Polícia

Vale do Taquari registrou 166 desaparecimentos em 2018

No Estado, foram 9.096 ocorrências de pessoas desaparecidas no último ano

Créditos: Caroline Garske
- Lidiane Mallmann

Vale do Taquari - Quase que diariamente, familiares registram ocorrências nas Delegacias de Polícia de todo Rio Grande do Sul a respeito de familiares que estão desaparecidos. Em 2018, foram 166 desaparecidos no Vale do Taquari. Já no Estado, foram 9.096 registros. Um dos casos que mais chama a atenção dos moradores de Anta Gorda e de todo Vale do Taquari é o desaparecimento de Jacir Potrich (55), que completa dois meses neste domingo. Em 13 de novembro de 2018, ao voltar de uma pescaria, o gerente do Sicredi do município sumiu sem deixar vestígios. O caso intriga a cidade e dá trabalho à Polícia Civil, que afirma que em breve, a investigação dará as respostas necessárias.

Há dois meses, a família de Jacir Potrich não tem a mínima ideia do que aconteceu com ele. A esposa, Adriane Balestreri Potrich (53), aguarda o esclarecimento sobre o caso. A espera, segundo ela, gera aflição. "Conversei com o delegado nesta semana e ele me falou a mesma coisa que está nas entrevistas. Estamos com esperança, mas ao mesmo tempo muito aflitos, pois já são dois meses e não se tem um norte", lamenta. Ela relembra que o marido nunca comentou nada a respeito de ameaças, pois era muito reservado, principalmente em relação ao trabalho. 

O delegado responsável pelo caso, Guilherme Pacífico, afirma que a investigação foi além dos limites de Anta Gorda e até do Rio Grande do Sul. "Ultrapassamos as dividas do Estado e fomos além de tudo que se tinha aqui em Anta Gorda." Pacífico explica que todo o passado da vida de Jacir Potrich, até o dia do desaparecimento, foi investigado. Segundo ele, em breve, o caso será esclarecido. "Passados 60 dias, estamos mais próximos do final do que no início, quando sequer tínhamos algum norte", finaliza.

 

CASO EM ANTA GORDA: esposa Adriana Potrich e filho Vinícius Potrich aguardam esclarecimentos sobre desaparecimento de Jacir

Dúvida que dificulta superação

Mas, como lidam as pessoas que têm familiares desaparecidos há dias, meses e até anos? A psicóloga do Centro Profissional Naces, Bruna Martins, explica que a incerteza sobre o que aconteceu com um ente querido gera a dificuldade na aceitação do fato. Segundo a profissional, é importante que a família consiga seguir em frente e volte a ter uma rotina normal. Procurar o auxílio de um profissional também conta muito para a superação.

Auxílio psicológico

"A família, diante do desaparecimento do ente querido, inicia um processo de reconstrução, procura informações e razões para entender o desaparecimento. Esta incerteza frente às razões gera sentimentos como medo, insegurança, saudade, sofrimento e esperança de reencontro. A Psicologia pode auxiliar principalmente permitindo aos familiares a expressão do seu sofrimento. Expressar o que estão sentindo e conseguir desabafar auxilia no processo de elaboração de luto. Sem este cuidado, com a evitação e negação da dor, há uma maior possibilidade de desenvolvimento de traumas na vida dos familiares. O apoio psicológico também pode vir ao encontro da busca de promoção da reestruturação familiar."

Incerteza

"A dificuldade de superar se deve principalmente à incerteza. Não saber o que aconteceu gera um sentimento único e particular com uma gama de efeitos psicológicos danosos. Pode acontecer do familiar ficar pensando o tempo todo na pessoa e, com isso, alternando as emoções entre desespero, esperança, nervosismo, irritação, cansaço físico e emocional, dificultando a continuidade da vida, como dedicação ao trabalho e outros segmentos. A falta de desfecho impossibilita que o processo ocorra de forma adequada."

Diálogo 

"Manter uma relação de confiança, segurança e comunicação constante é fundamental. Conhecer seus amigos, estar a par da suas atividades para acompanhar o crescimento do filho e poder orientar é uma das formas de prevenção, não só aos riscos relacionados ao tema em questão, mas também a outras questões que surgem na adolescência como dúvidas quanto aos estudos, drogas, sexualidade, etc. O cuidado com questões mínimas faz toda diferença, inclusive para o adolescente saber que não está desamparado. Então saber onde o filho está, e com quem está, é muito importante."

Superação

"É algo muito difícil de enfrentar, mas é importante que os familiares encontrem uma forma de não desanimar e conseguir seguir em frente. Voltar sua energia ao cuidado com a sua própria saúde, tomar as rédeas da sua vida para voltar a ter sua rotina mínima, dedicar-se ao que lhe faz bem e procurar auxílio profissional para conseguir aliviar a dor sentida. Falar sobre o que sente, seja com amigos ou grupos de apoio, ajuda na elaboração do sofrimento."

Não é preciso aguardar 24 horas para fazer ocorrência

É lenda quando se fala em aguardar de 24 horas a 48 horas até registrar um desaparecimento. Muitas pessoas acreditam que, antes de informar a Polícia Civil, é preciso esperar um tempo, fazer ligações ou até tentar procurar por conta própria. Segundo o titular da Delegacia de Polícia (DP) de Lajeado, o quanto antes se registar um desaparecimento, maior será o sucesso ao solucionar o caso. "A partir do momento em que se nota a ausência de uma pessoa, prontamente deve-se entrar em contato com a Polícia Civil. Se a pessoa teve ciência de um sumiço e já é tarde da noite ou madrugada, ela não precisa esperar até o dia seguinte, ela pode se deslocar à Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) e, de pronto, fazer boletim de ocorrência." Conforme Moreno, no momento em que é registrado um desaparecimento, é dado um start a todas delegacias do Rio Grande do Sul, o que apressa o trabalho dos policiais. "Iniciam-se diversas diligências, inclusive atividades de inteligência da Polícia Civil", completa.

O delegado explica também que é de extrema importância fornecer fotos recentes do desaparecido, além de características físicas sobre vestimenta e objetos que pudessem estar com a pessoa. "Tentamos relembrar como a pessoa desaparecida estava vestida, se levou algum bem ou se fez malas. É importante também, além da foto, sempre que possível fornecer telefones de pessoas próximas. Às vezes, tem algum amigo que sabe qual era a intenção, objetivo daquele indivíduo em sair de casa e não dar notícia", resume.

Importância de registrar localização

Após registrado um boletim de ocorrência de desaparecimento, muitas pessoas são localizadas, no entanto, os familiares não voltam à delegacia para informar a localização. Segundo a Divisão de Planejamento e Coordenação da Polícia Civil, o sistema não faz a relação de pessoas desaparecidas. "É importante atentar para o fato das pessoas não registrarem ocorrência da localização dos desaparecidos, apenas do desaparecimento", esclarece o setor responsável em nota.

O delegado Marcio Moreno fala sobre a importância em se comunicar a localização do desaparecido. "É muito importante salientar que, uma vez feita ocorrência de desaparecimento e o comunicante não registrar ocorrência de localização, a pessoa continua no sistema como desaparecido." Conforme ele, isso pode acarretar em problemas como durante viagens, por exemplo.

Diligências segundo delegado Marcio Moreno

Crianças

"Na investigação de desaparecimento de uma criança de zero a 12 anos incompletos, tem que se atentar efetivamente para o dia, o cotidiano desta criança e observar diferenças no ambiente. Há uma tendência mais forte por rapto e sequestro em lugares que elas não convivem. Se a criança some de um lugar que ela não está habituada, nós trabalhamos com duas possibilidades: ou ela vai ser rapidamente encontrada porque estaria perdida ou trabalhamos, com o avanço do tempo, com possibilidades mais graves."

Adolescentes

"Nestes casos, o desaparecimento se estende mais. Às vezes, tem algum namorado que mora em outra cidade, e lá se deu conta que teria de avisar a mãe. Então o adolescente, via de regra, tem desaparecimentos que permanecem por prazo maior. É extremamente comum caso de adolescente que desaparece em Lajeado e é localizado em outra cidade."

Idosos

"O desaparecimento do idoso é algo bem peculiar. Normalmente desaparecem porque esquecem o endereço ou porque tem alguma dificuldade de retorno. Por vezes a pessoa está em pleno desenvolvimento de uma doença que pode gerar esquecimento e os familiares ainda não estão preparados para esses avanços, e se preocupam somente quando desaparece na primeira vez. Por isso, é importante avisar rapidamente, pois muitas vezes estes idosos podem ser vítimas de golpes, de pessoas que em vez de orientar ou fazer contato com a família, buscam de alguma forma explorar."

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