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Chernobyl

Tiago Segabinazzi _ jornalista [email protected]


"Qual é o preço da mentira? Não é que podemos confundi-la com a verdade. O perigo real é que se ouvirmos mentiras o bastante não reconheceremos mais a verdade. E o que poderemos fazer? O que restará além de esquecer até a esperança de verdade e nos contentarmos em vez disso com histórias? Nessas histórias não importa quem são os heróis. Só queremos saber quem é o culpado".
Contenta e muito a história contada na minissérie Chernobyl - suas primeiras frases estão no parágrafo inicial - sobre o maior acidente nuclear da história, envolto em segredos e de causas não compreendidas. Como o próprio roteiro provoca, que importa identificar o culpado, é preciso apontar que a produção da HBO investe na velha narrativa anti-União Soviética, seus símbolos e ideais. Neste ponto é previsível e pouco criativa, mas está tudo bem: ao atentar para a dissolução do indivíduo em nome do Estado, a crítica é mais do que pertinente. E é justamente na tensão entre o corpo coletivo e o próprio corpo que se assentam alguns grandes momentos.
Mergulhadores entraram na água contaminada da usina, mineradores escavaram abaixo do reator a derreter. Era o suficiente para morrerem. Sabiam disso e foram. Simplesmente porque "devia ser feito". Convencidos pelo ministro do interior Boris Scherbina: "Cada geração deve encarar seu próprio sofrimento". Ele morreria em breve, também devido à exposição radioativa. Um político, que deve pensar no coletivo, no futuro, com a morte em seu breve horizonte, colada ao acontecimento que tenta resolver para um depois em que talvez não viva.
No hospital, um dos primeiros bombeiros a chegar no local do acidente está morrendo e sua esposa burla regras para não o deixar sozinho. Assume o perigo de morrer também. Abaixo da devastadora radiação a se espalhar pelos ares e condenar tudo que puder alcançar, o que é estar ao lado de seu marido na hora da morte? O que vale tocar naquele pedaço de carne tóxica, já irreconhecível? Talvez tudo.
Paralelo à corrida para estancar o que já aconteceu e diminuir a catástrofe, a personagem Ulana Khomyuk representa todos os cientistas que na época buscavam as causas: o reator RBMK não poderia ter explodido. Outras dez usinas na União Soviética usam a mesma tecnologia _ tão estáveis quanto a fissão de urânio. Não há explicação para o acidente com energia nuclear que está ameaçando a vida e não pode sequer ser contornado: junto ao terror, a perplexidade. O segundo Big Bang, agora ao contrário: uma explicação absurda para o início da vida e outra a ser criada para o fim.
O ser humano desenhou uma fonte de energia para atendê-lo e de repente teve que literalmente fugir dela, evacuar a cidade de Pripyat, porque aquilo é letal para sua vida. É um pouco do pesadelo da técnica, inaugurado com Frankenstein _ a criatura que se volta contra seu criador _, que traz Chernobyl: tanto a série quanto a história.


Tiago Segabinazzi

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