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Central completa 30 anos sob o risco de fechar

Há três décadas, Central reabilita dependentes químicos ao unir o tratamento medicamentoso à cura terapêutica

Créditos: Rodrigo Nascimento
- Rodrigo Nascimento

"Durante dez anos meus meus melhores amigos foram os amigos do bar. Eu usava cocaína e tomava uísque. Eu usava de dois a três dias seguidos, folgava dois e cheirava cocaína de novo. O efeito dura 20 minutos, nesse momento o 'cara' se acha o super-homem. Depois vem a tristeza e a paranoia, o álcool do uísque ajudava a manter a ilusão da cocaína por mais alguns minutos. Foram necessários dez anos para que eu entendesse que esse era um caminho sem volta. Foi uma década de drogas para que eu chegasse ao fundo do poço e conseguisse fazer meu tratamento na Central."


O tratamento

O relato acima é de um paciente que está há 20 dias no Centro Regional de Tratamento e Recuperação do Alcoolismo (Central). Vindo de Venâncio Aires, o comerciante tem 44 anos e não sente-se à vontade e em revelar a identidade. O testemunho une-se a mais de 19 mil pessoas que já foram atendidas no Centro, desde o dia 10 de maio de 1986, quando o sonho de curar dependentes químicos tornava-se realidade na região. Este pode ser um dos últimos depoimentos colhidos no local.

 


O paciente que compartilha sua história é um recorte da realidade que as paredes e muros da Central estão acostumados a ver diariamente. Pessoas vencidas pelo vício, sem expectativa de uma sobrevida depois das drogas. Destinos transformados pelo método criado nos Estados Unidos há 50 anos. Método esse, que agora é colocado em xeque. 

 

Isso porque desde o dia 8 de abril uma determinação judicial proíbe o funcionamento da clínica - peça chave no sucesso do tratamento dentro da casa. Agora, para atender seus pacientes, a Central precisa recebê-los desintoxicados, para então dar início ao processo de recuperação.


Para o administrador da Central, Ademir Becker, um erro grosseiro de decisão. "Quando uma família tiver que internar um paciente que está quebrando toda a casa, vamos orientar os parentes dele a procurar a Justiça. A atuação rígida da Central e a forma com que os dependentes são tratados faz toda a diferença."

Becker explica que antes da proibição do tratamento híbrido - que mistura procedimentos de clínica com a terapia tradicional -, o porcentual de sucesso é de 35%. Embora esteja abaixo da metade, o número é considerado altíssimo quando o assunto é recuperação de dependentes químicos. 


A dificuldade

Ao completar 30 anos, a Central acumula vários números. Um deles, pesa na decisão de continuar com o espaço aberto. A imposição judicial que forçou a mudança do sistema de atendimento trouxe consigo o esvaziamento de pacientes e a necessidade de mais recursos para conseguir manter os funcionários e demais serviços.


O presidente do Centro Nadir Malfatti conta que recentemente a instituição recorreu a um empréstimo bancário no valor de R$ 135 mil. Não fosse o suficiente o volume da dívida, não há dinheiro em caixa, nem previsão de entrada. "Só temos condições de dar sequência ao serviço até o fim do mês. Não há recurso suficiente, se quer para desligar os funcionários que estão ociosos, por conta do fechamento da clínica."


Malfatti está desolado. No dia em que deveria comemorar três décadas de histórias de superação, segura as lágrimas para não derramá-las sobre a mesa. "Eu aceitei a morte da Central. Desde então, voltei a conseguir dormir à noite. Só um milagre nos salva."


Em meio a tempestade, o comerciante venâncio-airense tenta reconstruir sua vida, e sonha com o dia que irá voltar aos seus, ao dia que poderá ter paz. Pelo tratamento que a Central lhe ofereceu - talvez um dos últimos -, ele exorcizou seus demônios e voltará, de cabeça erguida para sua família. "Graças a Deus eu encontrei este local, estou feliz e a um passo de realizar meu sonho de ter uma vida normal."

O discurso que nunca foi lido


O advogado Roque Braga Lopes (73) é o fundador da Central. Ao livrar-se do vício do álcool, passados mais de 30 anos, ele descobriu que sua missão na Terra seria ajudar os pares na luta contra a dependência química. Em sua autobiografia, escrita em 2015 ele parte de uma questão: "nasci para o quê?". 


A vida já respondeu à Roque. Ele nasceu para ajudar o próximo. E foi por isso que ele deu início ao projeto, pedindo doações durante três anos, até que o projeto brotou no Bairro Carneiros, em Lajeado. "Eu presidi a Central durante 25 anos e nos últimos cinco tenho acompanhado a clínica. Minha vida e a milha Central. Minha no sentido de dedicação, cuidado e atenção aos que precisavam."


Há exatos cinco anos seria a festa de aniversário, das bodas de prata da Central. Na época, oito dias antes, em 2 de maio, Roque foi afastado da presidência e a Central fechada. Para atender a legislação em 2011, o espaço precisava de uma adequação completa que passou, sobretudo, pela contratação de profissionais que agora ficaram ociosos com o fechamento da clínica de desintoxicação. "Na época eu queria dizer que quando eu morrer, se decidir pela cremação, desejaria que minhas cinzas fossem jogadas na Central e a chuva às levasse para dentro do Taquari (pausa). Quando passasse por Cruzeiro do Sul, dariam um 'olá' para os Lopes. (pausa) Se conseguissem ir até Mariante, dariam um 'adeus' para os Braga. Eu nunca consegui fazer esse discurso."


Em meio à tristeza, Roque projeta na esperança a força para continuar. Isso porque o promotor de Justiça Sérgio Diefenbach entrou com um pedido de intervenção do Ministério Público junto à Justiça. Em sua tese de defesa, Diefenbach argumenta que "invariavelmente o sujeito, já desintoxicado, quando não foge do próprio hospital, recebe alta e não dá sequência ao tratamento e ao acompanhamento", situação que, em uma clínica híbrida como a Central não ocorre."A Central é referência em todo o país como sendo a última chance de reabilitação de muitas pessoas", defende Roque. 


Tomás está 25 anos livre do álcool


O vendedor cruzeirense Tomás Reckziegel conta que aos 37 anos resolveu abandonar a vida boêmia e assumir a família. Para isso, procurou ajuda na recém-criada Central. Casado e pai de três filhos ele assumiu a fraqueza, reconheceu seus erros e pediu perdão. No dia 29 de abril passado ele recebeu um certificado de que estava 25 anos sem consumir a cachaça que lhe tirou da família um dia. "A forma de tratamento dentro da Central é fundamental para essa mudança. Um hospital, ou um centro de reabilitação comum não são suficientes. Tratar a dependência de maneira fracionada não dá resultado positivo."


Depois de sua internação, durante cinco anos Tomás seguiu acompanhando de perto o trabalho da clínica. Atuou como voluntário, ajudando outros dependentes a reconhecer a vida fora da mesa de bar ou do uso de drogas. "Eu vivia com medo. Tinha medo das pessoas para as quais eu devia. Tinha medo da luz do sol, porque ela cegava os olhos viciados. Hoje não existe mais medo. Graças a Central eu estou na sobriedade e reconheço as minhas ações."

 

Relembre o caso

- Em maio de 2011, a Central foi fechada para a adequação das instalações à exigências sanitárias. Na época, a direção do Centro assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público de Lajeado para poder reabrir. O ajuste passou pela incorporação de profissionais da área médica e novas instalações ao prédio da entidade.


- Em 2016, a Central não conseguiu renovar o alvará de funcionamento. Antes fornecido pela Vigilância Sanitária do Estado, órgão que na região é representado pela 16ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), o laudo foi negado. A Secretaria Municipal de Saúde de Lajeado avaliou, mas também não emitiu o documento. Em março, a Justiça intimou a 16ª CRS a fornecer o documento. A decisão foi derrubada pela Procuradoria-Geral do Estado. A presença da Unidade de Desintoxicação barrou o alvará. 


- Em 8 de abril, a Justiça proibiu o funcionamento da Unidade Terapêutica da Central (local onde era feita a desintoxicação e o início do tratamento). A falta de alvará e a proibição do funcionamento de forma híbrida, afastou contratos de prefeituras e pacientes, causando um rombo nas contas da entidade.


- Em 20 de abril o Ministério Público entrou com pedido de intervenção na Justiça, pedindo a reconsideração e a volta do funcionamento da Central, no modelo em que ela foi criada. A decisão ainda não foi tomada. 


- Na sexta-feira (13), ocorre a festa de 30 de fundação do grupo de Alcoólicos Anônimos da Central. A data também é o limite para que a direção da instituição decida pela continuidade ou fechamento do centro. O encontro ocorre às 20h. 

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