cair para a segunda divisão.
Por uma questão moral, o presidente deveria ter renunciado. Ainda assim, o que vem pela frente pode ser pior. É tudo incerto.

4 - O Informativo do Vale - Na possibilidade de outro impeachment, quais os desdobramentos internacionais?
Camargo - O país já tinha se queimado com o que aconteceu nas grandes empresas daqui, além do impeachment de Dilma Rousseff. O discurso do golpe não foi muito aceito lá fora. Enquanto acontecer dentro dos trâmites legais, parceiros da América e Europa vão fazer discursos diplomáticos e ficarão em cima do muro - a menos que aconteça uma ruptura social mais forte. Já temos uma imagem ruim, de país da malandragem.

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