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Os veranistas indesejáveis

Especialistas tiram dúvidas e esclarecem mitos sobre animais que aparecem no calor

Créditos: Jean Peixoto
MORCEGO: apesar da aparência, eles podem ser aliados no combate às baratas e até ao mosquito da dengue - Edith Ester Zago/divulgação

Vale do Taquari - Entre as visitas que recebemos em casa durante o verão, é provável que, baratas, mosquitos, cobras, morcegos, gambás ou lagartos não constem na lista de convidados. No entanto, mesmo sem convite, eles podem aparecer de surpresa. Os motivos variam entre busca por alimentos, período de acasalamento ou maior duração da luz solar. No impulso, é provável que a primeira ação tomada seja matá-los. Mas a bióloga Edith Ester Zago de Mello, responsável pelo Jardim Botânico de Lajeado, afirma que essa não é a medida mais adequada. "É importante entender que eles também fazem parte do nosso meio ambiente e precisamos estabelecer uma relação de harmonia e equilíbrio", ressalta. Ela explica que os insetos têm ciclos reprodutivos mais curtos, e, por isso, aumentam de número rapidamente nessa época. Já os animais silvestres têm períodos mais extensos e, no verão, geralmente estão em busca de alimentos para os filhotes, o que acarreta, inclusive, um aumento no número de atropelamentos. "Eles perderam espaço no seu habitat natural e, por sorte, alguns conseguiram se adaptar ao nosso. É importante as pessoas entenderem o papel desses animais para a natureza."

Para a contenção de vetores - ou pragas urbanas - como mosquitos, baratas, ratos e escorpiões, o município oferece alternativas através da Secretaria do Meio Ambiente (Sema). O coordenador do Centro de Controle de Zoonoses e Vetores (CCZV), Juliano Batista Pelegrini, salienta que este verão já tem um número de ocorrências atípico. "Temos duas equipes trabalhando no atendimento e são muitos registros."

Gambás

A bióloga Edith Ester Zago de Mello explica que os gambás são animais que não provocam nenhum tipo de doença. A espécie é imune ao vírus da raiva e ajuda a combater baratas, escorpiões e cobras, pois se alimenta deles. Na região urbana, ele também auxilia no controle de alguns insetos. Para evitar o aparecimento do animal, ou retirá-lo de casa, ela dá uma dica simples: esperá-lo sair do esconderijo - geralmente no forro das casas - e obstruir a passagem. Ela lembra que o animal pode ser atraído por árvores frutíferas e que não oferece risco às pessoas. "Muita gente pensa que ele pode ser perigoso porque mostra os dentes. Mas ele só faz isso quando se sente ameaçado. O ideal é não tocá-lo", orienta.

Mosquitos

Juliano Batista Pelegrini relata que há 46 pontos fixos de monitoramento de pernilongos e 35 de borrachudos, em Lajeado. As vistorias são realizadas quinzenalmente. Os locais foram definidos a partir da análise de denúncias e reclamações feitas pela população. No entanto, Pelegrini comenta que há alguns anos, eram 70 pontos para monitorar pernilongos e 50 para borrachudos. O motivo da redução foi o desparecimento de alguns córregos - locais onde há a maior incidência de mosquitos -, que secaram. Desde a segunda quinzena de dezembro, o CCZV intensificou as ações de combate aos mosquitos. Porém, o coordenador destaca que o trabalho do Centro se concentra no controle das larvas, não dos mosquitos em si. Ele faz um alerta. "Nós não efetuamos pulverizações em áreas urbanas." Para evitar a incidência dos insetos nos domicílios, ele recomenda duas medidas: evitar manter recipientes com água parada e não ter plantas dentro de casa.

Baratas

Entre os visitantes indesejados que adentram às residências no verão, provavelmente a barata é o que causa maior incômodo. Basta caminhar alguns passos pelas ruas dos Bairros Centro e Americano à noite, que é possível constatar um grande volume delas saindo dos bueiros. Apenas duas espécies de baratas entram nas casas, as demais são silvestres. Até 2018, a prefeitura efetuava pulverizações nas áreas públicas infestadas. Entretanto, os insetos mortos acabavam servindo de alimento para pássaros, que também morriam, gerando um desequilíbrio ambiental. Contudo, devido ao elevado volume de solicitações registradas neste ano, as pulverizações devem ser retomadas. "Vamos voltar a fazer, mesmo correndo esse risco", afirma Juliano Batista Pelegrini. Para evitar infestações dentro de casa, ele dá quatro dicas: não deixar alimentos expostos; não acumular lixo; isolar os encanamentos por onde elas possam entrar; e manter o ambiente sempre limpo.

Cupins

Outro inseto comumente encontrado nas residências, fazendo revoadas ao redor das lâmpadas nessa época do ano, é o cupim. Conforme a bióloga, são grupos de machos procurando fêmeas devido ao período de acasalamento. Segundo ela, não há muito o que possa ser feito para contê-los, mas é possível tomar algumas ações preventivas. Uma delas é evitar o acúmulo de madeiras podres próximo ou dentro de casa. Também é essencial verificar nos móveis de madeira se há início de infestação. Nesse caso, é importante aplicar selantes e venenos para evitar a proliferação. O Centro de Controle de Zoonoses e Vetores também não efetua nenhum tipo ação paliativa contra cupins, pois só atua em áreas externas, de responsabilidade do município. A exceção é para casos de infestações por pulgas, carrapatos e bichos-de-pé. Nessas ocorrências, o CCZV vai até o local e realiza uma pulverização no terreno.

Onde buscar ajuda

Para casos de infestações e aparecimento de animais silvestres em residências, é possível entrar em contato com o Centro de Controle de Zoonoses e Vetores pelo telefone (51) 3982-1222, de segunda a quinta-feira, das 8h às 11h30min. Sextas-feiras, das 8h às 14h. Em caso de animais peçonhentos, como cobras, é possível contatar a Patram pelos telefones (51) 3339-4568 e (51) 3339-4219.

Morcegos

Apesar da aparência pouco agradável aos olhos e da fama de sugadores de sangue, os morcegos desempenham um papel fundamental para o equilíbrio ecológico. Esses mamíferos de hábitos noturnos que povoam as cidades, em geral, são insetívoros, ou seja, se alimentam de insetos como mosquitos, baratas, besouros e, inclusive, do Aedes Aegypti, mosquito transmissor da dengue. Dos perigos que pode oferecer, o maior seria a possibilidade de transmissão de doenças como a raiva. "O risco é o mesmo oferecido por qualquer cão de rua. E o contágio só ocorre em caso de mordida, algo que não é frequente", frisa a bióloga do Jardim Botânico. A especialista aponta que, das três mil espécies existentes no mundo, apenas três são hematófagos - ou seja, se alimentam de sangue. Além disso, apenas uma destas se alimenta de sangue de mamíferos, o chamado morcego vampiro. As outras duas, se alimentam de sangue de aves. "O morcego vampiro dificilmente aparece em áreas urbanas. Ele prefere ambientes mais silenciosos, pois busca refúgio em cavernas", explica.
Para evitar infestações no forro de residências, ela recomenda algumas medidas preventivas. A principal é a obstrução de todas as possíveis entradas, como espaços entre telhas, chaminés e pontos de luz. O período ideal para realizar o fechamento é o início do outono, ou no inverno, durante a noite, quando eles saem das tocas. Outra medida é a substituição do forro de madeira por PVC. Para a remoção de morcegos já alojados, é possível instalar um dispositivo feito com canos de PVC, por onde eles conseguem sair da toca, mas não entram novamente. "Existe um manual disponível no site da prefeitura para quem tem dúvidas. Também é possível pedir auxílio através da Sema", acrescenta.

Ratos

O coordenador do CCZV comenta que as causas da aparição de ratos são as mesmas das baratas, ou seja, falta de higiene e acúmulo de lixo. "Como eu sempre digo, ambiente limpo não gera infestação", reitera Pelegrini. As equipes atuam nos locais infestados aplicando veneno nas tocas, onde os roedores morrem. Para evitar a visita dos roedores em casa, ele faz três recomendações: manter os ambientes organizados; evitar acúmulo de caixas de papelão; não guardar madeiras.

Cobras

A primeira frase que a bióloga Edith Ester Zago de Mello profere ao tratar sobre esses répteis é um apelo. "não matem". Segundo ela, o ideal é não mexer no animal. Caso desconfie que possa ser venenosa, deve ser acionada a Patrulha Ambiental (Patram), que efetua o recolhimento e reintegração ao meio ambiente em áreas autorizadas. Ela explica que durante o verão elas saem mais, especialmente para se aquecer no calor do sol, já que são ofídios pecilotérmicos - répteis sem patas e de sangue frio. Como o verão é o período de maior calor e propício à sua reprodução, elas tendem a sair em busca de alimentos. As cobras comem animais pequenos como ratos, sapos e filhotes de pássaros. Para evitar o seu aparecimento, a recomendação é que o terreno seja mantido sempre com a grama bem aparada. "Se houver ratos, é possível que apareçam cobras, pois elas estão atrás de comida", adverte. A limpeza da piscina também é importante, pois a água abandonada pode atrair sapos, que servem de alimento para as serpentes. Segundo a bióloga, uma das cobras que aparecem com maior frequência na região é a cobra d'água, que possui o abdômen amarelo e não é peçonhenta, mas por medo, as pessoas geralmente acabam matando-as.

 

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