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No rastro de uma civilização que se alimenta do mito de fazer hoje para garantir o amanhã baseado numa experiência de ontem, o sino segue funcionando.


O sino da torre da igreja de Nova Bréscia toca a cada meia hora: uma badalada para cada unidade de hora cheia e uma badalada para anunciar a metade da hora passando - se são oito horas, oito badaladas; se são três e meia, uma badalada. Assim, às doze e trinta, à uma hora e à uma e meia, o sino toca só uma vez. São três anúncios feitos da mesma forma: por uma única badalada. Nesse meio tempo, para ter certeza de que horas são, é preciso esperar até as duas; até uma hora e meia de teste.

Deixando de lado a simbologia, há coisas que tiveram papel singular no passado e que se mantêm em nossa sociedade sem utilidade contemporânea. É o caso das badaladas do sino da igreja que anunciam as horas: a vida, seus compromissos cumulativos e suas surpresas nos impõem um ritmo que exige mais do que uma batida de sino a cada meia hora. Esse anúncio vindo de uma estrutura centralizada arquiteturalmente, podemos aceitar, se tornou dispensável para saber que horas são.

Provavelmente, talvez nem haja tanta confiança no acerto do sino: ao escutar de suas badaladas segue a conferência no relógio; caso não esteja certo, tudo bem: o importante é ter um relógio em que confiar, e este, definitivamente, não é o da torre. Ou seja, se a hora anunciada é diferente daquela em meu pulso, pior para o sino; se houver sincronia, um misto de satisfação com leve espanto, mas nada a se comemorar.

Será que importa a hora anunciada por um sino? A vida segue implacável mesmo sem a segurança que traz esse serviço. Olhamos para cima sem necessidade de ponto de referência - pelo menos deste em específico: ninguém se importaria se o sino parasse de tocar, mas não se pode dizer o mesmo se sumisse o sinal do celular ou a internet.

No rastro de uma civilização que se alimenta do mito de fazer hoje para garantir o amanhã baseado numa experiência de ontem, o sino segue funcionando. Mas cada um tem seu horário.
Opa, bateu duas horas. Melhor ir dormir, pois amanhã é outro dia. Menos para quem o hoje ainda não terminou.


Tiago Segabinazzi

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