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Para além da Copa do Mundo

As redes sociais mostram, aqui e ali, um sentimento de rejeição pela seleção brasileira, que reflete a rejeição pela situação do país e que se encarna no desprezo pela camisa amarela, associada a um grupo político


E começou mais uma Copa do Mundo! Comecei a escrever neste espaço justamente ao final da Copa de 2014, ainda sob os efeitos do "7 a 1", o que nos permite dizer que completo um ciclo. Poucas vezes toquei aqui no tema futebol e, quando o fiz, foi porque havia uma conexão com outros temas, como política, racismo ou cultura. Não que as discussões sobre esquemas táticos, sobre quem é melhor jogador ou sobre quais seleções são favoritas não tenham lá o seu valor e o seu prazer, mas sempre é possível olhar para o fenômeno futebol a partir das suas relações com o todo. Assim como a famigerada derrota para a Alemanha na última Copa evidenciou algumas coisas sobre o estado geral do país, é possível observar os contextos nacional e mundial por meio do evento.

No Brasil, o posicionamento político parece estar direcionando o posicionamento futebolístico. As redes sociais mostram, aqui e ali, um sentimento de rejeição pela seleção brasileira, que reflete a rejeição pela situação do país e que se encarna no desprezo pela camisa amarela, associada a um grupo político específico. Muitos declaram que vão torcer pela Argentina, que há poucos dias cancelou um jogo amistoso contra Israel, como forma de protesto contra a repressão que este país exerce sobre os palestinos. As declarações de um apresentador de TV meses atrás, dizendo que o esporte não é lugar de política, foram extensamente criticadas, e por isso a preferência pela seleção argentina, que não se furtou a tomar posição.

Outra questão que envolve o contexto mais amplo e que pode ser vista na Copa do Mundo diz respeito às migrações, fenômeno que se intensificou na última década e que é particularmente sensível na Europa. Já há algum tempo que é possível ver jogadores negros em várias seleções europeias eminentemente brancas, como a alemã e a suíça. Nesta, que enfrenta o Brasil no domingo, um terço dos jogadores convocados são imigrantes naturalizados, e outro terço, filhos de imigrantes. Um deles, o meia Gelson Fernandes, é um retrato dessa situação: negro, com descendência portuguesa, fala seis línguas.

Por ser um evento tão grande, a Copa é capaz de condensar certas tendências mundiais, tanto em termos futebolístico propriamente ditos, quanto em termos políticos, econômicos e culturais. Pensando nisso, fica o convite para que observemos o que acontece para além das paixões, das festas e das disputas dentro de campo.

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