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Fake news é mentira, jamais notícia falsa

Créditos: Gilberto Soares

O homem é um ser ficcional, segundo análise arguta de Yuval Noah Haari, doutor em História na Universidade de Oxford. Aliás, esta virtude alçou o "sapiens" ao topo da cadeia alimentar, posição na qual se aquerenciou para um domínio sem igual sobre as demais espécies.

Produzir ficção é a habilidade de abrir janelas para o amanhã. Complementa a aridez da realidade do presente, cujas sensações são definidas no momento. Na ato. A criação de histórias é crucial por criar a perspectiva de um amanhã com novidades. Os resultados podem ser díspares, pois dependem dos autores. Em 1870, o escritor francês Jules Verne concebeu 20.000 Léguas Submarina, aventura fantástica que revelou Náutilus ao mundo. Um submarino elétrico extremamente semelhante aos que viriam a ser criados no século XX. Algo bizarro, diante da precisão de Jules Verne ocorreu 80 anos depois, quando a popularidade da ficção científica povoou o espaço com habitantes pouco amistosos. Selenitas na lua e marcianos em... Marte.

MALDADE. A capacidade de produzir ficções também é uma moeda preciosa, apesar de suas duas faces. Por um lado, constrói caminhos que ampliam os horizontes humanos ao infinito e além. Do outro, produz histórias com a intenção de distorcer a verdade. Mentiras de gradações variadas. Começam inocentes, traços da infância; piedosas para mitigar sofrimentos. Mas a efígie marcante é aquela que se veste de verdade. Não deveria ser parte da Política, lugar da fidalguia. Mas é. Deveria passar longe do campo da dialética, a fim da livre e clara contradição de ideias. Está perto demais. Felizmente, novos tempos trazem outros comportamentos. Nos dias atuais, o entendimento coletivo passa a destacar ética e transparência como valores essenciais. Pode parecer algo muito recente, mas não é. Na década de 1970, Richard Nixon renunciou à presidência do Estados Unidos por mentir no exercício do cargo - caso Watergate. O irascível Donald Trump pode seguir o mesmo caminho.

SINAIS. A expressão "fake news" consagrou-se a expressão como "notícia falsa". Nada mais errado e desatual. Se é falso, não é notícia, que tem como princípio a busca obsessiva da verdade factual. Já a produção de mentira em veículos não é novidade. O jornalista Carlos Lacerda criava acontecimentos nos anos 1950/60. César Maia, ex-prefeito do Rio de Janeiro, era mestre em factoides. A diferença agora está nos autores, que passaram a ser milhares de anônimos nas redes sociais.
Nestas eleições, é visível o ambiente tóxico por compartilhamentos de "fake news". Uma polarização acirrada por manifestações carregadas de ódio, que afasta as pessoas sensatas. Está claro nas pesquisas. Votos brancos e nulos predominam e sinalizam algo além de desinteresse. É importante ater-se a esses sinais. Afinal, para um número cada vez maior de cidadãos, a política brasileira é uma ficção tão ruim, que não vale a pena ser reescrita.
Aí mora o perigo.


Gilberto Soares

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