Reportagens Especiais

Consciência é saber que todos são iguais

De um lado, um ex-jogador de futebol e agora músico; do outro, um ex-jornaleiro e agora mestre.


Vale do Taquari - O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro, no Brasil, e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A semana que inclui esse dia recebe o nome de Semana da Consciência Negra. Por isso, o Centro de Cultura Afro de Lajeado  realiza, de 17 a 24 de novembro, uma série de atividades.
A programação começa hoje, com jantar-baile no salão paroquial da Igreja Nossa Senhora da Conceição, Bairro Moinhos. Os cartões, a R$ 18, podem ser adquiridos com os membros da diretoria. A animação fica por conta do grupo Beijo Molhado, músico Darci Maravilha e Musical URPM.
Já no dia 20, a partir das 19h30min, no auditório da Casa de Cultura, haverá uma palestra com o historiador Gilson dos Anjos. A programação é aberta ao público e tem como tema, "Reconhecimento e negritude: uma questão de educação?". Durante toda a semana, os integrantes do Centro de Cultura estarão nas escolas de Lajeado, Cruzeiro do Sul e Estrela realizando palestra e mostrando um pouco de sua cultura.
Segundo a vice-presidente do Centro de Cultura Afro, Lisete Machado, este ano, a programação está mais enxuta, porém não menos importante. "Vamos realizar uma semana voltada às palestras nas escolas, o foco será a tese de mestrado do amigo Gilson dos Anjos. Com certeza, serão momentos de aprendizagem para os alunos e uma troca de experiências para ambas as partes."

Negros sim, e com muito orgulho
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de negros no Vale do Taquari elevou-se ao longo de dez anos. Em 2000, o Censo apontou 9.070 negros; já na última apuração, em 2010, chegou a 11.925.
São pessoas como Darci Maravilha (62) e como Gilson dos Anjos (47) que, além de representar muito bem sua raça, mostram que o preconceito está na cabeça de cada um e que, com sabedoria e força de vontade, é possível alcançar os seus objetivos. Eles provam isso com suas histórias e falam um pouco de sua trajetória.
Darci da Silva Costa, ou apenas "Darci Maravilha", como é conhecido por todos. Ex-jogador de futebol, em que balançou as redes por inúmeras vezes por conta de sua posição de centroavante, hoje vive da música. Depois de encerrar sua carreira no Clube Esportivo Lajeadense, Maravilha resolveu investir naquilo que para ele é um dom de Deus: "Assumi a música".
Separado e pai de um único filho, Darci Maravilha conta com alegria que já é avô, e mesmo morando sozinho em um quarto de hotel, diz que a vida só lhe traz motivos para sorrir, o que se comprova quando questionado sobre como se definiria: "Comigo é só alegria".
O homem viajado que percorreu vários estados e países por conta da profissão de jogador de futebol, agora vive em Lajeado e garante que começou a trabalhar muito cedo e só pôde concluir a 5ª série do Ensino Fundamental. "Minha faculdade foi no mundo." O menino que aprendeu as responsabilidades de forma prematura, hoje traz sua alegria embalada pelas notas musicais. "É importante fazer aquilo de que se gosta, não é o dinheiro e sim a tua realização como pessoa que prevalece. Hoje, a música é mais que a minha vida, porque hoje eu vivo dela."
Ao contrário de Maravilha, Gilson dos Anjos pôde investir todas as suas fichas no estudo. Graduado em História pelo Centro Universitário Univates, este ano, ele comemora o fato de concluir o seu mestrado pela Ufrgs. Além disso, o professor é sócio-fundador do Centro de Cultura Afro e batalha com os demais integrantes por reconhecimento, respeito e dignidade.
Com livros na bagagem, Dos Anjos conta que trabalhou muito em cima de seu sonho e que graças ao seu empenho e ao apoio da esposa foi possível chegar à conclusão de seu mestrado em Educação. "Meu primeiro emprego foi como vendedor de jornais", conta. "Andava mais de oito quilômetros a pé para garantir o meu salário no fim do mês. Hoje estou começando uma nova etapa na minha vida."
Dos Anjos afirma que é a favor do sistema de cotas nas universidades, mas garante que seu ensino foi totalmente pago pelo financiamento estudantil. "Grande parcela da população faz como eu fiz. Fiquei durante 32 anos trabalhando, e nas horas de folga, estudava", relata. "O Ensino Médio tive que começar quatro vezes; é preciso muita força de vontade."
Professor em escolas estaduais e municipais na região, Dos Anjos diz que sua meta agora é se tornar professor universitário. "Por enquanto faço serviços de consultoria e palestras, como a que farei durante a Semana Cultural, momento em que irei apresentar minha tese de mestrado." Sempre com os pés no chão, o professor afirma que tudo é possível àquele que acredita. "Consegui estudar bem mais tarde que o normal e tenho bem claro em minha mente que sou a exceção que confirma a regra."

O Centro de Cultura Afro Brasileiro comemora dez anos de fundação com a Semana Cultural Afro. A entidade foi fundada, em 20 de abril de 2002, por negros que tiveram a iniciativa de valorizar e integrar a cultura afrodescendente à sociedade lajeadense. O objetivo do centro é congregar descendentes africanos e os simpatizantes de suas tradições, incentivando entre estes o exercício de atividades desportivas, sociais, educacionais e culturais.
Segundo Lisete, durante esses dez anos, o Centro de Cultura, por meio de parceria com o Poder Público Municipal e a iniciativa privada, vem demonstrando com afinco as virtudes e a importância do engajamento dos negros na preservação e no desenvolvimento dos valores culturais vindos de raízes africanas. "Martin Luther King Jr. foi assassinado por ter ousado lutar pela liberdade e pela igualdade dos negros nos Estados Unidos. Nós o usamos como símbolo e a sua famosa frase: ?Eu tenho um sonho?."
Lisete diz que o sonho de Martin Luther King Jr. era que todos tivessem direitos e oportunidades reais de ascensão em todos os segmentos da sociedade. "O fim da discriminação racial velada, mascarada, que ainda persiste e que impede a evolução da população negra. Nós sonhamos com o dia em que todos seremos tratados com igualdade, com fraternidade e com justiça, pelo bem e pelo progresso de todas as etnias. Nós do Centro de Cultura resgatamos o passado, valorizamos o presente e acreditamos no futuro", afirma Lisete.

Vovô Teobaldo em festa
A cultura afro estará em evidência amanhã, no Salão da Comunidade de São Roque, Palmas, em Arroio do Meio, onde ocorre um evento especial em comemoração ao Dia da Consciência Negra. O início está marcado para as 9h30min, com apresentações artístico-culturais preparadas pela própria comunidade, integrantes da associação Vovô Teobaldo.
Terno de reis, capoeira e dança em homenagem aos orixás fazem parte da programação. Ao meio-dia será servido almoço misto com pratos típicos da culinária afro-brasileira e churrasco. Os cartões estão à venda a R$ 17 e podem ser adquiridos na Secretaria de Educação e Cultura e com integrantes da associação.
Após o almoço, haverá apresentação do grupo convidado da cidade de Encantado. As festividades seguem na parte da tarde com serviços de copa e bar e reunião dançante. A programação integra as comemorações pelos 78 anos de Arroio do Meio e é promovido pela Associação Vovô Teobaldo, com apoio da Administração Municipal e Emater.
Instituído por lei, o Dia da Consciência Negra é comemorado anualmente em todo o país no dia 20 de novembro, com eventos e ações que lembram a história dos negros e a importância deles na cultura brasileira. Em Arroio do Meio, a data é festejada desde 2009 pela entidade formada por famílias remanescentes de comunidades quilombolas, conforme certificação da Fundação Cultural Palmares.

Carolina Gasparotto
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