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Mil motivos para flutuar

Qual teria sido o formato do sorriso que o canto direito de seu lábio desenhou de repente em seu rosto quando, satisfeito, ele sentia ser sugado ao céu?


Qual teria sido o formato do sorriso que o canto direito de seu lábio desenhou de repente em seu rosto quando, satisfeito, ele sentia ser sugado ao céu? Como teria sido a sensação de ter, durante algum tempo, invertido a gravidade, ao menos em torno de si, e ter feito do peso do mundo seu impulso?

Seu corpo, mesmo contornado, perpassado e construído por pesadas instituições sociais, demorou poucos minutos pra voar e, no tempo de um salto, estar acima das nuvens escuras que precipitavam sobre quem, abaixo de si, assistia e fazia aquilo que o tempo se negava - trovejar: "Que idiota". "Louco". "Deveriam ter impedido". "Interná-lo"!

Deixar a vida levar é o que se canta sorridente, talvez sem levar muito a sério o que significa jogar dados. A consciência de que nada está traçado é libertadora de nós, permite a construção, de alguma forma, do próprio caminho; mas é perigoso confundir uma vida sem destino, aberta, com uma vida sem desejos, sem vontade.

A navegação ser exata e a vida desnecessária não é, de todas as combinações possíveis, a interpretação mais potente para aqueles versos de Fernando Pessoa.

Que tal o corpo como suporte para a arte? Poesias são lidas aos suspiros porque escancaram uma beleza distante, impraticável: só desejável; alguém que ousa transformar um dia comum de sua vida num refrão, num ritornelo, causa um descompasso no arranjo vigente.

Mas o medo do impacto é pouco diante da sedução da queda.

"Vou navegante sem ter velas ou timão, basta o som das pedras pra guiar a direção. Só agora eu entendo, todo mar é um pouco de remédio ou a dose de um veneno...".

Este trecho acima destacado faz parte da música "A despedida do padre", de uma banda chamada O padre dos balões; uma homenagem a Adelir de Carli, que, exatamente dez anos atrás, teria seu corpo se esmaecendo num céu chuvoso de domingo para algum tempo depois, não se sabe e não importa quando, retornar aqui sob outra forma: inspiração.

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