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Girassóis pela paz

Apenadas do Presídio Estadual Feminino de Lajeado participam de ação conciliativa

Créditos: Jean Peixoto
OPINIÃO: os Círculos de Construção da Paz iniciaram em Lajeado em 2015 - Lidiane Mallmann

Lajeado - A chuva de verão que cai do lado de fora do Presídio Estadual Feminino de Lajeado ameniza o calor de dezembro. No interior da unidade, a professora Carmem Sampaio organiza um grupo de 17 mulheres em um círculo. Pelo monitor de segurança, instalado na recepção, funcionários do presídio contemplam curiosos a movimentação no interior da sala de aula, onde só Carmem e as detentas podem permanecer. Em frente a cada uma delas, é depositada a foto de uma plantação de girassol.  "Os girassóis giram de acordo com a inclinação do sol, pois estão sempre em busca de luz. Nos dias nublados e chuvosos, eles se voltam uns para os outros para dividirem entre si as suas energias", explica a professora. Assim como as flores das fotos, o grupo de detentas se reúne para iluminar seus pensamentos além das grades. "Uso essa analogia do girassol para dizer que todos nós temos dias nublados, dias de tristeza. Não temos como fugir deles. Mas não precisamos  enfrentá-los sozinhos."

A dinâmica faz parte do Círculo de Construção da Paz, uma metodologia utilizada em escolas e organizações para resolver situações de conflito. A ação, organizada pelo professor Adalberto Francisco Koch, diretor do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja), contou com as participações da defensora pública Janaína Neuls Diel e da promotora de Execuções Criminais Ana Emília Vilanova. A ação é um eixo da Justiça Restaurativa, que engloba uma série de técnicas de solução de conflitos e violências, adotada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O encontro proporcionou um momento de reconcialização entre as apenadas que pudessem ter algum tipo de desavença e de reconstrução de vínculos.

Perspectivas

As mãos timidamente contorcidas sobre as pernas contrastam com o chamativo laranja das bermudas que as mulheres vestem. Ao centro, uma frase. "Leva o que mais precisas". No entorno, papéis coloridos com palavras de conciliação escritas aguardam para serem recolhidos por elas. Força, paciência, compaixão, partilha, saúde, criatividade, confiança, coragem e compreensão são alguns dos termos cuidadosamente selecionados. As participantes são convidadas a apontarem momentos que seriam  importantes para elas em 2019. "Elas indicaram especialmente datas relacionadas aos seus afetos familiares, como os aniversários dos filhos, dos netos e a data da provável liberdade, quando, enfim, deixarão para traz as grades do cárcere", lembra Carmem Sampaio.

O lado positivo

A professora afirma que, se olharmos para o lado, vamos perceber pessoas vivendo os mesmos desafios que nós. "Então, por que não nos apoiarmos, compartilhando energia, sentimentos e pensamentos?", questiona. "Eu acredito na essência positiva de todos os seres humanos. Nos espelhando nos girassóis, incentivamos as participantes a focalizarem o lado positivo de cada situação. Foi um momento muito emocionante!", acrescenta.

Afeto

A facilitadora Carmem Sampaio, que já realizou diversos Círculos de Contrução de Paz, comenta sobre a importância de enxergar o próximo com afeto. "Faz parte do meu papel como facilitadora o não julgamento, a disponibilidade de escuta atenta e a empatia. Sei de todo preconceito da sociedade em relação à população carcerária, mas ao sentar em círculo eu não vejo nada além da humanidade de cada um", frisa.

O poder da escuta

A proposta é realizar atividades e fazer perguntas que conduzam as rodadas de conversa, conectando os temas à vida de cada apenada fora do cárcere. Seja provocando-as para que tragam lembranças felizes de suas trajetórias, seja convidando-as a planejarem suas vidas quanto recuperarem a liberdade. "O poder do círculo está na escuta. Essa escuta respeitosa tem um poder curativo. São pessoas com histórias de vida muito difíceis. São filhas, são mães e até avós encarceradas, que logo retornarão ao convívio social. Os círculos de diálogo se propõem a ajudá-las a refletir sobre suas ações", enfatiza.

Diálogos

Embora tenha se mantido silenciosa durante todo o encontro, a manifestação de uma das mulheres chamou a atenção de Carmem. "Ela estava calada durante todo o círculo, mas ao final disse: desculpe, hoje não estava me sentindo bem para falar, mas gostei muito de ouvir as colegas. Gosto muito desses encontros." Emocionada, outra detenta externou seus sentimentos em relação às festas de final de ano. "Ela sintetizou o sentimento de todas, dizendo que o mês de dezembro, pela proximidade das festas de Natal e Ano-novo, é o período mais difícil para quem está preso. E que se sentia muito feliz por estar ali junto com elas", relembra. Ao final, elas participaram de uma confraternização e disseram que se sentiam mais leves.

Círculos de Construção da Paz

Os Círculos de Construção da Paz iniciaram em Lajeado em 2015, junto ao Poder Judiciário, ofercendo atendimentos a adolescentes infratores.O projeto foi expandido para as escolas, com formação de professores para atuarem como facilitadores, trabalhando com os alunos a solução de conflitos. Com apoio dos professores do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja) e da Promotoria de Justiça de Execuções Criminais de Lajeado, a ação chegou ao presídio feminino. "É um tema muito rico, e aos poucos, todo o município está se engajando para construção de uma cidade mais pacífica", comenta Carmem Sampaio. Segundo ela, há, inclusive, uma iniciativa do Executivo Municipal para a criação de um Pacto pela Paz com diferentes eixos de ação. Sendo a Justiça Restaurativa, um dos pilares dentro do enfoque preventivo.

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