Colunistas

Choque térmico

Tiago Segabinazzi - jornalista [email protected]


"Senhor, tenho que pedir para você sair, vamos fechar para limpeza", me disse, com a vassoura na mão, o dono do café que fica ao lado da bilheteria da rodoviária de Porto Alegre. Eu estava no fundo, de costas para a parede, abaixo da televisão, na mesa onde acabei pegando no sono debruçado sobre um livro de Walter Benjamin. Olhei para fora da porta e reconheci a visão familiar dos largos pilares entre os quais estacionam os ônibus. Parecia estranha sem o movimento habitual. Eram quase 2h. Levantei os olhos outra vez ao dono do estabelecimento, acenei com a cabeça, paguei a conta e saí.

Achei que com o café e o pastel folhado eu tivesse comprado também a estadia um pouco fora do frio, até as 6h30min - só essa hora sairia o primeiro ônibus para Lajeado. Eu vinha da última aula do mestrado, que acabou às 17h30min do dia anterior. À meia-noite pegaria uma carona marcada no Blablacar - "caronas de confiança", diz o slogan; foi a primeira vez que tive problemas com esse aplicativo. Cheguei às 23h30min para o local marcado - a rodoviária - e avisei o motorista. Ele cancelou a carona e não respondeu mais as mensagens, nem no Facebook.

Não havia outras caronas disponíveis, eu não estava disposto a pagar um táxi ou Uber para voltar até aqui, nem quis incomodar amigos àquela hora, naquela noite gelada. Decidi ficar na rodoviária mesmo. "Não, tu não pode deitar, se quiser, pode ficar sentado", me disse o segurança quando eu fui junto aos torcedores do Chile, silenciosos após a desclassificação para o Peru na Copa América. Descobri que havia somente dois bares que ficam abertos durante a madrugada. Fui naquele mais perto do embarque, pedi mais um café e pedi mais uma vez se podia ficar por lá. Desta vez me deixaram. Obrigado, dona.

Esse era aberto, havia pouca gente lá: além da dona, um cara acompanhando a entrevista de Ricardo Salles na GloboNews, outro que foi duas vezes buscar um copo de vinho e uma mãe e uma filha numa mesa no canto. Pedi permissão para ficar ali com elas e ofereci uma bala de mel. Muito vento entrava pelas grades e de alguma forma o sereno penetrava por ali até nossos focinhos. Me recostei nas cadeiras de plástico para tentar dormir. Não deu: o café e a fala do ministro do meio ambiente não ajudavam, mas a sensação de 1,2° C daquela madrugada definitivamente não permitia. Tentei ficar mais umas duas horas por lá até, por fim, decidir espantar o frio caminhando.

Dei uma volta ao redor da rodoviária, ainda meio revoltado por ter tomado um cambão na carona. Logo percebi que, enquanto me preocupava com os afazeres da manhã seguinte, passar por aquela noite ainda era uma disputa para muita gente encolhida sobre si mesma: três pessoas ao redor do fogo de um jornal, duas abraçadas, muitas cobertas com papelão - e uma delas sem nem papelão para se cobrir. No meu bater de queixo, era impossível entender como ela sequer tremia e ainda conseguia dormir, mesmo úmida. Nem mesmo sua respiração fazia vapor ao entrar em contato com a brisa gelada. Deveria se tratar de um corpo que estava ali todos os dias. Um corpo estranho em sua diferença e ao mesmo tempo familiar; pelo qual tantas vezes devo ter passado e imediatamente lamentado por sua situação, mas que pela primeira vez senti parte de seu frio.


Tiago Segabinazzi

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