Colunistas

Ontem foi o Dia da Mulher. Hoje é sexta

Se a composição de Juliana Strassacapa sugere que pouco mudou, que continua o olhar de estranhamento sobre a mulher que ousa escolher ser como quiser, ela responde que não gosta de fazer bolo


Sexo frágil? Que mentira absurda, exclamava Erasmo Carlos no início dos anos 1980 em Mulher - música sobre o objeto que ontem era lembrado com um dia internacional. Era um reconhecimento masculino sobre o valor inestimável da mulher: "sei que a força está com elas", continuava ele, que conhecia a rotina de uma delas e por isso poderia "decantar você nessa canção". A suavidade da melodia embala uma letra que resume o discurso sobre o lugar dela na sociedade: atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher.

Frases prontas, essas máximas aceitas de cabeça baixa e olhar convicto, servem de sintoma sobre as verdades que estamos dispostos a acreditar - como a aceitação da coadjuvância da mulher, sua limitação ao papel doméstico ou sua suposta determinação maternal: "quando chego em casa à noitinha quero uma mulher só minha; mas pra quem deu luz não tem mais jeito porque o filho quer seu peito". Mesmo que bonitinha, essa música expressa certa normatividade no ser mulher, fruto também da expectativa do homem, que elege os atributos que mais lhe agradam: "satisfaz meu ego, se fingindo submissa; mas no fundo me enfeitiça". 

Rita Lee, ainda na década anterior, pintava um retrato um pouco diferente em Luz del Fuego: "eu hoje represento a loucura mais o que você quiser, tudo que você vê sair da boca de uma grande mulher. Porém louca!". Porém louca, observava ela, que sabia como seria considerada por escolher não ser normal. Não que isso importasse pra titia? uma mutante ainda nos anos 1960, depois de ser expulsa da banda, num par de anos virou ovelha negra e fez um dos maiores álbuns da música brasileira, o "Fruto proibido", que na homenagem à Dora Vivacqua continuava sua descrição: "Eu hoje represento uma fruta, pode ser até maçã; não, não é pecado, só um convite, venha me ver amanhã. Mesmo!".

Como está o amanhã do ontem que continua sendo tão hoje? "Triste, louca ou má será qualificada ela quem recusar seguir receita tal" é o que ouvimos, quarenta anos depois, da francisco, el hombre. Se a composição de Juliana Strassacapa sugere que pouco mudou, que continua o olhar de estranhamento sobre a mulher que ousa escolher ser como quiser, ela responde que não gosta de fazer bolo - ao menos não com receita dos outros: "Prefiro queimar o mapa, traçar de novo a estrada, ver cores nas cinzas e a vida reinventar".

Comentários

VEJA TAMBÉM...