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Consumidores querem tecnologia em casas acolhedoras

Pesquisa realizada pelo IPC Maps de São Paulo traça o perfil de quem mais compra


Vale do Taquari - Composta em 1987 por Arnaldo Antunes, a música "comida" era uma previsão do comportamento econômico atual. Na letra, ele fala que "a gente não quer só comida", mas também conforto e diversão. Hoje é a realidade. A projeção feita pelo IPC Maps de São Paulo mostra que a nova classe média - formada a partir da elevação no nível socioeconômico da população - vai investir em conforto no lar. No Vale do Taquari, 18 municípios subiram no ranking do consumo, três se mantiveram estáveis e 17 caíram. Em Lajeado, líder do ranking regional, de cada R$ 100 gastos no Brasil, 5 centavos saem dos bolsos lajeadenses.
O jovem empreendedor Diego Martins (foto) é uma prova de que a projeção do IPC está correta. Aos 35 anos de idade, ele deu uma guinada e deixou a vida de empregado para ser patrão. Com a decisão, tudo mudou. Especialmente na carteira. Natural de Lajeado, até 2011 ele vivia o sonho de uma vida mais confortável. Martins deixou os 30 e poucos metros quadrados do JK no Florestal e mudou para um apartamento com quarto, cozinha ampla, churrasqueira e garagem. "E o banheiro é enorme, muito diferente da casa antiga."
Martins faz parte da estatística. Dentro dos itens de prioridade apontados pelo estudo, o porcentual mais elevado - 25,5% - é referente aos gastos com a manutenção do lar. O consultor da IPC  Marcos Pazzini explica que o quesito "manutenção" do lar refere-se ao investimento em conforto. "São aquelas despesas com moradia, incluindo aluguel, telefone, tevê por assinatura e internet." Martins tem todas elas. Algumas refinadas.
Sobre a mesa nova, comprada sob medida para a nova casa, repousam o notebook e o celular - ambos com acesso rápido à internet. Do controle da televisão de LCD, códigos numéricos escolhem o programa preferido, em diversos canais nacionais e internacionais. A televisão por assinatura é outro bem que agrada ao moço.
Se a casa vai bem é porque a fonte de renda cresceu muito. Triplicou, segundo ele. Até o fim do ano passado, ele era empregado. Hoje tem sua revenda de automóveis em Arroio do Meio. "Escolhi o município depois de pesquisar que é uma das grandes economias do Vale e está perto de Lajeado." No Bairro São Caetano, à margem da ERS-130, ele alimenta o consumo. A revenda de automóveis, que começou com quatro carros, hoje tem 30. "Eu achava que não ia vender mais que um carro por mês - já saíram nove", comemora. Segundo o IPC, gastos com veículos representam 5% - mais do que saúde e vestuário.

Consumo regional

Lajeado subiu uma posição e desfruta a 21ª colocação no ranking das cidades gaúchas que mais consomem. Logo na sequência vem Estrela, três posições à frente do desempenho de 2011. Seguem na lista das maiores, Teutônia, Taquari, Encantado e Arroio do Meio (ver tabela). "Isso mostra que dos quase 500 municípios do Estado, estamos em um extrato que concentra os 2% mais bem qualificados", compara o secretário de Indústria Comércio, Carlos Alberto Martini. Na avaliação dele, a densidade populacional do Vale - quase 340 mil habitantes - torna o consumo mais expressivo. "Contudo, é preciso ponderar que nas cidades maiores, como as primeiras colocadas e, em especial, Lajeado, o volume de consumo é muito maior", analisa.

Sacoleiros travam negócios em Vespasiano
Vespasiano Corrêa não está no fim da tabela de consumo. Ainda assim  foi a cidade que mais perdeu posições na projeção 2012, com base no ano anterior. No ranking estadual, o município estava em 363º lugar. Agora está em 415º. E há uma explicação lógica para isso. A presidente da Associação Comercial e Industrial de Vespasiano Corrêa (Acivec), Luciana Bassani Dachery, diz que o comércio ambulante é motivo de fechamento de lojas. "Existem sacoleiros que vendem de porta em porta. Tem gente que tem em casa praticamente uma loja de forma irregular." Para Luciana, esse é um fator cultural difícil de combater.
Denise Dachery (41) atua no comércio há 19 anos e conta que a venda informal de roupas e artigos, praticada por ambulantes, aumentou nos últimos anos. Segundo a lojista, todos os dias pessoas que comercializam artigos ligados ao vestuário e calçados são avistadas perambulando pela cidade. No entanto, não permanecem somente na área urbana. Os sacoleiros também migraram e invadiram o interior da pacata cidadezinha de dois mil habitantes. "Com a ida dessas pessoas até as casas, fica mais difícil que os consumidores venham até as lojas."
Desde que a ação dos ambulantes se intensificou, ela estima redução nas vendas. "Não parei para calcular em porcentagem, mas caiu significativamente." Denise observa que a maior parte desses vendedores em domicílio é de outras cidades. "Sofremos com essa situação e também com o fato de que as pessoas daqui vão para outras cidades fazer suas compras", diz, referindo-se a muitos que só trabalham em Vespasiano Corrêa, não gerando lucro no comércio local, e que outra fatia se desloca a centros maiores, como Encantado e Guaporé, para adquirir roupas e calçados.

Livros em penúltimo

Embora tenha elevado o nível econômico da população, a preferência por bens de valor cultural, como livros e materiais para educação, estão quase no fim da lista - na frente apenas do consumo de cigarros. O gasto com livros é de 0,5%. Para a professora de Literatura Rosane Maria Cardoso, a leitura compete hoje com outras plataformas de comunicação e depende de um público com características próprias. "Para que o livro - e sua compra - seja uma necessidade, é imprescindível que se configure sua outra face, que é o leitor, sobretudo o leitor fetichista, aquele que precisa do objeto livro", explica.
Rosane fala em "conjunção", que não é simples. "Hoje, a leitura não é mais o principal instrumento de conhecimento à disposição do homem, pois a TV, a internet, iPads, celulares  informam e formam com mais rapidez e sem as exigências impostas pelo texto escrito."
A prática do instantâneo que se instaura na vida atual distancia as pessoas da aquisição de um bem - o livro -, que representa, no imaginário coletivo contemporâneo, o estabelecido. "Vale reparar que, na pesquisa apontada, os bens majoritariamente adquiridos estão profundamente relacionados com o novo, até mesmo com o descartável, na medida em que o melhor televisor de hoje, em menos de um ano, estará defasado e, consequentemente, voltará a aparecer em primeiro lugar na lista de prioridades."

Rodrigo Nascimento
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Colaboração

Carina Marques

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