Reportagens Especiais

Série Mortes no Trânsito: histórias de vida abreviadas

Levantamento feito pela reportagem mostra que 67 pessoas morreram desde janeiro no trânsito do Vale do Taquari

Créditos: Carine Krüger
Vale do Taquari - Usados para diversos fins, os veículos acabaram por se tornar vilões do trânsito. Em 2013, somente na região, 67 pessoas morreram em 321 dias, deixando um vazio nas famílias que ficaram para trás e enfrentam o sofrimento da perda.
Nesta semana, o jornal O Informativo do Vale publica uma série de três reportagens que buscam, além de mostrar números, contar as histórias de algumas das vítimas e sugerir soluções para estancar a triste estatística.


A dor de uma família
Cada família sente a morte de forma singular, e todas convivem com a saudade. Durante as últimas semanas, a reportagem fez contato com muitas delas. A seguir, seis famílias contam como é conviver com a dor de ter perdido familiares que tinham sonhos e uma vida para viver.

A família de Jael Vargas (30) - mãe Elda Maria Machado (54), o pai Pedro Sardi de Vargas (77) e a irmã Jéssica de Vargas (23) - contou sua história uma semana depois de ter perdido o rapaz - que se acidentou no dia 12 de setembro. Elda lembra que, na manhã em que o filho saiu de casa, ela passava sua roupa. Enquanto descia as escadas, ele brincava com gatinhos. "Lembro da cena, e ainda não consigo acreditar que foi a última vez que vi ele." Algum tempo depois, pelo rádio, ela ficaria sabendo do acidente grave entre uma motocicleta e um veículo. "Não falaram nomes, mas eu senti uma angústia  enorme. Logo pensei no meu Jael." Logo depois, segundo a mãe, foi mencionada a placa do veículo, "Foi como uma punhalada no peito. Era mesmo o meu Jael!" Conta que foi para o hospital, e ligou para todos pedindo informações. Mesmo assim, não acreditava no que estava ocorrendo. "Mesmo sabendo que ele já estava morto, não queria acreditar. Pedia para não ser verdade", chora.

O pai apenas repete:  "Agora, quando chega a hora em que Jael costumava voltar  para casa, eu espero. Mas ele nunca volta. Nunca mais voltará". A irmã, Jéssica, se revolta e pede prudência para os motoristas. "Você não é dono da rua. Você tem a vida de outras pessoas na sua mão. E as outras pessoas não têm culpa da pressa que você têm no trânsito. Tenha mais cuidado." A mãe conversou com o outro jovem envolvido no acidente. O rapaz era o condutor do carro que colidiu na moto de Jael, e estava com carteira provisória. Para Elda, pessoas com pouca experiência de trânsito jamais deveriam enfrentar uma rodovia movimentada. "Saber que teu filho não voltará mais, por um descuido, é inaceitável." A família manteve o quarto de Jael como estava antes dele partir. Apenas a motocicleta envolvida no acidente foi recolhida pelo seguro.



Primeira reportagem da série
Trânsito mata um a cada cinco dias



Vítimas fatais do trânsito

  Grasiela Bilhar (28), natural de Teutônia, morreu no dia 5 de janeiro, na BR-386, em Tabaí

Uma das primeiras mortes registradas no ano foi de Grasiela Bilhar: uma morena de olhos verdes, mãe de um menino que até hoje não conseguiu superar a perda. Em sua página do Facebook, ainda ativa, amigos deixam recados de saudades depois de dez meses, e mostram o quão comovidos ficaram com o acidente. Grasiela fazia um curso sobre Salão de Beleza, na época. No sábado, 5 de janeiro, pouco antes das 7h, um choque entre o Celta em que ela estava e um Sandero deu fim a sua vida e a do outro motorista, Leocrides dos Santos (54). O acidente ocorreu na BR-386 em Tabaí, perto do posto da Polícia Rodoviária Federal. Grasiela era passageira do Celta. Seu noivo, condutor do veículo,  e o filho foram levados para o Hospital de Estrela com ferimentos leves.






  Maíra Filter (27), natural de Encantado, morreu no dia 26 de janeiro na ERS-129, em Muçum

"Uma loira de olhos claros que encantava a todos por onde passava." Assim os amigos definiam a estudante Maíra Filter (27), que desde pequena morava com a avó de 82 anos, de quem cuidava com quem fazia questão de passear. Tímida desde pequena, acabou sendo conhecida pela sua inteligência e beleza natural. Filha única, era formada em Biologia e fazia mestrado na área em Passo Fundo. De acordo com a tia, Claudete Bolsi, a sua afilhada era uma feiticeira, "Linda e mágica, encantava a todos." Porém, em uma fração de segundos, na madrugada do dia 27 de janeiro, ela perdeu o controle do carro quando retornava de uma festa. O veículo Celta capotou na pista e Maíra morreu carbonizada, por volta das 2h30min, próximo da entrada da Barra do Coqueiro. Os amigos e familiares ainda não aceitam a morte, e criaram, no facebook, a fanpage Para Sempre Maíra Filter.




  Lissandro Stroherde Mello (36) e seu filho Igor da Silva Mello (11), naturais de São Pedro do Sul. Morreram no dia 3 de agosto na BR - 386, em Lajeado

No começo do mês de agosto, um acidente trágico emocionou não apenas amigos e familiares da família Mello, mas também a comunidade do Vale do Taquari. Pai e filho morreram em uma colisão em Lajeado, no quilômetro 345 da BR-386, às 23h de um sábado à noite. Lissandro conduzia a picape Pajero onde estava sua família - esposa e os dois filhos, quando um Gol, desgovernado, invadiu a pista contrária e colidiu contra a camionete. O pai e o menino morreram na hora. A mãe e filha saíram do carro pedindo ajuda. O motorista do Gol, que fugiu do local do acidente, acabou preso. Ele estava embriagado, de acordo com a polícia.





 
Thais Haubert (21), natural de Canoas, morreu no dia 30 de agosto na BR-386, em Fazenda Vilanova

Mãe de duas meninas, Thais Haubert (21), natural de Canoas, foi criada pela avó, casou com 14 anos e logo se separou. De família humilde, teve que lutar pela sobrevivência e pela criação das filhas. A felicidade que encontrou com o passar dos anos, entretanto, terminou logo depois de começar. Havia conhecido um novo companheiro, estava muito feliz - de acordo com a irmã, Tatiane Haubert -, mas, por conta disso, acabou morrendo. Thais havia começado a trabalhar com o novo namorado em uma empresa de limpeza. "Nunca a vi tão feliz", lembra a irmã. A felicidade foi cortada por um acidente envolvendo um caminhão e um Fiat Uno. No carro estavam ela, seu namorado e mais um colega de trabalho. O acidente ocorreu por volta das 6h40min, de uma sexta-feira, próximo à ponte do Arroio Concórdia, no quilômetro 370,4 da BR-386, em Fazenda Vilanova. Thaís não resistiu aos ferimentos e morreu no local do acidente. Os outros dois ocupantes ficaram gravemente feridos.




  Jael de Vargas (30), natural de Lajeado, morreu no dia 12 de setembro na BR-386, em Estrela

Competente, animado e artístico. Foram as três principais definições que amigos e familiares encontraram para homenagear Jael de Vargas. O rapaz comunicativo, que era conhecido pela sua simpatia e dedicação em tarefas, adorava gatos, viagens e motocicletas - veículo que causou a sua morte. Vargas havia comprado há um mês uma Shadon 600 cilindradas, o que, de acordo com a família, era um dos grandes sonhos dele. As motocicletas lhe proporcionavam a liberdade que tanto gostava. No dia 12 de setembro, às 8h, ele transitava pela BR-386, em Estrela, quando foi colhido por um veículo. Com o impacto, o motociclista foi arremessado e sofreu ferimentos graves. Ele chegou a ser socorrido e levado para o hospital, mas morreu logo em seguida.



  Marcos Ismael Schneider (26), natural de Canudos do Vale, morreu no dia 26 de outubro na ERS-130, em Lajeado

Agricultor, empresário, jogador de bocha e funcionário de uma gráfica. Esse eraMarcos Ismael Schneider, o "Jacozinho". Sempre com grandes sonhos, trabalhava sempre para alcançá-los e, para isso, tinha apoio dos pais. A mãe, Nelci Schneider, admirava esse jeito dele. A dor da perda do único filho é incalculável. Jacozinho dividia todo o seu tempo com as coisas que gostava de fazer. Durante toda infância e adolescência, ajudou os pais na roça. Quando morreu, trabalhava em uma fábrica em Lajeado à noite, e, de dia, ajudava os pais na lavoura, em Canudos do Vale. "No começo do ano ele comprou um apartamento em Lajeado, e até o fim do ano, queria parar de andar de moto e comprar um carro", emociona-se a mãe. A expectativa de vida e os sonhos foram interrompidos na noite do dia 26 de outubro. Por volta de 21h55min, Schneider voltava para casa de um torneio de bocha e, no caminho, sofreu um acidente. Ele conduzia a Honda CG 150 quando colidiu de frente com um ônibus com placas de Bento Gonçalves. Morreu no local com o impacto.






*Sexo:
- 13 mulheres
- 54 homens;

*Idade:
-25 casos com até 30 anos;
-17 casos com idade entre 30 e 50 anos;
-15 casos com idade entre 50 e 60 anos;
-Oito casos com mais de 60 anos

*Cidades:
-14 casos em Lajeado;
-10 casos em Estrela;
-sete casos em Fazenda Vilanova;
-seis casos em Tabaí;
-seis casos em Taquari;
-quatro casos em Pouso Novo;
-três casos em Encantado;
-três casos em Teutônia;
-três casos em Marques de Souza;
-três casos em Progresso;
-dois casos em Cruzeiro do Sul;
-Um casos em Mato Leitão;
-Um caso em Arroio do Meio;
-Um caso em Putinga;
-Um caso em Muçum;
-Um caso em Westfália;
-Um caso em Vespasiano Corrêa;

*Estradas
-14 acidentes no perímetro urbano;
-36 acidentes na rodovia federal;  
-17 acidentes em rodovias estaduais;

*Mês do acidente
Janeiro: seis
Fevereiro: dois
Março: três
Abril: três
Maio: 14
Junho: cinco
Julho: três
Agosto: oito
Setembro: cinco
Outubro: 11
Novembro: sete

*Tipo de acidente
-39 colisões;
-11 atropelamentos;
-seis capotamentos;
-cinco abalroamentos;
-duas saída de pista;
-três quedas

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