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Filho de pai pobre e surdo é mestre da computação

Estar em um curso superior pode ser comum para muitos


Vale do Taquari - Paulo Freire disse: "Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco, sem ela, a sociedade muda". É com base nessa afirmativa que começa a ser contada uma história de vida. O encantamento por saber o que havia dentro do computador e como ele funcionava sempre esteve ao lado de Toni Ismael Wickert (30). Por 15 anos ele jsonhou com o diploma. Mas não seria nada fácil. No então Distrito de Santa Clara, hoje cidade, ele via o mundo a partir da realidade familiar de poucos recursos, mas com projetos de ser alguém na vida. O sonho foi alimentado na perseverança, e o destino redesenhado na vontade maior do que a realidade apresentava: queria ser formado em Ciência da Computação.
Mas quando tinha 9 anos, Toni presenciou o fato que poderia apagar seu projeto profissional. O pai sofreu um acidente de trabalho e, com uma pancada na nuca, perdeu a capacidade de ouvir. Audição zero, aposentadoria por invalidez, renda pela metade. Esta foi a primeira equação a ser resolvida por Toni. Seu Rudi teve que se afastar do mundo do som e nem sequer ouviu o nome do filho, chamado pela rádio, na lista de aprovados do vestibular em 2000.
Para colocar em prática seus sonhos, Toni saía do Vale do Taquari para o Vale do Rio Pardo quase todos os dias. Foi na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) que ele se formou em Ciência da Computação. Tarefa nada fácil, uma vez que é um dos cursos com mais alto índice de desistência. No caso dele, a barreira não eram os conteúdos difíceis, os cálculos para entender, a maneira de a máquina que imita a funcionalidade do cérebro humano processar informações, tampouco os 70 quilômetros que separavam a casa da família Wickert do local de seus estudos, Santa Cruz do Sul. A dificuldade de Toni esbarrava no contracheque.
Trabalhando em Lajeado, ele se bancou. Pagava do salário - pouco mais de R$ 600 na época - a mensalidade que custava R$ 500 para cursar alguns dias na semana. Bom aluno, no quarto semestre do curso ele trocou de emprego. Na intenção de adquirir experiência, foi trabalhar com informática, em Estrela. Da diferença entre a mensalidade e o pagamento, tinham que sair as passagens de ônibus e tudo mais. Passear com a namorada, só de vez em quando. "Ela entendeu, está comigo até hoje", conta.
Foi numa bolsa de estudo, ofertada pela universidade que ele viu a chance de se agarrar ao diploma mais rapidamente. "Isso facilitou demais a conclusão do meu curso." O professor Vilmar Thomé, reitor da Unisc, afirma que Toni não é exceção, faz parte da maioria. Contando todos os benefícios, a instituição que tem 13 mil alunos matriculados, mantém 70% deles com algum tipo de convênio.
Formado desde 2007, os R$ 600 do passado ficaram com a lembrança do Fusca velho que Toni já nem tem mais. Às vezes, o possante ficava parado, sem gasolina, por falta de dinheiro. No mercado, estável, trabalhando no setor de Tecnologia de Informação do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Toni quis mais. Sabe do poder transformador da educação, no bolso e na vida. "Hoje é tudo mais fácil; depois que se estuda um cálculo, um comando de computador, uma decisão pessoal torna-se mais fácil de resolver."

A provocação do saber
A mestre em Educação Fabiane Olegário se formou em Pedagogia com a ajuda do Fies. Para concluir o mestrado foi bolsista da Capes. Ela acredita no tempo - o mesmo que é o assassino das paixões, alimenta o saber. O período de aprendizado em um banco universitário, com o leque de oportunidades na vitrina da faculdade, modifica a vida de uma pessoa. "As ressonâncias desse exercício produzem outros modos de olhar para si e para a vida. Pensar diferente do que se faz, instiga o novo, a dúvida e a inquietude."
Fabiane vê o Ensino Superior como uma ferramenta que une o pensar e o agir. "Pois são inseparáveis a prática e a teoria, por meio de provocações constantes realizadas pelo educador." Ela não sabe a realidade de todos os seus alunos, mas sente na carne a dificuldade. "Talvez na minha turma tenham muitos Tonis ou Fabianes. Claro que estão na graduação, algumas talvez concluam por aí. Já outras seguirão pensando, porque foram provocadas e instigadas a mudar sempre."

Sonhos maiores
A graduação gerou dinheiro, conhecimento, satisfação e a vontade de continuar. O jovem adulto de Santa Clara do Sul foi para o mestrado. Fim de semana sim, outro não, ele vai à Unisinos aprimorar o que aprendeu na graduação.
Para quem achava que Toni já havia chegado ao topo, a resposta: nada o segura. A conclusão do mestrado ocorre em breve, e no início de julho, vai à Europa apresentar o programa de computador desenvolvido em sua tese. "O software reconhece o gosto do usuário e direciona as escolhas de filme. Ele funciona para a televisão digital, ainda em implantação no mundo", explica. Aos especialistas da comunicação digital, o trabalho de Toni chama-se customização. Capacidade de a máquina "entender" o que o usuário deseja.
A "customização" de Toni é seguir no mundo acadêmico. O mestrado será porta de entrada para o doutorado. E assim segue a história do filho de pais humildes que deixou para trás apelos da juventude e do consumo por um futuro melhor. Em breve, o endereço do rapaz vai mudar em definitivo para Porto Alegre. Na companhia da antiga namorada, o mestre Toni, quiçá doutor em informática, é o exemplo de que não há limite quando se tem educação.

Oportunidades maiores
Para o reitor do Centro Universitário Univates, Ney José Lazzari, que na região mantém os campi em Lajeado e Encantado, os programas do governo, como o Financiamento Estudantil (Fies), bancam sonhos semelhantes aos de Toni. Na instituição, 9,2 mil alunos estão matriculados na graduação. Destes, 27%, ou 2,5 mil, estão vinculados ao Fies. "Alguns poderiam estudar, outros teriam que fazer menos disciplinas por semestre, e uma parte, infelizmente, não estaria conosco."
Na conta do reitor, 1,4 mil alunos da Univates dependem exclusivamente do recurso do governo federal para completar seu projeto de vida. "Eles não têm dinheiro para estudar, mas querem. Se não fosse essa chance, não estariam aqui. Essa possibilidade muda a vida e a perspectiva de uma pessoa, de uma família e de uma comunidade."

Toni transformou seu programa de computador em um artigo. Segue, no dia 6 de julho, para a Lituânia. Depois para Itália. Em Roma, ele vai mostrar qual o propósito profissional, e que no Brasil não se faz só Carnaval e samba.

Rodrigo Nascimento
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