Colunistas

Gosto não se discute

Será que o que gostamos, gostamos porque gostamos de fato ou gostamos porque aquilo é considerado algo a ser gostado: algo que não será estranhado?


O titular desta coluna, Flávio Meurer, toda semana apresenta o Álbum Sonoro (quartas-feiras, 22h30min, na Univates FM 95.1). Nesse programa, seus convidados contam um pouco de suas vidas por meio de músicas, uma conversa provocada a partir de categorias como "música que lembra um lugar", "música pra dançar", "música da infância". Noutra delas, o entrevistado revela, admite que gosta de algo que pode ser considerado estranho; algo que em condições normais de temperatura e pressão não se deveria gostar: esta é a categoria "gosto não se discute".

Esta velha máxima do conhecimento popular supõe que preferências pessoais não podem ser discutidas, justamente por se tratar de particularidades de cada um: não há como - nem por que - haver consenso sobre que coisas mais apetecem cada corpo, afinal todos são diferentes e têm sua própria historicidade, certo?

Entretanto, uma olhada pra fora da janela basta para nos escancarar o quanto somos semelhantes: roupas, lazeres, modos de vida... nossas escolhas mais nos assemelham do que nos diferem. A diferença, aliás, é geralmente vista com estranheza - para dizer pouco. Como explicar tanta concordância entre corpos que têm marcas únicas?

Será que o que gostamos, gostamos porque gostamos de fato ou gostamos porque aquilo é considerado algo a ser gostado: algo que não será estranhado? Como ouvir os Beatles sem os filtros socioculturais que os consagram como a melhor banda de rock da história e, assim, condicionam nossa apreciação? (Sabemos que na verdade o Led Zeppelin é que está no topo)

É fácil que sua música preferida seja sua música preferida por acreditar que ela é melhor do que as outras. Se retirarmos a régua moral usada para aferir a medida-padrão e a proporção áurea poderíamos gostar de algo sabendo que isto é tão ordinário quanto todo o resto? Paixão sem orgulho. Amor sem ideal. A música também é metáfora para a vida: quanta coragem temos para afirmar a diferença?


Tiago Segabinazzi

Comentários

VEJA TAMBÉM...