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Em 2014, dependência química afastou 149 pessoas do trabalho

Do total, cem casos de auxílio-doença concedidos no Vale do Taquari foram em decorrência do uso de drogas lícitas

Créditos: Cristiane Lautert Soares
- Cristiane Lautert Soares

Vale do Taquari - "Estou limpo há quatro meses." A conta é feita por Ricardo, dependente químico desde os 14 anos, morador de Lajeado. Ele não usa maconha ou crack desde 24 de agosto de 2014, quando teve a última recaída e foi internado, no mesmo dia. Por um mês e meio, ficou afastado do trabalho, no qual estava desde janeiro. Além do apoio da mãe, contou com a compreensão do empregador, que o encaminhou à perícia e, após os 45 dias, acolheu-o novamente no ambiente profissional. Ricardo é uma das 149 pessoas da região que receberam auxílio-doença do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em 2014, por uso de drogas ilícitas.


Em 2014, 13 municípios do Vale registraram casos de benefícios concedidos por esse motivo. Destes, 20 foram computados em Lajeado; que é seguido de Arroio do Meio (6) e Encantado (5). Taquari e Teutônia apresentaram, cada um, quatro ocorrências.


Entre as causas das concessões estão os transtornos mentais e comportamentais em razão do uso da cocaína, de canabinoides, de sedativos e de hipnóticos. Em 2013, afastaram-se do emprego, 48 trabalhadores de 11 cidades da região. Em Lajeado, foram 18 registros; em Taquari, oito; em Estrela e Teutônia, seis cada.


Ricardo pertence à estatística, mas, assim como os outros, é mais do que um número. Quando foi contratado, tanto o dono da empresa quanto Júlio, seu chefe imediato, sabiam de seu problema. "Quando ele teve a recaída, a mãe pediu ajuda. A gente não fez mais do que a obrigação. Todo mundo merece uma segunda chance", acredita o encarregado. A aposta no funcionário tem rendido bons frutos. "Ele é grato pela oportunidade e já foi informado de que terá aumento de salário como reconhecimento do seu esforço."


Para Ricardo, o apoio recebido é uma motivação a mais para continuar batalhando no trabalho e enfrentando a vida de cara limpa. "Achei que iria perder meu emprego. Eles vieram me visitar, foi muito legal; me senti feliz por terem me dado uma nova chance." Para Nilda, mãe de Ricardo, o auxílio-doença foi fundamental, pois cobriu, parcialmente, as despesas da internação. "Paguei tudo particular, e a internação não é barata."


As drogas e o trabalho

Segundo o psiquiatra Rafael Moreno, o uso de drogas afeta, diretamente, a vida profissional. "O dependente químico falta mais, produz menos e troca mais de emprego." A dependência também está associada ao desemprego, ao subemprego, à informalidade e às brigas no ambiente de trabalho. Ricardo é prova viva disso: passou por várias empresas, e o salário sustentava sua dependência química. Em todas, pouco tempo permaneceu.


                                                  Psiquiatra Rafael Moreno


"Se o empregador é sensível, ele tenta ajudar antes de demitir", observa Moreno. Nesse caso, encaminhar o funcionário ao tratamento mostra-se melhor do que "transferir o problema". Por outro lado, o auxílio-doença pode ter um aspecto negativo: para continuar recebendo o benefício, "a pessoa pode querer estar doente; ter recaídas, não querer se tratar". Nesse sentido, o psiquiatra ressalta que a fiscalização teria que ser maior.


Para preencher o vazio


A relação de Ricardo com as drogas começou cedo. As constantes brigas com o pai, alcóolatra e fumante, compõem o cenário familiar do adolescente que não soube lidar com o vazio que trazia no peito. Nascido no Vale do Rio dos Sinos, ele também enfrentava problemas na escola - foram dois anos de repetência. Aos 14 anos, ainda estava na 6ª série. A mãe, Nilda, acreditava que uma mudança de escola faria bem ao filho. "Pensei que a troca seria melhor para ele, mas não foi", relembra. "Deixei de lado os amigos bons", acrescenta Ricardo.


No novo ambiente escolar, outras amizades trouxeram novos hábitos ao adolescente. Ele, que fumava os cigarros do pai - esporadicamente e escondido -, experimentou crack e maconha - drogas usadas pelos amigos. "Encontrei na droga o que me faltava, ela preenchia o que eu não tinha. Comecei a achar aquilo bom; me satisfazia, me deixava bem. Eu era novo, não tinha noção do que estava fazendo."


Ricardo chegou a experimentar cocaína e a cheirar cola, mas sentia-se realmente atraído pela maconha. Fumava crack de vez em quando. Nilda farejava o problema dentro de casa, percebia o cheiro nas roupas do filho. "Eu estava entre a cruz e a espada, querendo recuperar os dois ao mesmo tempo", conta, referindo-se à dependência química do marido e de Ricardo.


Ela ainda guarda um folheto explicativo sobre os malefícios do uso de diferentes drogas que mostrava ao filho, numa tentativa de fazê-lo entender seu comportamento nocivo. O papel não saía da carteira de Nilda e, hoje, é uma recordação dos momentos difíceis pelos quais passaram.


Por volta dos 17 anos, quando a crise familiar se agravou, Ricardo passou a usar crack todos os dias. "Ele era magro, magro. Só vomitava a noite inteira", relata a mãe. Uma temporada passada em Lajeado, na casa do tio, amenizou o problema, mas não o resolveu. Ricardo precisava de ajuda; precisava querer ser ajudado.


A busca por ajuda

O pedido de socorro veio num domingo, pela manhã, quando chegou em casa depois de uma madrugada inteira na rua. "Ele entrou chorando e disse: 'Mãe, me ajuda'."
Uma semana depois, Ricardo havia sido internado para tratamento. "Eu não aguentava mais. Gastava todo o meu dinheiro, não tinha alegria dentro de casa. Só vendia minhas coisas, não conquistava nada", relembra Ricardo.


Foi durante a primeira internação, em 2011, que ele perdeu o pai. "Minha ideia era ajudá-lo quando saísse; não tive a oportunidade. Sofri muito. Não vi ele antes de me internar; não vi ele antes de morrer, também." Após o tratamento, depois de ficar limpo por dois anos e três meses, Ricardo teve duas recaídas - uma delas quando já estava no emprego atual.


O conselho de Nilda às mães que enfrentam o mesmo problema é: "Nunca abandonem quem precisa. O apoio da família é muito importante. Procurem ajuda, procurem o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD). Sem ajuda, não há melhora."


Drogas lícitas

Em 2013, no Vale do Taquari, 80 pessoas se afastaram do trabalho em decorrência do uso de drogas lícitas, como álcool e tabaco. Das 21 cidades que contabilizaram benefícios concedidos pelo INSS, Lajeado foi a que apresentou a maior quantidade - 25. Teutônia ficou em segundo lugar, com 12, seguida de Arroio do Meio e Estrela, com oito afastamentos cada.


Em 2014, o número na região subiu para 100. Dos 26 municípios nos quais houve casos de afastamento, Lajeado e Teutônia apresentaram, novamente, maior número: 29 e 11 casos, respectivamente. Os benefícios foram concedidos pelos efeitos do álcool e do tabaco no organismo. Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool, cirrose hepática alcóolica e efeito tóxico do tabaco e da nicotina são algumas das causas.


*A fim de preservar a identidade das fontes, os nomes de Nilda, Ricardo e Júlio são fictícios.

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