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Sonho que virou ruínas

Prédio, que deveria funcionar como lar de idosos, virou ponto de abandono, vandalismo e drogadição


O que era para ser uma casa de acolhimento de idosos se transformou em um prédio assombroso e em ruínas e palco para pichações e sujeira. Há mais de 20 anos, o imóvel que deveria abrigar vovôs e vovós encontra-se abandonado em uma rua sem saída, próximo do trevo principal de acesso à cidade. A obra, que necessitava só de retoques finais para poder sediar o asilo, foi interrompida de uma forma que, até hoje, gera questionamentos na comunidade local. A inquietação é partilhada pelo ex-prefeito Adoir Ito Bazanella. Na época, quando a ideia de construir uma casa de repouso foi lançada, ele presidiu a associação que deu mais mobilidade ao projeto. Foi o alemão de descendência e roca-salense de coração Miguel Ostheimer que tomou a iniciativa. Portador de muitas posses, queria deixar um legado em Roca Sales - terra onde constituiu vida e atuava como comerciante. É o que afirma Bazanella, que se tornou amigo e confidente do alemão. Ele conta que Ostheimer recebia uma valiosa aposentadoria da Alemanha e resolveu doar parte do valor, o equivalente a US$ 100 mil, para a construção do asilo.
"Ele me confiou a aplicação desse dinheiro e, por isso, abracei a causa de ser presidente. Montamos a diretoria que tinha umas 80 pessoas." Bazanella conta que o grupo, empolgado com o espaço que viria a suprir uma necessidade da região, chegou a visitar outras instituições voltadas a abrigar idosos, com a finalidade de extrair o modelo para aplicar em Roca Sales. Quando a ideia foi lançada, lembra que até fila de espera havia. "Era muita gente querendo colocar seus pais e demais familiares no lar de repouso. A procura era muito grande, até gente de Porto Alegre tinha", recorda.

Mortes
Ostheimer, então, adquiriu o terreno e começou a comprar os materiais de construção. As paredes foram erguidas, as aberturas e louças colocadas, mas, faltando apenas acabamentos para o imóvel ser concluído, Ostheimer faleceu. Com sua morte, também começava a ser enterrado o projeto de asilo. O valor dedicado à obra permaneceu de posse da esposa Otávia, que fazia questão de administrar o dinheiro, não o repassando à associação constituída. "Nosso erro foi não registrar no nome da entidade. Caso contrário, hoje estaríamos com um belo lar. Perdemos uma grande oportunidade", frisa Bazanella.
Pouco tempo depois, a viúva também veio a falecer. Com a morte dos dois, que não possuíam filhos, o projeto permaneceu estagnado e parece ter morrido com o casal. "Até inauguração tínhamos planejado, mas a associação não tinha autorização para mexer no dinheiro." Bazanella recorda que muitas pessoas da comunidade chegaram a pagar pequenos valores, como R$ 5 e R$ 10, por meio de carnês, com a finalidade de ajudar a obra e, posteriormente, poder usufruir o espaço. Arlindo Werner ainda participou de algumas reuniões da associação e também lamenta o triste desfecho do asilo. "A cidade perdeu uma grande obra, um projeto social."

Amplo e funcional
Bazanella se lembra de cada cômodo do prédio que, segundo ele, era amplo e bastante funcional. Eram dois pavimentos que comportavam mais de 20 apartamentos com banheiro, além de sala de recepção, de recuperação, de música, capela ecumênica, refeitório, cozinha, lavanderia, administração. "Dava para receber uns 30 idosos, tranquilo", contabiliza. Sobre a perda do imóvel, dispara: "A região perdeu um exemplo regional".

Desfecho
O advogado de alguns dos herdeiros, Dorly José Giongo, explica que o imóvel está sendo inventariado na Comarca de Encantado. A matéria entrou no Fórum em setembro de 1997, quando foi ajuizada. Conforme ele, dentro de um ano, a decisão deve sair determinando que o prédio seja dividido entre os 11 herdeiros do casal.

Ruínas
Atualmente, o prédio está em ruínas e em meio a árvores e a um matagal que cobre a fachada da construção. O local se transformou em um reduto para vândalos e para o consumo de drogas. Grande parte da estrutura física também foi apedrejada, aniquilada e roubada, como telhas, forro, louça dos banheiros, portas e janelas. Lise Ritter de Souza, uma das moradoras próximas, relata que o movimento de carros e pedestres, principalmente à noite, é constante no local. Ela lamenta que o projeto tenha morrido. "Seria algo muito bom para Roca Sales e região, que carece de casas para idosos."

Carina Marques
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