Reportagens Especiais

Quarentão condensa caldeirão de histórias

Ao completar 42 anos, jornal O Informativo vai em busca dos personagens que foram manchete e renderam a leitura


Vale do Taquari - como contador de histórias, o jornal O Informativo consegue angariar tantos contos quanto os famosos Irmãos Grimm - autores de grandes clássicos da literatura infantil -, com a diferença de que não são fábulas infantis, mas histórias reais que chegaram, ilustraram páginas e ficaram marcadas na efemeridade do momento. Todas elas estão encadernadas em livros grandes e grossos - de capa verde, que estão no arquivo da Biblioteca Pública Municipal. São histórias públicas, ao alcance da pesquisa de qualquer pessoa. Há tanta riqueza dentro de tais impressos que fica difícil eleger algumas poucas. 
 completa hoje 42 anos. Se fossem perfiladas todas as histórias nas calçadas do anonimato, não sobraria pedra sobre pedra, nem lado a lado. Histórias de fama são banais, mas elas também estão registradas. Contudo, de todas as vivências impregnadas em papel-jornal, as memórias que impulsionam a continuar são histórias de pessoas comuns. De gente simples que na maior parte das vezes fica sujeita ao silenciamento. "Sem a ação consciente dos jornalistas (as pessoas) só se tornam estatísticas de desemprego e violência", faz questão de lembrar a jornalista e professora Marta Cioccari.

O diário do Vale
Ao longo de mais de quatro décadas, O Informativo se reinventou, não apenas uma vez. Várias. O estilo jornalístico se transformou no decorrer do tempo. Até o ano 2000, as páginas eram pesadas, e a diagramação, singela. Os textos se aglutinavam em linhas e mais linhas, e a fotografia não era tão valorizada. Mas as histórias estavam lá, palpitando no seio da comunidade.
Após a virada do século, o veículo mudou o leiaute, as letras ficaram esguias, e as imagens ganharam espaço. O visual se tornou mais limpo. A redação se profissionalizou: jornalistas começaram a se engajar para embarcar no espírito da comunidade, buscando histórias que comovem e retratando o verdadeiro sentido do jornalismo social. Foi uma época em que floresceram as narrativas. A vida é um emaranhado de almas e de palavras que juntas dão um belo livro. E também dão forma e conteúdo a um jornal diário.

Extraindo histórias dos números do Censo
Desde que o Censo 2010 vem sendo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o jornal O Informativo corre atrás de histórias que possam humanizar os números. O resultado são páginas densas que retratam a vida no Vale e curiosidades que instigam à leitura. Extraindo a vida das tabelas, descobrimos que somos uma população muito mais pitoresca do que pensamos. Graças ao jornal estamos nos desvendando.
* No Vale do Taquari, o IBGE revelou que 53 casais gays foram contados pelo Censo. Das 38 cidades da região, em 12 foram identificadas uniões estáveis homoafetivas. Em Lajeado são 29 casais. Roca Sales surpreende: há quatro uniões estáveis declaradas no município de 10.250 habitantes.
* Fazenda Vilanova tem o maior porcentual de negros da região. Mas ainda assim é pouco: alemães e italianos dominam no Vale.
*Canudos do Vale abriga as mulheres mais ricas, que ganham 44% a mais do que a média geral. Ou R$ 1.288.
* Nova Bréscia tem os homens mais ricos do Vale. Eles ganham R$ 2.298; enquanto elas, R$ 979.
* Estrela é a cidade da faxina, imprime rigor na limpeza e coleta 98,76% do lixo, segundo o Censo. A área rural também é contemplada.
* Na região, 1.185 pessoas são cegas ou surdas. O número de deficientes visuais é maior do que o de auditivos. Lajeado tem 110 pessoas que não enxergam.
* Travesseiro tem o maior índice de pessoas com casa própria quitada: 90%.

Três rins, e nenhum funciona
A costureira Dulce Teresinha Huff foi notícia no dia 21 de janeiro do ano 2000. O título "Vida nova para a costureira" descrevia uma mulher de 24 anos satisfeita com o transplante de rim. A cirurgia durara seis horas, e ela estava em ritmo de convalescença.
Nem tudo que está impresso permanece imutável. E foi assim com Dulce. Seis anos depois, o rim - doado por uma paciente de Lajeado - parou de funcionar. Dulce viu-se no estágio anterior ao transplante, tendo de fazer tudo de novo: entrar na fila e esperar por um órgão. Há cinco anos ela espera. Na verdade, Dulce tem três rins. "Só que nenhum funciona", diz ela, um tanto quanto conformada, pois se acostumou à rotina das hemodiálises três vezes por semana. A cada sessão, permanece três horas e meia no hospital.
Em 1999, quando fez o transplante, ficou faceira, achando que ia durar para sempre. Ela sabia que corria risco de rejeição, mas a mente é sempre otimista porque é assim que a vida tem de ser: para a frente, sem pestanejar.
Depois da operação, adotou uma criança, com 8 anos hoje. Dulce aprendeu a estar em casa e a viver sem rim. Por causa das sessões e da vigilância constante, não trabalha, mas acompanha o marido nas tardes do comércio. O recorte de jornal com a notícia do seu transplante ainda guarda em casa. O rim já se foi, mas a reportagem permanece. "Estou esperando outro transplante. Pode vir logo ou pode demorar." Nada é certo nesta vida passageira. Só as palavras, que depois de impressas no papel, não desgrudam da memória.

Como manda o figurino
Uma foto de uma máquina de escrever antiga sendo usada por uma mulher de óculos no dia 23 de janeiro de 2004 estampou a capa daquela sexta-feira. A personagem em questão é Glaci Guzzon Garcia, hoje com 64 anos. Ela foi pauta de uma série de matérias sobre profissões em extinção. Professora de datilografia do Colégio João Batista de Mello, em Lajeado, quando o computador era equipamento do futuro, Glaci ensinava como preencher nota fiscal, a definição de crédito e débito, conceitos que, com o cartão de crédito, hoje, qualquer adolescente está apto a usar.
Quando saiu na capa do jornal, já era funcionária da Vovolar. Continua lá, mas nesses oito anos empreendeu uma verdadeira luta a favor dos idosos, guerreando contra negligências de filhos, autoridades e familiares. Hoje, fiscaliza 17 senhoras, a mais velha tem 95 anos. "Cuido delas como se cuidasse de minha mãe." Como coordenadora, é rígida no zelo às vovós. Aliás, "vovó" é uma palavra que está proibida dentro da instituição. Todas possuem nome. "As coisas têm de funcionar como manda o figurino. E como eu gostaria de ser tratada se estivesse no lugar delas."
Após a matéria da datilógrafa, a situação mudou para melhor dentro da Vovolar. O atendimento humanizado foi instituído como prioridade, e carinho, olhar e atenção são ingredientes tão importantes quanto a nutrição. O jornal O Informativo é companheiro de leitura da turma da Vovolar. "Deus me livre elas ficarem sem o jornal", enfatiza Glaci.

A primeira top tipo exportação
Em meados nos anos 1990, ela chegou como um furacão às capas de revistas e às passarelas internacionais. A garota que saiu da fábrica de sapato de Santa Clara do Sul fez o pé-de-meia no mundo da moda. Ela sempre foi notícia no jornal O Informativo. Em 30 de novembro de 2002 estampou a capa, mostrando seu casamento com um fotógrafo americano na sua cidade de origem. Em 4 de janeiro, o enlace foi retratado em três páginas da Revista Lazer. Shirley Mallmann posou para as marcas mais cobiçadas do planeta. Estava em Nova York quando as torres gêmeas foram derrubadas. Forneceu dezenas de entrevistas a veículos locais. E no casório, a equipe do jornal estava lá. Seu casamento mexeu com a cidade. O filho pequeno, Axel, estava na cerimônia. Hoje, Shirley tem 35 anos e, na última década, diminuiu seu ritmo, mantendo-se afastada das passarelas por mais ou menos sete anos, dedicando-se apenas aos editoriais e trabalhos publicitários, enquanto priorizava a família.
Transferiu-se de Manhattan para Long Island, onde comprou uma casa de frente para o mar. Tem dois filhos - Axel (10) e Zeya Latt (3), mesmo nome do pai.  Shirley veio visitar a família no Ano-Novo e na Páscoa, e desembarcará em São Paulo em 15 dias para desfilar pelos 24 anos da Revista Elle. Hoje, trabalha principalmente com catálogos, ramo no qual conquistou clientes fixos.

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