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Água: incolor, insípida, inodora e... invisível?

Ocultação das nascentes é um problema da urbanização que impacta na composição dos sistemas hídricos da Terra

Créditos: Rodrigo Nascimento

Cerca de 65% de seu corpo é formado por água. Em média, você utiliza, por dia, 200 litros dela para manter suas atividades diárias - alimentação, banhos e outras. Ela está em mais de 70% da superfície da Terra.

Com números tão grandiosos, difícil é imaginar que a água está se tornando invisível.

Isso acontece cada vez que uma nascente é fechada - seja pela urbanização das cidades ou pela ação do homem, que ignora a capilaridade e complexidade do sistema hídrico terrestre.

O processo de urbanização também não contempla as consequências de retirar peças de uma engrenagem construída pela natureza há milhões de anos - o sistema hídrico da Terra.

O biólogo e professor titular do Departamento de Ecologia da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), Jackson Müller, garante que é incontável o número de nascentes soterradas em uma cidade. De acordo com ele, as cidades geralmente não respeitam o desenho das águas na superfície e sepultam as nascentes sem temer a revolta da natureza no futuro.



Sobre alteração de nascente, ouça




O Código Florestal Brasileiro prevê, desde a sua criação, a preservação das nascentes de rios e a mata e a diversidade de seres vivos que povoam essas áreas. No entanto, o crescimento das cidades não respeita o que diz a lei. "Ainda hoje, a sociedade ignora as nascentes e, quando as identifica dentro de seus terrenos, tenta escondê-las", diz Müller.

Um estudo desenvolvido pelo Departamento de Ecologia da Unisinos mostra que em uma cidade gaúcha onde se acreditava que existiam oito nascentes, o mapa hidrográfico da área pontuou 53 vertentes, quase todas aterradas.



O Rio Grande do Sul já sentiu sede por falta de água. No período de 2003 a 2005, a estiagem atingiu cerca de 350 municípios gaúchos, forçados, na época, a decretar situação de emergência.

 

Essas cidades não estavam preparadas para enfrentar a seca. "Nós não desencadeamos nenhum mecanismo de prevenção. As cidades não se organizam para ter uma reserva", frisa o biólogo da Unisinos.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desenvolveu um relatório que mostra a intensidade de chuva e a baixa capacidade de manter a água terrestre nos períodos de estiagem. O mapa da seca, no Estado, é uma mostra do que o desequilíbrio gerado pela extinção das nascentes pode causar.



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Nós estamos usando o regime hídrico da natureza e destruindo as nascentes de modo semelhante ao uso de um cartão de crédito. Não sabemos até quando ele terá validade ou até onde ele pagará essa conta

Jackson Müller, biólogo




A crise da água


O coordenador do Laboratório de Biologia Aquática da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, Nelson Ferreira Fontoura, fala em colapso da água.

Fontoura explica que as nascentes são importantes para manter o fluxo das águas ao longo do tempo. É a nascente que conecta a biodiversidade com a água e auxilia no controle dos mananciais. Em outras palavras, a regulação dos sistemas aquáticos passa pela existência ou não de nascentes mantidas.

Além de modificar o fornecimento de água, a existência das fontes naturais impacta a movimentação do líquido no solo. O professor Fontoura fala em aceleração do processo de cheia por conta da não preservação da bacia hídrica e de suas vertentes.



Representação gráfica de uma nascente aterrada. Água sai da superfície e encontra caminho nas camadas subterrâneas, tornando-se invisível


Sobre a chuva e as nascentes, ouça




O homem escondeu a água

 

O chefe do Departamento de Gestão de Recursos Hídricos da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), Paulo César Cardoso Germano, fala que o traçado das cidades é uma herança grega.

Inspirado no tabuleiro de xadrez, onde cada casa corresponde ao desenho de quadras e ruas de uma cidade, o homem civilizado passou por cima do relevo e modificou, sobretudo, o curso das águas.

Germano, que é engenheiro civil, critica os seus pares. "Quando uma cidade elabora seu Plano Diretor, ela já estabelece a área e os vetores do desenvolvimento urbano. A preservação das nascentes deveria estar prevista nesse plano", define.

Pensar em um Plano Diretor que respeite as fontes de água de uma cidade não é difícil. Segundo o diretor da Corsan, responsável pelo abastecimento em mais de 320 cidades no Estado, encontrar o caminho da preservação é possível. "Hoje, temos acesso aos documentos do Exército e imagens de satélite. O cruzamento dessas informações permite, facilmente, a elaboração de um mapa de nascentes."

A Corsan afirma não trabalhar com a drenagem de água que, nas palavras do diretor, seria o monitoramento de nascentes. Não há, também, sequer uma previsão de quantos pontos aquíferos, na superfície, existam no Rio Grande do Sul.



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Os gestores municipais têm o dever de pensar suas nascentes. Essa é uma tarefa para o futuro

Paulo César Cardoso Germano, engenheiro civil






Seca, a face visível da água escondida

 

São Paulo, o maior centro financeiro do Brasil, tenta sobreviver em meio à escassez de água. A estiagem que açoita o Estado reduziu a menos de 3% as reservas do Sistema Cantareira, responsável pelo fornecimento de água na maior parte do Estado.

Germano conta que, na situação caótica da falta d?água em São Paulo, a preservação das nascentes daria um "gole" para o sistema hídrico, aumentando a autonomia na ausência de chuva.




Sobre má gestão hídrica, ouça






Recuperação da nascente: o revés da urbanização

 

O Centro Universitário da Univates, localizado em Lajeado, recuperou uma nascente fechada pelo lodo e pelo assoreamento do terreno. O local que na década de 1950 era usado como contenção da chuva e para matar a sede dos animais, quase havia sumido da paisagem do campus.

Sobrevivente de uma época em que a canalização da Corsan não alcançava o Bairro Universitário, a nascente do centro universitário agora ressurge com vida.

A bióloga Cátia Viviane Gonçalves acompanha de perto o processo de revitalização da lagoa formada pela fonte. Dentro da instituição de ensino, o espaço é um berçário de vida e de preservação.




Entenda a importância dessa nascente






Bem-estar social e ambiental

 

Por meio de um estudo feito pela própria Univates, a nascente recuperada atua de duas formas no ecossistema de Lajeado. Uma das funções se constitui no espaço revitalizado, convidativo à contemplação dentro do campus.

A outra reflete nas famílias que moram na vizinhança do Centro Universitário. De acordo com a bióloga Cátia, antes da recuperação da nascente, quando chovia muito forte, a comunidade do Bairro São Cristóvão, que fica geograficamente abaixo da Univates, sofria com alagamentos.

Cátia diz que o curso da água que brota dentro do campus foi canalizado pelos moradores que, na época, utilizaram métodos diferentes para gerenciar a água. Instalaram canos de diferentes espessuras e, quando chove muito, o sistema falha.

A água escondida aparece, causa alagamentos e prejuízos. "Isso tudo foi calculado. A lagoa não conseguia mais represar a chuva e a vazão da própria nascente", relembra a bióloga.

No estudo que mediu o impacto ambiental para recuperação da nascente, a previsão de enxurrada foi considerada, e a nova estrutura do lago deve segurar a inundação, "ao mesmo tempo em que, em uma estiagem, ajuda no controle térmico e na manutenção do ecossistema". A nascente será entregue à comunidade no dia 15 de novembro.



Nascente em recuperação na Univates, em Lajeado


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Uma nascente é uma forma de lembrar que estamos ligados à natureza, e isso vai além do beber água. Mexe com alguma coisa dentro da gente, dá uma sensação de bem-estar 

Cátia Viviane Gonçalves, bióloga




Os produtores de água

A Agência Nacional de Águas (ANA) lançou o programa Produtor de Água. O projeto prevê incentivo financeiro ao produtor que preservar as águas que circulam em suas terras. Além do incentivo para preservação, o Produtor de Água estabelece a compensação financeira aos agricultores que comprovarem a preservação da água.

O Produtor de Água já foi implantado em 14 cidades do Brasil. No Rio Grande do Sul, a cidade de Vera Cruz, no Vale do Rio Pardo, alcança 56 propriedades rurais, fornecendo água para o abastecimento doméstico de 70% da área urbana e a usos múltiplos no campo. Vera Cruz tem uma população, segundo o IBGE, estimada em 28 mil habitantes.

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