Reportagens Especiais

Fezinha do "pobre" prestes a virar crime

As apostas feitas em qualquer esquina vão ter penas maiores se forem aprovadas mudanças no Código Penal.


A prisão de bicheiro no Rio de Janeiro reabre discussão sobre jogo do bicho. Deve ou não deixar de ser mera contravenção e se tornar crime? O jogo existe há 120 anos no país é um hábito brasileiríssimo, e o Vale do Taquari não foge à regra. Mas a atividade pode passar a ter penas maiores, se forem aprovadas mudanças no Código Penal, que estão sendo discutidas pela comissão especial do Senado.
O hábito de fazer uma fezinha está tão arraigado na região que dá para jogar no bicho em bares e botecos. Nem precisa sair de casa, o bicheiro vai até o lar e recolhe o palpite, repassando-o ao banqueiro. Dá até para fazer por telefone: jogo seco, invertido ou do primeiro ao quinto, jargão que todo mundo conhece no zoológico das apostas. O banqueiro - que banca o jogo - não dá calote. É um jogo de confiança, feito na base do fio do bigode, que funciona com a exatidão de um relógio.
A reportagem do O Informativo pesquisou. Entrevistou dono de banca, recolhedores de jogo e apostadores. Os internautas acreditam que deva ser legalizado. Em resumo, o povo julga que se todo mundo joga e se nem dá para dizer que ele é proibido, por que não permiti-lo?
O jogo do bicho não é crime. Mas não dá para fazer apostas no armazém do lado da sua casa como quem compra uma carteira de cigarros. Como contravenção, a pessoa que for flagrada tem de pagar multa, responder processo em liberdade ou fazer serviço comunitário. O jogo é produto dos sonhos, tem até livro que se compra em qualquer banca ensinado o modo de apostar. Sonhos são fontes de avisos e informações.
O jogo é disseminado na região, mas perdeu a aura reluzente que tinha há algumas décadas, talvez porque tenha dividido sua popularidade com raspadinhas e lotecas legitimadas pelo governo. Continua sendo o preferido "do pobre".
Giovanni (nome inventado para preservar a identidade verdadeira) é um banqueiro das antigas. Sobreviveu, incólume, a várias investidas da polícia. O nome do município em que sedia a banca também será preservado, mas muita gente conhece "dom Giovanni", com ar de bonachão, bem diferente dos perfis cariocas. Ele fica na sua sala gradeada, esperando os gerentes da banca chegarem com as apostas. Os jogos têm de ser recolhidos antes das 18h, porque a loteria é divulgada meia hora depois pela rádio. 
Giovanni diz que o jogo está "engrenado no país inteiro". É um vício feito à canastra. Muito palpiteiro fica com o rádio ligado no fim da tarde, aguardando o resultado. Os sonhos podem trazer o dinheirinho ou a placa do carro que se acidentou. Tudo é motivo para fazer a fezinha.

O jogo do fio do bigode
Nos tempos áureos, Giovanni chegou a empregar cem pessoas. Era um dos fortes da região. Hoje, a profissão se disseminou, e outros banqueiros se fortaleceram. Há aproximadamente 15 financiadores do jogo no Vale, que movimentam uma cadeia da loteca não legalizada. Tendo que dividir a liderança, o movimento de Giovanni caiu. Hoje, "emprega" 40 pessoas, na maioria "mal aposentados", é assim que os chama. Senhores que ganham um salário mínimo da Previdência Social e aumentam a renda arrecadando a sorte.
Giovanni faz apostas por telefone. "Alô. É seu (nome do banqueiro). Joga prá mim o número 375 seco e na cabeça." O fio do bigode vale ouro. Ninguém se atreve a duvidar do peso da confiança entre dono da banca e apostador. "Ganhou tem de receber, não tem nada de sacanagem", avisa ele. A propaganda do jogo de bicho é o pagamento. Banqueiro que se preze paga quase imediatamente ou 24 horas após a aposta vencedora ter sido constatada.
Para o banqueiro, se o jogo fosse legalizado, as comissões dos gerentes de banca diminuiriam. E o apostador também ganharia menos. Hoje, para cada real que se aposta na cabeça, o prêmio é R$ 400. Os gerentes recebem 40% de comissão. Significa que, de R$ 100, R$ 60 ficam com Giovanni e R$ 40 para o homem que recolhe o jogo. "Se o governo pegar, é difícil dar certo. A Xuxa teve uma loteria e quebrou", relembra o experiente banqueiro.
Os aposentados que recolhem o jogo o respeitam, assim como seus apostadores fiéis. Um dia, chegou a desativar o negócio. Voltou a pedido do povo. Hoje, financia apostas de R$ 1, R$ 2, R$ 10, mas jamais de R$ 500 (o valor daria um prêmio de R$ 200 mil). "A entrada está muito fraca."
O banqueiro que não tem banca suficiente pode repassar a aposta a outro ou faz a chamada descarga, repassando parte da aposta, para não ficar com todo prejuízo em caso de acerto.

O 13 foi vetado ontem
O jogo do bicho tem algumas regras que estipulam limites nas apostas. Ontem, os banqueiros não aceitaram apostas no 13. Como era sexta-feira 13, seria um número visado. Esse procedimento de vetar um certo número ocorre sempre que uma dezena, centena ou milhar entra em evidência, vira notícia. Isso porque normalmente as pessoas costumam recorrer a elas, e as apostas numa mesma numeração aumentam e podem quebrar um bicheiro. "Os números 11 e 12 também estão condenados pelo menos até fevereiro - por causa dos anos 2011 e 2012", explica o dono do negócio.
No Rio de Janeiro, outros números muito apostados são o túmulo de Getúlio Vargas ou número do cavalo no dia de São Jorge. O ano judeu 5.751 também está proibido até segunda ordem pelos banqueiros.

Uma mão para a aposentadoria
Chico (nome trocado) é uma figura minguada. Aposentou-se há alguns anos e enveredou para as apostas. Sossegado, preza o anonimato e é na discrição que cativa a clientela. Às 8h, ele sai de casa para passar nos fregueses: escritórios, oficinas e "firmas". O povo aposta antes de iniciar o expediente ou depois. Tem cerca de 40 clientes fixos. Percorre a pé as ruas e avenidas para fazer a praça. Naqueles pontos mais distantes, utiliza o ônibus. Sensato, não carrega o bloco na mão, armazena-o no bolso. "Só na entrada da porta que pego o talão e, se tiver pessoa estranha, nem estou ali."
Na quinta-feira, Chico entregou ao banqueiro notas pequenas e manuseadas. A féria foi minguada. É que o verão melindra os negócios. "Eu tenho oito bons fregueses que estão em férias. Pego muita miudeza de R$ 0,20 e R$ 0,50." É por isso que o bicho cativa: qualquer valor serve para sonhar como prêmio.
Há mulheres e senhoras fazendo o jogo nas ruas. As apostas são preenchidas em duas vias, uma vai para o banqueiro e a outra permanece com o apostador. Chico consegue retirar como "apanhador" de jogo R$ 600 por mês. "Mas vai melhorar, porque mês que vem o pessoal volta das férias."
O jogo do bicho envolve uma logística econômica que quem não entende do riscado surpreende-se. Até o 13º reflete nas apostas. O banqueiro Giovanni dá detalhes curiosos. Para ele, o pagamento do 13º em duas etapas não é bom negócio. O povo gasta. Até a redução do IPI na linha branca impacta, porque o consumidor se vê obrigado a pagar financiamentos dos eletrodomésticos e corta o jogo. Época de matrículas e material escolar também afeta. "Seguem três meses ruins, depois melhora."

Delegado é a favor
O delegado de Polícia Regional do Vale do Caí, Ciríaco Caetano, que já atuou no Vale do Taquari, atesta que o jogo do bicho precisa ser legalizado, porque eliminaria a corrupção de maus policiais e políticos que costumam se eleger com dinheiro da contravenção. Não simplesmente descriminalizar, mas crê que a legalização geraria tributos ao Estado. "Descriminalizar não traria vantagem para a comunidade, só para os bicheiros. A legalização iria divorciar a atividade de outras criminosas, que são praticadas em associação com ela, como armas e tráfico de drogas."

Andréia Rabaiolli

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