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Reaproveitamento vira luxo no ?apê? de casal de Lajeado

Criatividade, estilo e falta de grana podem incentivar uma obra de arte: ambiente acolhedor com rejeitos e madeira reutilizad


Para falar da casa de Fernando Nädke (29) e Laís Hagemann (19) tem que se criar uma nova expressão: "(re)reaproveitamento". Com a licença dos gramáticos, só assim dá para nominar um sofá feito de palete na composição com madeira reaproveitada. Todos os móveis da sala de estar e objetos de decoração têm a mesma origem: sobras. Com pouco mais de R$ 1 mil e muita criatividade, Fernando e Laís transformaram a casa em um espaço único, inspirado pela sustentabilidade e a necessidade de reaproveitar o que para muitos não tem mais valor.
A justificativa era a falta de dinheiro. Os dois se olham e Laís dispara: "No começo eu não queria esse monte de lixo em casa". Ela mostra resistência, mas assim como o charme do "namorido", o bom gosto de Fernando conquistou o coração de Laís e os olhos de quem visita o jovem casal. "Esses dias, um colega viu fotografias da nossa sala e pediu para entrar, para conhecer a casa", diz Laís. Juntos há dois anos, o trabalho de construir o lar é compartilhado. Quando encontram algo que chama a atenção, para tudo, e Fernando carrega para o carro. "A mesa, ou melhor, o palete azul de cima, por exemplo, veio do cemitério", revela Laís. Eles iam visitar a avó quando passaram em frente do cemitério teutoniense e carregaram para o automóvel.
E por aí vai. O sofá foi feito com o palete que envolvia uma máquina comprada para a empresa de Fernando. Só o estofamento - parte mais cara da decoração - veio de fora. A estante está na parede. São caixas de verduras, juntadas no mercado da família de Fernando. "Em tudo usamos um pouco de verniz e veneno contra cupins." Retratos mostram a vida cheia de compromissos e deixam a parede branca com o vermelho intenso da paixão. Contra a mesma parede, um baú, recolhido de um canto de uma fábrica. Ele recebe moedas de quem visita o casal. "Estamos juntando para o casamento", divertem-se.

À procura de "novos móveis"
Fernando não está satisfeito com o ambiente. Ele quer fazer um barzinho e luminárias para terminar de compor a casa. Para isso, garimpa em ferro-velho. "Estive a um passo de comprar uma geladeira daquelas antigas. Fui atrás de catadores e quando achei que tinha encontrado, ele tinha vendido por R$ 50", narra o arquiteto por acaso. As luminárias vão nascer de garrafas de vodca. Ele viu na internet e até já faz uma campanha com os amigos: para que bebam bastante e doem os cascos vazios para ele. "Se quiser dar um cheio, a gente também bebe", brinca.

Nada de sujeira

Laís tinha arrepios quando começou a montar a sala. Ouvia papo de comadre  que dizia que madeira velha junta aranha e insetos. "Nada. É moleza limpar a casa. Passo até lustra-móveis em nossos objetos." Laís se apegou tanto aos móveis que até os aceita como presente. "No Dia dos Namorados, ele me deu um palete", diverte-se.
À volta do ambiente, uma bicicleta na vertical chama a atenção. Ela tem dupla função. Pendurada vira suporte de plantas; de quebra, quando dá vontade de pedalar, Fernando pega a magrela e sai por Lajeado. Fernando e Laís mostram que a felicidade mora onde seus donos a fazem estar.
Abaixo da televisão de LED, um pedaço de ferro trazido da empresa de Fernando segura o aparelho em cima de uma escada. Para compor a cena, tijolos retirados da casa da avó de Laís servem como prateleira para as plantas. "É meu pequeno jardim. São naturais, eu cuido delas como filhas", ensaia a "aprendiz de mãe".

Tendência mundial
Para a estudante de Arquitetura e Urbanismo da Univates, Janaína Kuhn, a reutilização de materiais na decoração vem sendo uma tendência nos últimos anos, à medida que cada vez mais se fala em sustentabilidade. "Com criatividade é possível reciclar materiais que não teriam mais utilidade, conferindo um aspecto rústico e original à mobília, além de garantir economia ao projeto", comenta. Mais ou menos assim, Laís e Fernando fizeram em seu cantinho.
Tudo se transforma na mão de quem está disposto a inovar. "Nova pintura, colagens ou revestimentos permitem os mais diversos usos, desde sofás, cabeceiras de cama, espreguiçadeiras, até estantes, canteiros e balanços", diz Janaína.

Rodrigo Nascimento
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