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Futebol sob outro ponto de vista

Créditos: Gilberto Soares

Algo parecido com o futebol distraia os chineses cerca de 3.000 a.C. Em 1823, as universidades da Inglaterra reinventaram essa tresloucada corrida pela posse de uma bola. Atenuaram a violência com uma nova organização, criaram as Regras de Cambridge e fundaram a "Futebol Association". Com a uniformização da atividade e da relação entre os protagonistas,  disseminaram a ideia divertida, que vicejou nas Américas. Melhor, na América do Sul e no México - junto com as touradas. Fincou raízes profundas por aqui. Socializou e abriu portas aos miseráveis mediante requisitos individuais: talento e determinação. Transcendeu na música que permanece enquanto desaparece a musa. Fio Maravilha, por exemplo, é uma homenagem de Jorge Benjor ao folclórico Fio, centroavante do Flamengo. Você pode não lembrar do rosto ou gol da figura, mas conhece o refrão "Fio Maravilha, nós gostamos de você".

 

MITO. Os dias atuais são de ídolos fugazes. A comunicação é instantânea e sem barreiras, as pessoas estão conectadas e lutam desesperadamente para aparecer. A superexposição valida a ironia do artista plástico norte-americano Andy Waholl: "Um dia, todos terão direito a 15 segundos de fama''. Tudo tão diferente dos anos transcorridos entre 1950 e 1970. Naquela época, o telégrafo era a realidade; o rádio predominava como tecnologia confiável; e a tevê engatinhava como privilégio. Nesse período, Pelé construiu a trajetória de Atleta do Século, coisa de titã - meio homem, meio deus. Tanto fez até ser reconhecido como rei negro do ludopédio, uma criação mitológica contemporânea. Algo formidável por ser antes do mundo virar uma aldeia global.

PODER. Futebol move multidões. Políticos sabem desse poder e tentam utilizá-lo em manobras diversionistas. O regime militar argentino investiu milhões para organizar a Copa do Mundo de 1978. Queria mostrar desenvolvimento e harmonia em uma realidade de atraso e repressão. A seleção da Argentina venceu aquela copa, mas a verdade chegou 4 anos depois com a Guerra das Malvinas. Lula, quando era "o cara", lutou e conseguiu trazer a Copa para o Brasil. Gerou um evento superfaturado, ornado por elefantes brancos - Amazonas e Brasília ostentam os mais vistosos. Por incrível que pareça, 4 anos depois, a Rússia de Putin conseguiu gastar ainda mais. Futebol também faz a paz. Conta-se que a Guerra da Biafra parou para o Santos de Pelé se apresentar em Benin. Essa história de 1968 é contestada pelo professor José Paulo Flarenzano, da PUCSP. O pesquisador admite, porém, que a magia santista proporcionou uma trégua sobre o rio que separava os dois Congos. Cessaram os tiros para o deslocamento em segurança. Nenhum outro esporte produz reverências tão poderosas. Richard Nixon e Jimmy Carter receberam Pelé na Casa Branca, Robert Kennedy, senador norte-americano fez questão de abraçar Pelé no vestiário. Já Elizabeth ll, rainha da Inglaterra compartilhou a nobreza com o rei popular nas tribunas do Maracanã.

CIÊNCIAS. Já escrevi sobre o futebol na Matemática e na Física. Sob a perspectiva de quem vê a ciência sem dogmas, e curte as descobertas. Só no quadrilátero de ações improváveis, um pintor de paredes submete às leis da Física a seus caprichos. E cria parábolas perfeitas a partir da potência exata aplicada a um chute tangencial. Batida precisa para alcançar o companheiro em movimento retilíneo uniforme, 40 metros distante. Ah, esse pintor chamava-se Válter, não teve a oportunidade de ir à escola, mas foi um meio-campo singular do Grêmio Bagé na década de 1970. Neste fim de semana, Grêmio Bagé - minha paixão -, Lajeadense - que admiro -, e a dupla Grenal encaram decisões. Os dois primeiros lutam para retornar à glória que se tornou fugaz aos clubes do Interior; os dois grandes do Sul encaram-se em uma decisão bipolar, nas quais os pequenos são exceções para confirmar a regra.
Um recado final: vá na Arena Alviazul e torça. Na segunda-feira, a vida volta ao normal.


Gilberto Soares

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