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Enquanto houver bambu

Gilberto Alves Soares, [email protected]


Duas semanas atrás, escrevi sobre a pretensão de imortalidade comum às nossas autoridades públicas. E, por consequência, da força quase sobrenatural de Brasília para transformar pessoas nomeadas e transferidas para lá. Volto ao tema com Rodrigo Janot, jurista de carreira anônimo à população. Até 2013, quando foi alçado à Procuradoria-Geral da República (PGR) por Dilma Rousseff.
Assumiu e sinalizou mudanças na rotina da casa com uma investida barulhenta. Em junho de 2013, entrou com um pedido de prisão no Supremo Tribunal Federal (STF) para quatro figurões amalgamados ao poder. José Sarney, Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Romero Jucá foram salvos pelo ministro do Supremo, Teori Zavascki, mas a iniciativa mostrou que as ações da PGR iriam para a vitrina.

PROTAGONISTA. Sua transformação embalou quando uma investigação da Polícia Federal ganhou o apoio de promotores e juízes, além de uma consistência impossível de ser ignorada. Com o nome criativo de Lava-Jato, a operação forneceu as ferramentas essenciais para elevar Janot a protagonista da cena jurídico-política nacional. Na convergência dos trabalhos, abriu-se e mudou a rotina da autoridade a qual fora investido. Mesmo nomeado por Dilma Rousseff, mostrou-se o oposto de Geraldo Brindeiro, conhecido como engavetador-geral pelos críticos do governo Fernando Henrique Cardoso. Arquivou pouco e ofereceu um volume inédito de denúncias contra eminências pardas, autoridades públicas e líderes empresariais. Causou estragos profundos no PT e no PMDB. À frente da PGR, também se envolveu em um episódio estranho ao encontrar Pierpaolo Bottini, advogado de Joesley Batista, em um boteco. O escorregão alimentou suspeitas de haver mais coisas entre o céu e a terra de Brasília do que aviões de carreira, com a licença do Barão de Itararé.
Foi substituído por Raquel Dodge após o "impeachment". Prazer e alívio orientaram a caneta de Michel Temer no ato.

JUSTICEIRO. Retornou ao centro das notícias com um estrépito. Sem uma denúncia bombástica, mas com um delírio. Este: "Num dos momentos de dor aguda, de ira cega, botei uma pistola carregada na cintura e por muito pouco não descarreguei na cabeça de uma autoridade de língua ferina". Inacreditável premeditação oriunda de procurador-geral. E pior: com a gravidade de revelar corpo e mente de um guardião da Justiça dividindo espaço com um alter ego justiceiro. O dono da língua, ministro do STF Gilmar Mendes, foi ferino ao se manifestar.
É... Depois da elevação em Brasília, é difícil voltar ao anonimato da gente comum. E a depressão pós-poder é ainda mais cruel quando combinada com o natural esquecimento público. Rodrigo Janot previu essa abstinência. Em julho de 2017, no 12º Congresso da Associação Brasileira dos Jornalistas Investigativos (Abraji), alertou: "Enquanto houver bambu, lá vai flecha". Agora, em meio à crise do ocaso, pegou o arco, estendeu-o e atirou.
Com tantos alvos à vista, acertou na própria biografia. Haja bambu!


Em tempo: por falar em justiceiro, nessa quinta-feira, em São Paulo, um procurador da Fazenda, armado de uma faca, atacou uma juíza.


Gilberto Soares

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