Reportagens Especiais

Voluntariado: Histórias que levam a crer em um mundo melhor

Em defesa da infância e da juventude, iniciativas singulares transformam o amor dos corações tocados pelo voluntariado

Créditos: Rodrigo Nascimento
- Frederico Sehn

Vale do Taquari - O que o mundo espera de você? Com essa pergunta começa esta reportagem. Durante uma semana buscamos identificar exemplos de cidadãos que estão comprometidos com o mundo de amanhã. Aqueles que fazem algo em prol do futuro: os voluntários.


Assim como Kevin Spacey no filme "A corrente do bem", propomos uma tarefa: descobrir quem fizesse o bem para pelo menos três pessoas.


Nessa teia de generosidade entram a aposentada que tira da pensão parte do valor para comprar carne para o "sopão" das crianças carentes em Estrela; o promotor de Justiça de Encantado que, depois de um dia de audiências, vai para o tatame ensinar de forma voluntária artes marciais; e a professora que, ao se aposentar, em Lajeado, assumiu a presidência de uma ONG que atende quase 600 crianças.



Do amor

Consertar o mundo passa pela capacidade individual de doação. Essa tarefa dona Lenira Maria Müller Klein (90) sabe muito bem. A vida dedicada à sala de aula encerrou em 1980. A partir de lá, assumiu a coordenação voluntária da Sociedade Lajeadense de Apoio à Criança e ao Adolescente (Slan), que começou com 30 crianças e hoje atende a 590. Hoje, nos corredores, cada caminhada que dá é parada por um beijo, um abraço dos "filhos" que ela ajuda a criar.


Lenira toca o projeto do pai, iniciado na década de 1950. Segundo ela, é o que a mantém viva. A aposentada garante que o amor que recebe em troca é muito maior do que aquele que oferece. "As crianças só serão bons adultos se receberem a dose certa de amor. Do amor derivam todos os outros ensinamentos", diz.


Incontáveis são os exemplos de mudança promovidos por Lenira e sua legião de benfeitores. Um em especial chama a atenção: Certa vez, sete filhos de uma mesma família frequentavam a Slan. A mãe trabalhava sozinha para prover o sustento. O pai bebia e não era dado ao trabalho. "Eram seis meninos e uma menina. Hoje todos têm suas profissões, suas vidas encaminhadas".


Ouça dona Lenira aqui










A memória ativa de Lenira não a deixa se afastar da sua missão. Para ela, o mundo seria outro se as todas as crianças tivessem a chance que os pequeninos acolhidos pelo time dela têm. "Eu desejo que as crianças que sofrem hoje escrevam uma nova história amanhã", sonha dona Lenira. É preciso esperar para ver se sua corrente do bem não será quebrada.



Músisa: Flor de Jorge e Matheus - crianças da Slan cantam para dona Lenira, assista






Um prato de sopa que alimenta o futuro

Celita de Freitas da Silva (82) sentiu a dor da fome na infância. Membro de uma prole de doze, nascida em Vila Sério, nos tempos difíceis da década de 1930. O pai não trabalhava. Quando a barriga dela e dos irmãos roncava mais alto, ele punha uma pitada de sal na boca das crianças e dava-lhes um copo d'água. "Era o que tinha para acalmar a fome".


Quase 70 anos depois, ver crianças passando pela mesma dor a fez mudar de vida. Com mais uma dúzia de mulheres, Celita, que se transforou em Dona Célia, começou um Clube de Mães no Bairro Imigrantes, em Estrela. O objetivo era fazer sopa às terças e quintas-feiras. Duas vezes na semana, a aposentada dormiria tranquila, sem a sombra da fome a lhe rondar os sonhos. Já se passaram14 anos.


Ouça parte do depoimento de Dona Célia aqui






Quem se perde por aquelas bandas só precisa perguntar: "Onde fica o sopão da dona Célia?" Todos sabem o caminho. "Houve uma época em que 70 crianças comiam sopa conosco. Hoje o número é menor", diz. O poder público assumiu parte da conta de dona Célia. Nas escolas municipais das redondezas, o turno integral nutre com almoço os que passam fome em casa.



Dona Célia não desiste. E sabe porque não pode desistir. Nos ingredientes da sopa estão diluídas lições de cidadania. "Vários meninos se transformaram em homens comendo de nossa sopa. Eu me sinto tão feliz quando vejo eles assim, comendo minha sopa, conseguindo emprego e seguindo em frente..."






Um golpe na falta de autoestima


O promotor de Justiça de Encantando, André Prediger (37), luta dentro e fora do Ministério Público. No tatame, a briga é contra o ócio juvenil. O promotor campeão em artes marciais compartilha a doutrina oriental, pautada pelo respeito e pelo compromisso.


Mesmo compromisso que o faz dividir o tempo entre o trabalho na Promotoria, as aulas de Direito que ele ministra na Univates e o trabalho voluntário. "Ser atleta é incompatível com o uso de drogas. Não combina com briga de rua. O respeito ao próximo nas artes marciais é fundamental", recita.


Prediger diz que os instrumentos legais são punitivos e nem sempre eficazes. "Tudo bem em repreender um guri por algum desvio. Na minha visão, na primeira chance de delinquir, ele volta a infringir." Com as artes marciais, Prediger tenta, a seu modo, ir além do que a lei alcança.


Há mais de cinco anos o promotor vê a "letra fria da lei" se transformar em grifo pulsante na vida dos meninos que ele ensina a lutar. Quem frequenta o tatame com Prediger aprende boas maneiras e a sonhar com um futuro melhor.




O pagamento


Quem é voluntário sabe, não tem salário. Trabalha porque acredita na causa. O promotor Prediger se diz muito bem recompensado. "A sensação é a melhor possível. Estar perto deles é fantástico. Meus alunos me ensinam muito mais do que eu posso ofertar a eles. Não tem pagamento ou indenização que ressarça esse sentimento. É algo que só o trabalho voluntário pode dar a alguém", resume.

 

Moicano, um elo fortalecido pela corrente do bem


Moicano tem 20 anos e há seis treina artes marciais. Nascido e criado no Bairro Navegantes, em Encantado, Valdir Luiz Posselt Júnior (20), o "Moicano", aprendeu com o promotor Prediger os valores de uma vida regrada.






Ele sabe que seu presente hoje poderia ser outro. Sabe que aprendeu a ser respeitoso e responsável em meio aos golpes do Jiu-jitsu e do Taekwondo. "Eu só queria folia e moleza. Não tinha compromisso, achava que a vida era fácil, que viria tudo na mão. A arte marcial me ensinou que não é assim. Ela me mostrou outro caminho na vida".
Hoje Moicano reparte o que aprendeu. Dá aulas de artes marciais em uma escola da cidade. Sonha com um futuro promissor na luta. "É difícil encontrar patrocínio, mas nem isso me abala. Eu quero seguir carreira, ser lutador de MMA", projeta.


A força física de Moicano está nos músculos, torneados pela luta. A força mental está na base sólida formada a partir dos ensinamentos e na perseverança do exemplo. Ao ver o promotor de Justiça trocar o terno e gravata pelo quimono e dedicar horas à causa dele e de outros meninos, Moicano diz ser outra pessoa.




Assista aqui o depoimento de Moicano



 


Campeão na vida


Com o aprendizado nas artes maciais, Moicano já trouxe para Encantado dois títulos internacionais. O primeiro deles em 2010, quando, em Gramado, na Serra Gaúcha, o lutador Jiu-jitsu ficou com o vice-campeonato. Um ano depois, na cidade catarinense de São José, Moicano faturou o 3º lugar no Sul-Americano da mesma arte. "As aulas de artes marciais mudaram por completo a minha vida".



Tão grande quanto a causa


Para o juiz da Vara de Infância e Juventude Luís Antônio de Abreu Johnson, quem dedica uma parte do tempo livre ao desenvolvimento infanto-juvenil se torna gigante. "É importante destacar que o voluntariado entra na periferia. Eles são um exército social e grandes seres humanos, na mais profunda expressão da palavra", define o magistrado.


Já o promotor da Infância e Juventude do Ministério Público de Lajeado, Sérgio Diefenbach, descreve a ação de Leniras, Celitas e Andrés como permeadas pelo afeto. "Sempre que surgem essas contribuições não oficiais elas terminam por suprir lacunas deixadas pelo poder público ou pela família." Diefenbach diz que uma sociedade mais igual passa pela valorização de ações em prol da criança e do adolescente.

 



Fotos: Frederico Sehn e Marcio Souza

Comentários

VEJA TAMBÉM...