Colunistas

Reinvenção bizarra e as fake news

Créditos: Gilberto Soares

Reinvenção bizarra e as fake news

O Brasil seria um fenômeno de liderança internacional na categoria "desconstruções bizarras", caso houvesse um prêmio Nobel às avessas. O asfalto "patropi" é uma delas. Um genuíno produto da alquimia nacional, que se desfaz em contato com a água e enche de armadilhas o caminho de motoristas e passageiros.

EXCLUSIVO. O desconforto deste inverno combina expressões das antigas - "tá de renguear cusco", "chove a cântaros" - e abre espaço para a buraqueira. Revela a escasses de asfalto, erros em drenagens e desculpas recorrentes. Muitas convergem para "as condições climáticas" - como se "clima" mudasse conforme a estação e o esfarelamento fosse inevitável. No vai e vem da valsa, as artérias mais antigas das cidades expõem paralelepípedos, tais quais ossadas insepultas também em Lajeado. Trilhos de bondes ressurgem em Porto Alegre, ressuscitando um passado nostálgico. E as estradas parecem queijos suíços; Imagine esse know how empregado em Londres, onde a chuva é parte da paisagem. Sorte deles que o Asfalto Farinha é coisa nossa e de uso exclusivo.

REBANHO. Factoide é um artifício conhecido pela imprensa. No livro Folclore Político 2, Sebastião Nery recupera um diálogo surreal entre os jornalistas Carlos Lacerda e Joel Silveira.
"Lacerda propõe:
- Está tudo muito parado, muito morno nesta ditadura. Vamos procurar um assunto e agitar o ambiente. Escolher um figurão. Um ataca e outro defende. Dá certo.
- Ótimo, Carlos, quem?
- O Portinari, por exemplo. Está na crista da onda, com um prestígio enorme e uma obra importante. Você escreve um artigo metendo pau nele, depois eu defendo.
- Está bem, Carlos, mas vamos fazer o contrário. Você ataca o Portinari, que eu defendo".
A conversa mostra uma diferença radical entre o ontem, quando os autores assinavam suas obras, e o hoje.

A Justiça preocupa-se com uma provável enxurrada de fake news nestas eleições. E tem razão. Vivemos uma época de desilusão, descrédito e rancor. Neste tempo de política enxovalhada por assacadores, cresce a discórdia entre direita truculenta e esquerda incoerente. Sobram rumores e falta um tantinho para revesti-los de veracidade - quando os boatos posts travestem-se em notícias. A manipulação de opinião pública é uma realidade no jogo político. O linguista Noam Chomsky, na obra Mídia - Propaganda Política e Manipulação, lembra a frase do jornalista e escritor Walter Lippmann: "Temos de nos proteger do tropel e do ronco de um rebanho desorientado". O rebanho, está claro: a população; a forma de contê-lo é óbvia: adulterar a notícia. Lippmann era homem da uma época de discussões em seletos gabinetes. Agora, a aldeia global multiplica atores e o antigo palco de Maquiavel e eminências pardas está tomado de anônimos das redes sociais.

Os autores de fake news, diferentemente de O Príncipe, não pensam em consequências. Só querem produzir o estouro da boiada.


Gilberto Soares

Comentários

VEJA TAMBÉM...