Geral

Ponto de vista


Um som para cada momento político

A década de 1980 findava como prévia luminosa de um aguardado século promissor. Encerrara-se o Regime Militar, o Muro de Berlim ruíra e levara a União Soviética de roldão - com o pesadelo de um comunismo universal. Duas canções embalavam dia e noite. Uma começava assim: "Caia a tarde feita viaduto/E um bêbado trajando luto/Me lembrou Carlitos". A outra nutria a inocência contida no desejo geral de mudança: "Quero falar de uma coisa/Adivinha aonde ela anda/Deve estar dentro do peito/Ou caminha sem parar". A primeira, O Bêbado e a Equilibrista, e a segunda, Coração de Estudante, viraram hinos espontâneos da Anistia e das Diretas Já. Trilhas para o raiar do amanhã.

ESPERANÇA. Havia leveza nos atos, grandeza nas intenções e uma esperança transcendente aproximava desafetos. O momento propiciava quebras de paradigmas - a mais significativa contrariou a tradição golpista. Esgotado o longo regime discricionário, em 1985, os militares recolheram-se à caserna, discretos e obedientes ao papel constitucional - mesmo açulados por vivandeiras de plantão. A Constituição promulgada em 1988 e a eleição de Fernando Collor de Mello não receberam homenagens musicais. Collor prometeu um Brasil livre de marajás e "carroças". Efetivou a abertura comercial, foi batido pela inflação e tocado pela corrupção. Renunciou antes de cair. Desceu a rampa do Planalto de queixo erguido e olhar transtornado. Fim digno de Marcha Fúnebre. Salvou-nos Itamar Franco, o mais injustiçado dos presidentes. Assumiu, escalou Fernando Henrique Cardoso - FHC - na Fazenda e para a glória no Plano Real. Raridade: saiu sem uma nódoa na biografia. Homem simples - a perfídia tentou grudar-lhe um simplório -, merecia versos e moda de viola de Almir Sater: "Ando devagar/Porque já tive pressa/E levo esse sorriso/Porque já chorei demais" .

TAMBORES. FHC consolidou o real e a estabilidade da economia. Atrapalhou-se no toma-lá-dá-cá para tornar viável a reeleição. Ganhou mais quatro medíocres anos e não fez sucessor. Acadêmico de Paris Nanterre, recolheu-se para curtir La Décadanse como som do ocaso. A decepção abriu as portas para um ex-operário. Luiz Inácio Lula da Silva, "Lullinha Paz & Amor", surpreendeu ao manter a política econômica. Impulsionado pelo crescimento chinês, criou programas sociais - assistencialistas, para os críticos - e expandiu negócios para a América Latina e África - projeto bolivariano, para a oposição. "O Cara", terminou o segundo mandato ainda popular, apesar do impacto do Mensalão. Incisivo, exigiu Dilma Roussef como sucessora. Ao fazê-lo, rufou tambores de uma guerra que emergiu trágica. O conflito desconstruiu a ética Marina da Silva, elegeu Dilma e elevou Aécio Neves ao Olimpo das oposições unidas. Neto de Tancredo e ligado ao poder, Aécio desconheceu o fim do pleito e conspirou até apear a primeira mulher presidente. Veio o "impeachment" e a assunção do inacreditável Michel Temer. O auge das denúncias de corrupção e a crise aguda jogaram a autoestima dos brasileiros no chão. Ou seja, ao encontro da popularidade do indiciado Temer. Tiririca é forte candidato a compor a obra do período.

HERANÇA. A combinação desilusão/indignação cindiu o país. E a radicalização do processo eleitoral rarefez propostas, discussões e simples conversas. Vingou uma campanha sem a inspiração da trova ou do repente, que precisam de sensibilidade para fazer rir ou chorar. A toada "Bolsonaro x Haddad, Haddad x Bolsonaro" encheu todo os espaços. Raivosa, monocórdica e repetitiva. Separando amigos, opondo familiares em grupos de "nós" e "eles". Mas nem assim encobriu o livre-arbítrio essencial a uma eleição legítima - escolher um candidato, anular o voto ou votar em branco. Nem que esse direito se completa com o reconhecimento do resultado. Portanto, vamos refletir e votar em paz neste domingo. Sem apartar o depois em espaços segregados de vencedores e vencidos.
Uma nação para todos depende de grandeza e generosidade para alcançar Um Novo Tempo assim: "Pra que a nossa esperança seja mais que a vingança/Seja sempre um caminho que se deixa de herança".

O Bêbado e a Equilibrista, João Bosco e Aldir Blanc; Coração de Estudante, Milton Nascimento e Wagner Tiso; Marcha Fúnebre, Chopin; La Décadanse, Serge Gainsbourg; Um Novo Tempo, Ivan Lins


Gilberto Soares

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