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Deficiente auditiva cria 14 cães em casa

Amor pelos animais começou na infância, quando Jane Marenco morava com os pais.


Quase R$ 1 mil por mês em ração para cachorro é um luxo com o qual a família de Jane Marenco (40) parece não se importar. Em um bairro afastado do Centro e em uma rua de poucos vizinhos, a funcionária da Justiça do Trabalho cria seus 14 cães numa harmonia de dar inveja. Deficiente auditiva desde pequena, Jane encontrou no amor incondicional dos animais uma forma de quebrar o silêncio e trazer um pouco de sinfonia à vida. Os xodós da família tomam conta da casa. Em um canil improvisado do lado de fora, eles brincam e montam guarda durante quase toda a tarde. Apenas quatro são de raça, mas todos são tratados com igualdade, sem preconceito.
"O amor pelos animais vem de casa mesmo, quando ela ainda morava em Cachoeira do Sul com os pais", diz o marido de Jane, o técnico agrícola Guilherme Bitencourt (39). Todo o dia, a rotina do casal, que tem dois filhos, é a mesma. Eles acordam cedo, por volta das 5h, para alimentar a cachorrada, abastecer os potes de água e dar os primeiros carinhos do dia. Cada um dos cachorros tem nome próprio e características que só os donos conhecem. Há os mais calmos, os mais agitados e os que latem a qualquer visita. A cor também não é igual. Unânime entre eles, só o amor e dedicação à dona. "Quando ela vai para o pátio, todos eles ficam ao redor, prestando atenção, pedindo carinho. É lindo de ver", conta o marido.
A sintonia com os animais é tamanha que é a própria Jane quem tosa, corta as unhas e dá banho nos cachorros, que poucas vezes na vida tiveram que ir a pet shops. "Ela fica absorta com eles, é uma dedicação integral", conta o companheiro. Por causa da deficiência, Jane não escuta um único som, mas o preconceito que sofre todo dia é tão estridente que incomodaria mais do que qualquer latido. Como fala e faz leitura labial, e acaba por responder aos questionamentos, algumas pessoas não acreditam que ela seja surda e ironizam sua deficiência. Em vários momentos de sua vida, atendendo inúmeras pessoas, o preconceito e a ignorância ficam evidentes. "Tem até aqueles que pensam que me passo por deficiente, e isso machuca, né?!", conta ela.

Exílio do preconceito
É essa indiferença das pessoas que impulsiona o amor de Jane pelos animais. Sua vida ao lado dos bichos de estimação é desprovida de olhares tortos ou atitudes frias. O preconceito, então, passa longe. "Meus cães não me questionam em nada, me aceitam do jeito que sou. É um amor incondicional", emociona-se ela. Apesar da dedicação aos bichos, a família brinca que a casa está lotada. Não há mais espaço para outros cachorros. "Aqueles que compramos e os que recolhemos nas ruas vão ter que se acostumar com isso", diz o marido. Jane, por outro lado, parece desafiadora. Tem no olhar o brilho de quem não deixa bicho na rua. "Ela encara isso como um chamado, algo divino", revela o marido.

Carlos Vogt
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