Colunistas

O mundo dá voltas

Lauro Baum Administrador em Agronegócio


"Amai-vos, procriai e dominai a terra". Biblicamente falando, para quem enfrentou a classe escolar no período em que a religião estava mais inserida no currículo ou frequentou a doutrina da confirmação, tem chance de ter ouvido essa frase. Mas, entre os anos, os milênios e suas gerações multiplicou-se, em especial, a dispersão do valor. O caráter muitas vezes foi violado e o empenho maior se transferiu para trapaças, sacanagens e cia. Os fatos se escancaram de incontáveis formas. Os noticiários apresentam os episódios do conto do dinheiro, do veículo, do imóvel, enfim, parece que têm cada vez mais especialistas na área. Na companhia da maioria dessas ilicitudes está o ditado popular que diz "ah, o mundo dá voltas" ou "um dia chega a vez dele também". E resolve, ou pelo menos anula os danos causados na vítima? Em raras situações o ressarcimento financeiro até acontece. Mas, e o dano moral ou espiritual, algum evento posterior o apaga?
Dados da ciência médica e psíquica apontam que quase a totalidade das pessoas vítimas de algum golpe carregam o fantasma dessa perseguição para o resto da vida. Muitas, para se apaziguar um pouco mais com sua própria realidade passam a investir em prolongados tratamentos psicológicos até que o trauma deixa de associar a repetição em cada novo gesto. É mais ou menos como a pessoa que leva um susto ao ser deparar repentinamente com uma cobra. Dali em diante, tudo o que se move, até pela brisa do vento é associado a uma cobra, mesmo que a verdadeira era inofensiva, mas, em termos gerais o primeiro impacto assusta. Só que esses tratamentos já não são contabilizados no ressarcimento e a volta por sua vez não se completa nem financeira e nem moralmente.
Muitas vezes a pessoa pode ser sabotada e a frustração a cega de modo que essa vítima já nem valoriza mais. Esquece ou enquadra a situação como se "o mundo tivesse dado a volta". Cito um exemplo verídico que aconteceu "por aí" entre o fulano e o beltrano.
Acontece que o fulano derrubou um grande lote de árvores provenientes do reflorestamento e vendeu para o beltrano que tratou logo de cortar em tábuas e outros subprodutos. No dia do acerto o fulano que tem uma extensa experiência na área porque boa parte de sua vida está em meio às florestas plantadas para este fim sentiu grande frustração ao ouvir que suas árvores resultaram em "tantos" metros cúbicos. Ao fulano, sem mais provas porque o beltrano já havia se desfeito do produto restou a aceitação. Como ironia do destino, poucos dias depois o beltrano, que abusava de uma alimentação extravagante e para isso tinha o próprio porte físico como maior testemunha, foi vítima de um infarto fulminante. O fulano, ao saber da notícia, olhou para o céu e disse "lá se vai o beltrano com as cargas de torras que corrompeu". Em resumo, na imaginação ou no alívio da vítima do conto o mundo deu uma volta. Porém, essa volta jamais se completará porque as lembranças da trapaça sempre permanecerão vivas.


Lauro Baum

Comments

SEE ALSO ...