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É preciso erguer pontes em vez de muros


Combinar mobilidade e integração é uma ferramenta comum na expansão das grandes civilizações. Alexandre Magno partiu da Macedônia sobre o lombo de Bucéfalo para conquistar Egito, África e nordeste da Índia. Conquistou e integrou-se. Portugueses lançaram-se em mares nunca dantes navegados para estabelecer relações de negócios no outro lado do mundo. Chegaram à Índia, à China e acharam uma tal Pindorama no meio do caminho. Fizeram-se globais como os fenícios e senhores dos século XVI. Os Estados Unidos aprenderam com o passado. Ao fim da II Guerra Mundial, criaram o Plano Marshal para recuperar a Europa. Disseminaram bases militares e expandiram a economia suprindo as nações devastadas. Conquistaram corações e mentes com o cinema e o embalo das "big bands". Com parceria explícita e pressão econômica implícita, consolidaram o "american way of life" (estilo de vida americano).

MURALHA. Fechar fronteiras não é um bom negócio para as nações. A Grande Muralha da China iniciada por Qin Shi Huang, em 220 a.C., não deteve invasões. Mesmo ineficiente, foi reconstruída, melhorada e conservada pela Dinastia Ming (1368-1644). No século XVI, os Ming, ante a ameaça de piratas japoneses, limitaram o vigoroso comércio marítimo. A "muralha" metafórica abriu vantagem só para o Ocidente. Enquanto grandes navegadores chineses permaneciam inertes, o português Rafael Perestrelo negociava com Cantão (Guangzhou) - terra que acolheu Felipão após um 7x1 de má lembrança. Apesar de tantos exemplos no passado, decisões políticas movidas por maniqueísmo ideológico são recorrentes. Em 1961, a União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS) levantou o Muro de Berlim. Temia uma deserção dos países agrupados (a ferro e fogo) rumo à democracia. Fechou o Leste europeu, dividiu a Alemanha em duas e asfixiou-se no atraso. Quando o muro da vergonha foi posto a baixo, o regime ruiu.

AÇODADO. O presidente eleito Jair Bolsonaro parece em campanha ao mover-se estimulado pela dualidade capitalismo/comunismo. Foi açodado no caso do programa Mais Médicos e precipitou o fim do contrato com Cuba. Sem plano alternativo, forçou uma ação tapa-buraco do desfalecido governo Temer. Sobrou intranquilidade para quem ganhara um "tiquinho" de atenção de um serviço vital e precário. Também disse. "Os chineses não estão comprando no Brasil. Estão comprando o Brasil". A declaração causou mal-estar com o maior parceiro comercial - destino de 25% de nossas exportações. E brindou o mundo com a intenção - inspirada em Donald Trump - de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. O novo endereço é a capital determinada por Israel, embora contestada pelos vizinhos e pela ONU. Um barril de pólvora. Essa última manifestação resultou em represália do Egito, que cancelou o encontro com a missão comercial programada pelo Itamaraty.

MERCADOS. A sucessão de afirmações seguidas de retificações preocupa. Parte das análises de mercado tem como base projeções de (prováveis) iniciativas políticas de governo - o imponderável tem peso significativo. A expectativa, no caso, agrava-se pela inconstância e retórica inflamada. Os países muçulmanos da África e do Oriente Médio abriram mercados para o Rio Grande do Sul. Ocupam um espaço importante nos negócios do Vale do Taquari, por exemplo. Hoje, são essenciais para a diversificação que protege a economia regional. A polêmica criada com a questão israelense indispõe parceiros e pode produzir um abalo de consequências imprevisíveis. É inoportuna para um país carente de paz e um entrave para um Estado ansioso por trabalho.
Ideologia, eu quero uma pra viver é clássica na voz de Cazuza, mas funesta na boca de um líder, que precisa equilibrar pragmatismo com integração. O mundo mudou enquanto procuramos comunistas embaixo da cama. A Rússia é um neoczarismo de mercado controlado, e a China comemora o capitalismo de Estado e seus novos ricos. Isolados apenas o folclore trágico da Coreia do Norte e a persistência de Cuba, cujo discurso autêntico mostrou-se inviável. Erguer barreiras por medo de uma invasão ideológica é um disparate.
A história mostra que a evolução está nas pontes e o atraso nos muros.


Gilberto Soares

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