Reportagens Especiais

Série: Especialistas apontam ações para estancar mortes

Autoridades da segurança viária falam sobre as 67 mortes no trânsito e o que pensam sobre como solucionar o problema

Créditos: Carine Krüger
Vale do Taquari - Por mais violento que o trânsito da região possa parecer, matando uma pessoa a cada cinco dias, a segurança viária do Brasil é ainda mais alarmante: mata cerca de cinco pessoas por hora. A cada ano, medidas para amenizar o problema são discutidas por autoridades, e as sugestões para sua solução são sempre as mesmas: combate ao excesso de velocidade, punição mais rigorosa para os motoristas que misturam álcool e direção, e incentivo do o uso do cinto de segurança.

Essas ações repetitivas fazem parte de um plano maior, com visão mundial, da Organização das Nações Unidas (ONU), para combater o genocídio causado nas estradas e vias. O projeto "Década de Ação para a Segurança no Trânsito 2011-2020", foi lançado em 2009, mas aderido pelo Brasil em 2011, quando foi estipulada a meta de reduzir em 50% os índices de mortalidade no trânsito.

Neste ano, durante o 19º Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito, em Brasília, as medidas foram discutidas e renovadas pelo secretário geral do International Transport Forum (ITF), José Viegas. Porém, o problema segue se agravando.

A reportagem ouviu autoridades da segurança da região para que elas avaliassem os resultados do Vale do Taquari nestes 321 dias de 2013 (1º de janeiro até 17 de novembro).

O chefe do Núcleo de Policiamento e Fiscalização da 4ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal de Lajeado, Leandro Wachholz, acredita que o problema está no descaso dos motoristas com o trânsito, e o responsável pelo Comando Regional de Polícia Ostensiva do Vale do Taquari (CRPO-VT), tenente-coronel Álvaro de Medeiros lamenta a situação e alerta que o trânsito continuará da forma como está, e que não há esperança em mudanças. Já o chefe do Pelotão Rodoviário da Brigada Militar de Cruzeiro do Sul, capitão Samaroni Zappe, afirma que as mortes no trânsito são verdadeiros homicídios pelas imprudências e negligências dos condutores. Contudo, os três apontam as punições mais severas aos motoristas como medida para tentar reduzir as estatísticas.



Série Guerra Sobre Rodas
Trânsito mata um a cada cinco dias
Histórias de vida abreviadas




O que a ONU propõe

?Estabelecer uma política pública definindo a redução da violência no trânsito como uma prioridade do governo e um compromisso com a sociedade que, por sua vez, além de exigir e cobrar ações, deve também contribuir no desenvolvimento e cumprimento das medidas;

?Desenvolver a qualidade, a atualidade e a confiabilidade dos dados estatísticos, que são indicadores dos níveis da violência no trânsito e balizadores das soluções;

?Atualizar as normas de trânsito de forma a acompanhar o dinamismo do setor e seu avanço tecnológico;

?Integrar todos os entes do Sistema Nacional de Trânsito estimulando e promovendo a cooperação permanente;

?Fixar metas qualitativas e quantitativas para a redução da violência no trânsito com acompanhamento, divulgação e avaliação da sociedade.
Fonte: ONU



As autoridades

"Esse número representa descaso"
Wachholz entende que há diversas circunstâncias a serem avaliadas quando se fala em número de mortos no trânsito. Para ele o fenômeno não é estanque. Diz que começa por problemas de infraestrutura das vias, passa pela limitação e organização dos órgãos responsáveis, se alia a condutores imprudentes que se sentem prejudicados quando são sancionados por condutas que causam prejuízo a integridade dos demais usuários da via, e, finalmente, culmina com dados de uma guerra. 

Até o dia 17 de novembro (domingo), foram registradas 36 mortes na BR-386, perímetro que compreende os municípios do Vale do Taquari. Para o agente, esse número representa descaso. "Descaso com a vida. Própria e de terceiros. Por parte de todos envolvidos na questão de trânsito."

Problema: Para ele, o maior problema é a falta de empatia. O ser humano esquece de se colocar na posição dos demais.
Solução: A maneira de amenizar o problema, na visão dele, é com planejamento, com execução e posterior avaliação, num ciclo sistêmico e contínuo. O fator motocicleta e motoneta são determinante em algumas mortes no trecho.


"É triste dizer: não há esperança"
As estradas do perímetro urbano foram as que menos registraram mortes no trânsito em 321 dias de 2013. Foram 14 no total. Mesmo assim, é alarmante. O chefe do Comando Regional de Polícia Ostensiva do Vale do Taquari, tenente-coronel Álvaro de Medeiros, diz que essas mortes representam para a sociedade uma verdadeira calamidade.

Ele compara a repercussão e movimentação que houve na tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, com o total de mortes que já houveram no trânsito neste ano. "Houve mobilizações, processos, protestos, elaboração de leis, enfim, uma reação à altura das 242 vidas ceifadas. É inacreditável não conseguirmos enxergar, porém, que apenas nos cinco primeiros meses deste ano, no RS, tivemos 821 mortes no trânsito." O chefe da BM diz que é inaceitável saber que 20% das vítimas estavam na faixa dos 21 aos 29 anos. E como autoridade afirma: "É triste dizer, não há esperança." Para ele, só quando esses números passarem a ser percebidos, e não apenas tolerados pelas pessoas, é possível acreditar em alguma solução.

Problema: Para Medeiros, é que as pessoas parecem entorpecidas, alienadas a este quadro, mesmo quando atingidos de perto por alguma fatalidade. "Continuamos a ultrapassar mal, a exceder a velocidade, a dirigir cansados, a beber e dirigir."

Solução: Para ele é a educação. É um trabalho lento, que poderá parecer ineficaz, pois o efeito será em longo prazo. Entretanto, diz que não basta uma educação realizada em uma palestra no Ensino Fundamental, em uma Semana de Prevenção de Acidentes em uma empresa. "Falo de uma educação transformadora, que modifique comportamentos, que confronte a todos, pedestres e condutores." A maioria das vítimas é jovem, homem, muitas vezes motociclistas. "Esse é o grupo de risco."



Punições mais severas
Para o chefe do Pelotão Rodoviário da Brigada Militar de Cruzeiro do Sul, capitão Samaroni Zappe,
o número de pessoas mortas nas rodovias estaduais do Vale do Taquari representa a soma de uma série de fatores que levam a acidentalidade. Foram 17 desde janeiro.

Segundo ele, o termo "acidente com morte" não é o mais adequado. Para ele, todos devem ser tratados como ''homicídio" praticado na condução de veículo automotor, já que, na maioria dos casos com morte, a principal causa se deve à conduta imprudente e negligente do condutor que causou o acidente.

Lembra de situações como a construção de um estádio de futebol, como em Lajeado, que foi feita sem que se levasse em conta as mudanças que seriam necessárias na via ao entorno do empreendimento, e que pode causar acidentes. Diz que há uma nova população ali vivendo e que isso significa mais veículos usando a via, mais pedestres, mais pontos de acesso e saída das rodovias.

Problema: Para Zappe, sem dúvida o maior problema é a imprudência ao volante aliada à impunidade. Lembra que todos os anos há um aumento da frota de veículos, impulsionado por incentivos governamentais, porém não há aumento da malha viária.

Solução: Ele acredita que as soluções têm relação direta com os problemas identificados, como: penas mais severas para aqueles que praticam crimes de trânsito; aumento dos valores das multas, a exemplo do que houve com a infração de embriaguez ao voltante; estudos de impacto nas rodovias, quando houver instalação de condomínios.

Também pensa que se faz necessário tornar mais rigoroso a atual forma de processo de habilitação, como também aumentar o número de infrações que tem como penalidade a "suspensão do direito de dirigir". Para ele a punição de ultrapassagem em local proibido deviria ser mais severa, visto que é uma infração que resultou em algumas das  mortes no trânsito na região .

Comentários

VEJA TAMBÉM...