Reportagens Especiais

Câncer: tratamento de ponta é disponível no Vale

Hospital Bruno Born realiza estudos clínicos que tratam pacientes com imunoterapia

Créditos: Rodrigo Nascimento e Thaís Presser
- Lidiane Mallmann
Vale do Taquari - A imunoterapia é um marco, um novo capítulo no tratamento do câncer. O oncologista do HBB explica que o princípio básico do tratamento consiste em reordenar o sistema imunológico do doente, associado ou não a uma quimioterapia convencional, de tal forma que o seu próprio organismo passe a combater o tumor.

"Imagine que um adulto normal tem dez trilhões de linfócitos circulando no seu corpo a cada minuto. É como dar uma nova ordem para este exército e dizer: vejam aquelas células, até hoje elas se passaram por boazinhas, lhes enganaram, mas na verdade elas são malignas. Vão lá e as destruam", exemplifica.

Já existem tratamentos disponíveis no Brasil e no mundo desta nova classe terapêutica. Eles não estão acessíveis para o Sistema Único de Saúde (SUS), e, mesmo para os planos de saúde, o problema é o elevado custo do tratamento.

"Estamos falando de tratamentos para um único paciente que podem chegar ao custo de meio milhão ou mais por ano, apenas com o medicamento", diz. Orgulhoso, Brust menciona que, felizmente, a Oncologia do HBB sempre teve seu lado visionário.

"Quando criamos a Unidade de Pesquisa, já imaginávamos que esta seria uma forma de oferecer terapias inovadoras, sem custo algum para o paciente ou para o governo". Segundo ele, está disponível para qualquer pessoa do país, a oferta de estudos clínicos que tratam pacientes com imunoterapia para câncer de pulmão, estômago, dentre outros tipos de tumores.

Além da imunoterapia oferecida por meio da pesquisa, existem outros tipos de tratamentos biológicos, que também fazem parte dos estudos do centro de pesquisa do HBB. "Todos nossos estudos são internacionais, ou seja, o nosso paciente recebe o mesmo tratamento de alguém que está no mesmo estudo em Porto Alegre, São Paulo, Alemanha, Estados Unidos, ou qualquer outro país."

Brust frisa que tais tratamentos não são experimentais no seu sentido literal. "Jamais poderíamos oferecer um tratamento experimental para alguém com câncer, sem que esta pessoa recebesse também o melhor tratamento disponível naquele momento. Ou seja, eles recebem o melhor disponível e mais alguma coisa inovadora."

Atendimento
No Centro de Oncologia do Hospital Bruno Born, a coordenadora do serviço de oncologia quimioterapia e radioterapia, Roselaine da Silva Maciel, explica que o serviço funciona de segunda a sexta-feira. Segundo ela, mensalmente são em média 1, 2 mil pacientes em tratamento de quimioterapia e radioterapia.

Entre os principais cânceres tratados no HBB estão o de mama, próstata, esôfago, pele, útero, orofaringe, cólon, pulmão, laringe, tireoide, esôfago, encéfalo, pâncreas, intestino e reto, metástase óssea, fígado e hipofaringe.

Em questão

O Informativo do Vale - Há fatores que contribuem no desenvolvimento de câncer? Como podemos nos prevenir da doença?

Leandro Brust - Vamos dividir o câncer em dois grandes grupos, de forma didática. Aqueles que ocorrem por questões genéticas hereditárias e aqueles que acontecem por um "azar da vida", ou por um estímulo gerado pelos maus hábitos de vida da pessoa.
Nos casos hereditários, podemos monitorar e diagnosticar uma lesão chamada pré-maligna, intervindo mesmo antes que ela vire um câncer maligno. Já existem testes genéticos feitos inclusive na nossa região que podem dar uma ideia destes riscos.
Sem sombra de dúvidas, ter hábitos de vida saudáveis fazem parte de uma boa intervenção no segundo grupo.

A regra é a mesma de sempre: comer fibras, verduras, não exagerar na carne vermelha e gorduras e tomar muita água. Talvez o que temos de novidade no sentido de a ciência mostrar cada vez com mais convicção é o fato de que praticar exercícios físicos seja uma forma muito positiva de se diminuir o risco de inúmeros tumores, além de melhorar a tolerância ao tratamento quimioterápico. O câncer possui inúmeras anomalias e uma delas é a desregulação do metabolismo. É por este caminho que a atividade física consegue atuar na ocorrência do câncer e na tolerância aos tratamentos.

Não posso deixar de falar que alguns tipos de cânceres são preveníeis através de vacinas, que por sua vez imunizam a pessoa contra determinadas infecções. Dois exemplos clássicos são a vacina para a hepatite tipo B e a vacina do HPV, que ajudam a prevenir a ocorrência de câncer de fígado e colo uterino, respectivamente.
Entre os fatores que contribuem no desenvolvimento de câncer, disparado está o tabagismo. Lembro que o tabagismo associado ao álcool não é um cálculo de 1 + 1 = 2. Eles são potencializadores, então, tabagismo + etilismo = 4, por exemplo.

Talvez uma das grandes falhas que o ser humano tem no seu dia a dia seja o fato que os seus hábitos de vida não saudáveis não se repercutem sob a forma de um câncer de forma imediata. Dessa forma, plantamos hoje estes hábitos de vida para colher seus frutos em 5, 10, 20 anos ou mais. O ser humano tem muita dificuldade em conseguir mensurar um ganho ou benefício futuro.

O Informativo do Vale - Você considera que nossa região é bem servida em clínicas e hospitais de tratamento de câncer e o que você acredita que poderia melhorar?

Brust - Não só considero que estamos na crista da onda, como tenho convicção que o HBB é a grande referência no tratamento do câncer na nossa região. Ouvimos isso de gestores e médicos que são referência do Brasil inteiro. Prova disso é que hoje somos procurados ativa e sistematicamente para darmos opiniões e participar de projetos nacionais e internacionais, assim como recebemos pacientes encaminhados inclusive de Porto Alegre, por exemplo.

Hoje, a oncologia do HBB não é mais um simples serviço de tratamento aos paciente com câncer, hoje somos referência, fazemos pesquisas e nosso nome circula em outros países como Estados Unidos, Alemanha e Suíça. Desenvolvemos e iniciamos o programa de Residência Médica em Oncologia, ou seja, estamos formando novos oncologistas (que depois irão Brasil afora atender a população e levar o nosso nome) sob a chancela do Ministério da Educação (MEC). Esse nosso projeto foi aprovado com louvor. E mais novidades apresentaremos ao longo do ano.

Sobre poder melhorar, isto sempre é possível. Não é do nosso perfil estar e ficar na zona de conforto. O câncer é uma doença dinâmica e para combatê-lo precisamos ser tão dinâmicos quanto ele. Penso que a nossa potencialidade enquanto centro de referência no tratamento do câncer está subaproveitada. Temos capacidade para absorver mais demanda, mais municípios, sem cair na qualidade. Queremos espalhar esta nossa visão e qualificação. Não almejamos nada menos do que continuar sendo uma referência nacional do tratamento do câncer. Para isso, precisamos nos aproximar do poder executivo municipal, estadual e federal. Juntos prospectaremos novos e velhos projetos para o bem da sociedade gaúcha.

O Informativo do Vale - Você considera que o atendimento para tratamento de câncer pelo SUS é satisfatório? Há melhorias a serem feitas?

Brust - Sob inúmeros aspectos ele é bom sim. Poderia ser melhor se mais recursos fossem alocados para a oncologia. Conseguimos de forma muito equânime balizar tais dificuldades (SUS x privado) através da pesquisa clínica. Precisamos continuar evoluindo na gestão dos recursos da saúde e acho que o novo Secretário da Saúde tem todos atributos para dar vazão a estas demandas da nossa comunidade. Depois que sairmos dessa tempestade em que o Brasil se encontra, vamos continuar rumando a uma medicina mais preventiva e menos terapêutica. Até lá, primeiro precisamos resolver o problema daqueles que batem a nossa porta já com diagnóstico de câncer.

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