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Glória à lama nas alturas

Coluna Ponto de vista


Brumado tem dois significados, segundo o dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. 1. Mato baixo cerrado, com cipós e espinheiros _ corroborado por fotos e imagens de pequenos paraísos do vale de Brumadinho, nome carinhoso do sofrido município de Minas Gerais. 2. Lavra aurífera sem interesse, por dar mais despesa do que lucro _ definição irônica de um Brasil de gabinetes, que debocha da lei, protege a impunidade e se move por conchavos.

 

MAIS BARATO. O país já tem 197 anos de independência em cinco séculos de achamento português. Mas a elite da administração pública e empresários afeitos a qualquer negócio aferram-se a esta regra três: extrair, limpar e mandar embora, Então, cavouca-se muito nas Gerais, no Amazonas e onde possa haver algo de valor. Este comportamento puramente extrativista minimiza cuidados e maximiza o impacto socioambiental. Mantém métodos abolidos em sociedades mais avançadas e pune as vítimas, quando um crime vem à tona. Mariana tinha de ser o exemplo definitivo, mas foi apenas mais um episódio.
A barbaridade que se derramou a partir da Mina do Córrego do Feijão é uma soma de absurdos. A barreira de proteção foi construída por "alteamento a montante" _ degraus formados pelo próprio rejeito. Menos seguro e mais barato. Não pode haver surpresa quando a segurança é decidida pelo viés "mais barato". E mais: havia um restaurante e um centro administrativo ao pé da mina. Apesar disso, a barragem foi premiada _ só pode ser isso _ com a classificação de baixo risco.
A subserviência ao negócio transparece em uma reunião pública em Brumadinho, em 11 de dezembro de 2018. Preocupado com a situação, Julio Cesar Dutra Grillo*, representante do Ibama, manifestou-se assim: "Casa Branca tem algumas barragens acima de sua cabeça. Muita gente aqui citou o problema de Mariana, Fundão, e vocês aqui têm problema similar (...) Em um negligência qualquer de quem está à frente de um sistema de gestão de risco, aquilo rompe...". Foi voto vencido, mas sua advertência pode ser vista como uma crônica de uma tragédia anunciada.

CAMPO MINADO. O país tem 45 barragens com risco de rompimento, de acordo com o relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) divulgado em 2018. A maioria por falta de conservação, insuficiência de vertedor e ausência de documento comprovante de estabilidade. Apenas oito são vistoriadas anualmente, informação que salienta a ineficácia histórica da administração pública. Já as outras 37 estão entregues aos cuidados do tempo, enquanto a sorte protege a boa gente do entorno.
Capané e Santa Bárbara são as ameaças gaúchas. Ambas armazenam água. A primeira localiza-se em Cachoeira do Sul e serve à irrigação de lavouras. É um belo lago para quem viaja pela BR- 290 e fica distante da zona urbana. Santa Bárbara fornece água para Pelotas, é elevada e tem aglomerados humanos nas proximidades. O departamento de águas do município diz ter atendido às observações feitas pela equipe da ANA.
O relatório é uma admissão de incompetência de um Estado que nada sabe. Porém, tem o mérito enviesado de chamar a atenção para o campo minado ao longo da Pindorama continental. Há muitas bombas prontas a estourar, enquanto o destino escolhe o horror: água, rejeito ou lama em toda a sua glória.

CARTA. Trecho da carta de Pero Vaz de Caminho a El-Rei Dom Manuel I: "Nela, até agora, não podemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém terra em si só é de bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho...". Os donos do mundo queriam (e querem) ouro, prata e ferro. Em permanente estado de liquidação, entregamos tudo. Até a alma.

*Fonte: UOL/Ansa, 26 de janeiro de 2018 - Ibama tinha alertado para o o risco de rompimento da barragem


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