Reportagens Especiais

O Rio Taquari na visão de seus habitantes: os pescadores

Eles são os zeladores do maior manancial hídrico da região e estarão em sintonia com os voluntários amanhã

Créditos: Renan Silva e Rodrigo Nascimento







Vale do Taquari -
O rio que empresta o nome à região tem 150 zeladores. Eles são os pescadores da Colônia da 20ª Zona, a Z-20. Amanhã, quando o sol acender a luz do dia, eles vão se unir à força-tarefa que vai retirar estofados, geladeiras e pedaços de vidas esquecidas no fundo do rio com um pequeno exército de voluntários. A limpeza do Rio Taquari é um ato de amor executada pelos pescadores que com ele se preocupam.




Assista um trecho da viagem pelo Rio Taquari




O amor e a sobrevivência

O pescador Saul Severo Primo (58) é natural de Estrela. Até hoje, tudo que ele fez na vida foi retirar do rio o próprio sustento, dos filhos e dos netos. Ele é pescador artesanal e "planta" a preservação das águas como fonte de manutenção da vida no Vale.

O senhor, de aparência frágil, transforma-se em um guerreiro quando o assunto é cuidar da qualidade do manancial. "A gente cuida, orienta, faz com que as pessoas que aqui vêm pescar tenham carinho e respeito pelo nosso rio. Ele é nossa sobrevivência", alerta.

Os pescadores, diz Primo, sempre foram considerados "culpados" pelo homem da cidade de terra pela poluição na água. Engano grosseiro, segundo ele. Qual o agricultor contaminaria sua própria terra prejudicando a produção? Qual o padeiro que não colocaria fermento no pão, de propósito, para que ele não cresça? São questões que quem vive de rio se faz.

O envolvimento do pescador artesanal é tanto que é ele que ajuda no patrulhamento policial quando detecta algum flagrante. "A gente não pode autuar ninguém. E quando vê alguma coisa, precisa agir com discrição. Existem bons e maus pescadores. Os maus geralmente vêm de fora e nos prejudicam."

Primo é zelador do rio. Vai morrer fazendo isso. Acredita que colabora do seu modo para manter vivo o Taquari, e elogia a ação de limpeza. "Esta atividade só auxilia aquilo que há anos estamos cuidando: manter limpo nosso rio. Como não aplaudir?"

 

 

 Saul, pescador e zelador do Rio Taquari

Do cuidado

O presidente da Colônia de Pescadores, José Léo Käfer, conta que há 13 anos foi criado um movimento de consciência para limpeza do Rio Taquari. "Na época, o governo do Estado ofereceu um recurso a fundo perdido para os pescadores. Cada pescador ganhou R$ 1,5 mil. Em contrapartida, o profissional tinha que participar das ações de limpeza", recorda.


Sem necessitar do dinheiro como pagamento à preservação, o pescador afirma que todos os membros da entidade preservam por amor. Os mais antigos - de mais idade - apresentam certa resistência ao ato de arregaçar as mangas e pescar sujeira em vez de peixes. Mas, aos poucos, são convencidos do compromisso.


Sobre a limpeza e conservação do manancial, feita a partir da ação do homem da terra, Käfer se diz satisfeito com a preocupação externa. "Hoje temos um rio muito mais limpo. Enfrentamos muitos desafios, mas o que conseguimos ver na superfície, é uma água mais cristalina, com menos cheiro e impurezas." A água do Taquari, depois da preocupação ambiental, se aproxima das propriedades da água: insípida, inodora e incolor.



 
"Hoje temos um rio muito mais limpo. Enfrentamos muitos desafios, mas o que conseguimos ver na superfície, é uma água mais cristalina"

José Léo Käfer, presidente da Colônia de Pescadores

 

 

O carinho

Para a bióloga e professora da Univates, Cátia Viviane Gonçalves, promover o encontro entre o zelador do rio e os tomadores de água é um momento ímpar no ano.

Levar para o rio crianças e adultos que consomem peixe, tomam água e ajudam a poluir o Rio Taquari é um ato de carinho e respeito: primeiro, com o bem material - o Taquari; segundo, com o pescador. "É legal encontrar os pescadores durante essa ação. São eles que nos fornecem alimento, e nem sempre temos a possibilidade de dizer 'muito obrigado'. Primeiro pelo peixe e, segundo, pelo cuidado com a nossa água, com a nossa vida".

 


 Assista ao depoimento de Käfer e da bióloga Cátia, na avaliação do rio




Sobre o Viva o Taquari Vivo

 

Ocorre amanhã a 9ª edição do "Viva o Taquari Vivo". A ação, orquestrada pela Associação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil), inicia-se a partir das 7h30min, estendendo-se até meio dia.


Neste ano, além de Estrela, Lajeado e Arroio do Meio, está confirmada a participação de Cruzeiro do Sul, Bom Retiro do Sul e Venâncio Aires. Cada município tem pontos de concentração específicos: Parque Municipal da Lagoa, em Estrela; Porto dos Bruder, em Lajeado; Bairro Navegantes, em Arroio do Meio; Passo de Estrela - Cruzeiro do Sul; Barragem, em Bom Retiro Sul; e Vila Mariante, em Venâncio Aires.

Nas oito edições anteriores, foram retirados do rio aproximadamente 23 toneladas de lixo. Os principais materiais recolhidos foram plásticos, tecidos, ferro, madeira, borracha, vidro, pneu, papelão, telhas de amianto, isopor, rejeitos e outros tipos de resíduos.

No entanto, o grande objetivo da ação é chamar a atenção para o estado em que se encontra o principal recurso hídrico da região e como a comunidade o está tratando. Ano após ano, a comissão organizadora tem registrado o aumento do voluntariado interessado em defender e preservar o rio.



Trajeto, no Vale do Taquari, por onde passa o "Viva o Taquari Vivo"

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