Reportagens Especiais

Apos sete décadas, magistério do Madre Barbara pode parar

Curso, que ja formou quase dois mil estudantes, sobrevive com bolsas integrais, incentivos e apenas nove alunos


Lajeado  - Tente pensar no ano de 1940. Época em que a TV ainda nem tinha entrado nos lares brasileiros. A seleção nunca havia ganhado a Copa do Mundo de futebol. Na música, nomes como Lupicínio Rodrigues, Dorival Caymmi e Ary Barroso dominavam as rádios no país, tornando-as populares. Em plena Era Vargas, o salário mínimo era instituído. No mundo, os movimentos totalitários começam a tomar forma em países como Alemanha e Itália. Na mesma época, nos Estados Unidos, o presidente Franklin Roosevelt era reeleito pela terceira vez. No cinema, o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, é o hit da temporada. Enfim, são tantos fatos que fica até difícil citar o mais importante do período.
Talvez para a história de Lajeado, o mais significativo de todos os eventos ocorridos em 1940 não seja nenhum dos relatados acima. Especialmente se levarmos em conta que foi nesse ano que surgiu o Curso Normal - ou o magistério -, a tradicional formação oferecida pelo Colégio Madre Bárbara. De lá para cá, durante mais de 70 anos, cerca de 3,3 mil estudantes entraram alguma vez na vida em sala de aula para frequentar o curso, sendo, entre estes, quase dois mil formados. Estudar para o ofício de professor de Séries Iniciais já foi tão tradicional que, em 1986, mais de 60 docentes saíram das classes do colégio. Nomes importantes como o de Rejane Ewald, secretária de Educação de Lajeado, já frequentaram os sempre movimentados corredores da instituição de ensino.
Ocorre que esta etapa tão importante da história educacional do Vale do Taquari pode estar chegando ao fim. Com apenas nove alunas frequentando o curso e poucas perspectivas de fechamento de uma nova turma, o magistério pode, depois de tanto tempo, não acontecer. A diretora Maria Elena Jacques embarga os olhos ao falar da formação que sobrevive hoje, a muito custo, com o auxílio de bolsas integrais e outros incentivos. "Até o momento, apenas duas pessoas interessadas em fazer parte da turma, em 2013, apareceram. Para que o curso ocorra, são necessários pelo menos 15 estudantes", salienta. "Se dependesse da congregação - que mantém o colégio -, a formação já teria sido extinta há mais tempo", diz.
Para Maria Elena, a exclusão desse tipo de formação gera um grave problema: o da decadência da qualificada educação de base. De acordo com ela, o Vale só irá se dar conta da situação quando não houver mais professores. "Tem faculdade dando 100% de desconto, sem alunos. Na região, temos tantos mestres, doutores, advogados, engenheiros. E tudo começou com a boa formação nas Séries Iniciais."

Heroinas da resistência
Entre as nove alunas que frequentam o curso estão as jovens Iohana Meier (17) e Juliane Cassuli (16). Acostumadas a, desde cedo, vivenciar as rotinas de uma sala de aula, dizem-se realizadas com o que fazem. "Receber o reconhecimento tanto dos alunos, como dos pais, é algo muito gratificante", afirma Iohana. Já para Juliana, vale a formação pessoal, o que se está aprendendo e o que se vai levar para sempre. "No curso aprendemos que, como professores, não somos transmissores e sim mediadores do conhecimento", discursa. "Por meio das práticas, adquirimos o conhecimento de como chegar nos alunos, como conversar, como educar."

"Explicaçao pode estar na boa formaçao da rede publica
A coordenadora regional de educação, Marisa Bastos, acredita que certas mudanças no ensino podem estar determinando esse fenômeno. Na visão dela, a possibilidade de ingressar no Ensino Superior por meio de programas e incentivos para as licenciaturas faz com que os alunos não procurem tanto o Curso Normal dentro do Ensino Médio. Para Marisa, outro aspecto que pode explicar o fato é a oferta de uma formação de qualidade dos magistérios da rede pública que, agora, contam com a mesma duração das particulares - três anos e meio. "Acredito que a valorização do curso como pré-requisito para concursos possa ser um atrativo para futuros candidatos. Algo que já ocorreu em algumas escolas em 2011", diz.

"Aposto na força de uma historia"
O relacionamento da secretária de Educação de Lajeado, Rejane Ewald, com o Colégio Madre Bárbara é muito particular. Formada pelo Curso Normal em 1970, ela não acredita que este possa estar chegando ao fim. "Aposto na força de uma história de formação de professores", afirma convicta. Para ela, a bagagem cognitiva, cultural, ética e moral construída pelos profissionais e pela Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria sempre abriu múltiplas possibilidades para todas as pessoas com a oferta de uma educação laica e de qualidade. "Neste sentido, creio na mobilização da região como um todo, na medida em que estamos todos comprometidos com a história da própria educação do município e da região."
Ainda assim, Rejane admite haver uma diminuição da procura pelo curso por três razões principais. Uma delas, a mais importante, diz respeito à crescente demanda de uma sociedade que responsabiliza quase que exclusivamente a escola pela função de educar, cobrando resultados imediatos, quando estes, em geral, são a longo prazo. Em segundo lugar, estaria a já tão batida falta de valorização salarial. "Neste sentido, destaco a má distribuição de recursos num país que investe menos de 4% do PIB nessa área", diz. Um terceiro ponto salientado pela secretária estaria diretamente relacionado à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que passou a considerar apenas a universidade como formação superior. "Entendo que o Ensino Médio desse profissional deva estar diretamente voltado para esta formação, ou os currículos universitários precisarão de alterações."

Primeira turma de formandas
Dona Anita Scheffmacher, de 87 anos, fez parte da primeira turma a concluir o Curso Normal, no ano de 1943.

Quem vê a vitalidade com que a Anita Scheffmacher encara a vida não imagina estar diante de uma senhora de 87 anos. Bem disposta, divertida e falante, ela recebeu a reportagem do jornal O Informativo em sua casa, no Bairro Florestal, para falar de uma época que não retorna mais - mas que ela guarda com muito carinho. Dona Anita fez parte da primeira turma de formados pelo Curso Normal do Colégio Madre Bárbara. E hoje, recebe com tristeza a notícia de que o tradicional curso pode estar chegando ao fim.

O Informativo - Como a senhora recebe a notícia de que o Curso Normal do Colégio Madre Bárbara pode estar chegando ao fim?
Dona Anita - É triste saber que o curso não vai pra frente. Hoje em dia, o magistério está sendo pouco valorizado. Tanto na parte financeira quanto em relação ao respeito aos professores. Atualmente, o docente não pode dizer mais nada para os alunos, sob pena de levar processo. É claro que as professoras também têm lá sua parcela de culpa. Elas vão pra sala de aula, fazem o blábláblá delas e viram as costas. Se aprendeu, legal, se não aprendeu, tanto faz. Na minha época de docente, a vontade era a de colocar o conhecimento pra dentro da cabeça de qualquer jeito.

O Informativo - Que lembranças você tem daquela época?
Dona Anita - Naquele tempo, tudo era diferente. O primário (equivalente ao Ensino Fundamental atual) ia até a 6ª série. E o Curso Normal era como se fosse a faculdade da época. Até vestibular era necessário. Mas lembro que estava tão bem preparada que fiquei em 1º lugar no processo seletivo.

O Informativo - Ainda tem contato com ex-colegas?
Dona Anita - Hoje são poucas as que vivem, muitas morreram. Eu ainda estou aguentando (risos)! Mas há ex-colegas que sei que estão vivas. Claro que perdemos o contato, mas sei delas.

O Informativo - Você imagina haver muitas diferenças entre os profissionais de hoje e os do seu tempo de estudante?
Dona Anita - Acho que o resultado do concurso do magistério responde, em parte, a essa pergunta. Tenho conhecidos que fizeram e não passaram. Imagine só o preparo deles? Na minha época, entrava madrugada adentro preparando as minhas aulas. Tudo era feito de maneira apaixonada.

O Informativo - Quais aspectos, além do salário, estariam atrapalhando os futuros professores?
Donta Anita - Para começar, os livros são muito caros. Para ler alguma coisa, só em biblioteca. O excesso de informação, as novas tecnologias também influenciam muito. A TV estraga as crianças. O computador faz com que elas fiquem a tarde inteira sentadas. Não há dúvidas de que, fisicamente, eles estão se prejudicando. A minha filha está sempre dizendo para eu comprar um computador. Mas se eu fizer isso, ficarei muito tempo em casa, tenho certeza. Ainda prefiro os livros. Não durmo sem ler pelo menos duas páginas.

Tiago Bald
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