Colunistas

Impressão digital

Tiago Segabinazzi - jornalista [email protected]


"Essa assinatura não confere com o documento, senhor. Sim, é preciso refazê-la ou eu não posso liberar o crédito. Bom, se o senhor não assina mais assim tem que tentar fazer parecido. Espere, deixe eu rever isso..."
Era óbvio que ele já não era aquele cara de trinta e quatro anos atrás: deixara de escrever em letra cursiva e sua assinatura oficial - marcada pelo traço tremido que buscava legibilidade - deu lugar a um risco despreocupado em poder ser repetido noutro documento.
Se nem as consoantes dobradas de seu sobrenome - escritas uma imediatamente após a outra - pareciam ser a mesma letra, como uma assinatura toda poderia aguentar o cansaço adquirido pelo braço ao longo do tempo ou a pressa que os dias imprimem sobre o corpo e se manter a mesma? Ou ainda: como resistir aos possíveis caprichos aleatórios - como adotar um estilo gótico e autografar todo meio pontudo numa terça-feira qualquer?
A utopia da identidade, da permanência e da essência, é possível: é só olhar para trás e para dentro de si e tentar conservar a imagem que cada um forma quando aprende a escrever seu nome e o lê pela primeira vez. Talvez inconscientemente naquele momento relampeje o autorretrato bruto que lapidaremos ao longo da vida: não até a perfeição, mas sim até a morte.
Só que esse cara que pedia empréstimo desconfiava de si mesmo, daquilo que o definia e poderia identificá-lo, tanto quanto a nova escriturária da agência. "Como posso confiar que o senhor é quem diz ser?". Ótima pergunta; ele não poderia provar nada, e antes que tentasse ensaiar uma resposta, o gerente interveio:
"Deixa assim, eu o conheço, o pai dele é meu vizinho", disse, da mesa mais atrás. "Vai comprar um trator?".
"Não, estou parando com a roça", respondeu meio a contragosto.
Na verdade, era a roça que tinha parado ele: dores no joelho esquerdo e o ciático atacado. Não tinha mais como seguir com o fumo. Aquele pedaço de feijão que havia imaginado, então, seria completamente inviável. Já estava difícil até pra recolher os frutos das nogueiras que plantou há poucos anos, lá nos fundos, e recém haviam começado a produzir. Aos cinquenta e um anos, decidiu começar a plantar cogumelos.
"Isso é negócio, hein", parabenizou o gerente. "Quem diria que aquele cara que só pensava em motos, iria plantar cogumelos? Parece que eu nem te conheço".
Ele então olhou novamente para sua carteira de identidade. A foto três por quatro original e aquela assinatura bamba eram indício de quem fora. Naquele olhar meio assustado de garoto já havia a semente que estava sendo germinada agora - a possibilidade de plantar cogumelos? Quando comprou o primeiro pedaço de roça teria suposto que a vida que acreditou estar encaminhada rumo ao descanso sofreria tal desvio?


Tiago Segabinazzi

Comments

SEE ALSO ...