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Só internando

Tiago Segabinazzi [email protected]


Acho que muitos já sonharam estar gritando e ninguém ouvir. As pessoas viram as costas, seguem seu caminho ou olham para o lado como se não houvesse nada além de silêncio. No meu caso _ devia ter seis ou sete anos _ acordei gritando mesmo, com meu pai pedindo "o que foi, o que foi?".

Por se tratar de um sonho, de não ser ouvido e de aparecer a figura do pai surge ao natural a máxima "Freud explica". Em minha "autoanálise" identifiquei a situação sonhada como metáfora para um dos meus maiores temores _ ser descartado. Mesmo gritando, ter as palavras ignoradas. Mesmo pensando, ter o raciocínio invalidado. Povoa meu imaginário a cena do filme Bicho de Sete Cabeças em que o personagem de Rodrigo Santoro, Neto, é levado pelos pais a um manicômio depois de encontrarem seu baseado. Baseado na história real de Austregésilo Carrano Bueno. Tudo o que ele pudesse dizer, argumentar, protestar, era invalidado, pois ali ele estava para ser tratado. A instituição cria o interno.

Essa semana Bolsonaro autorizou a internação involuntária de usuários de drogas a pedido de familiares ou responsáveis legais _ ou até de servidores públicos da área da saúde. A lei que altera a política nacional de drogas é de autoria de seu ministro da Cidadania, Osmar Terra, na época em que era deputado federal, em 2013. Aquele mesmo que disse, dias atrás, não confiar em estudo da Fiocruz e, a partir do que enxerga nas ruas, constatar haver uma "epidemia de drogas".

Invalidar a fala do outro é algo realmente perverso. Toda história e toda potência únicas de sua vida são encerradas no pressuposto, no preconceito, muitas vezes legal, burocrático de uma palavra: um drogado. Um apelido que não permite a chance de ver nele algo além disso. Um sobrenome que condena suas vitórias. E um dos tantos nomes do inimigo do cidadão de bem.

Um ministro que descarta pesquisa séria, um governo descarta a individualidade de seus cidadãos, os pais que descartam o filho que acham que conhecem: porque supostamente o amam, assim como a sociedade ama os drogados e deseja salvá-los - por isso permitem que a internação aconteça nas chamadas comunidades terapêuticas, algumas que recebem recurso do governo.

É preciso acreditar nos nossos jovens para além de um apelido. O menino Neymar é "um garoto que está passando por um momento difícil, mas acredito nele", disse Bolsonaro sobre a acusação de estupro feita contra o jogador de 27 anos. Por outro lado, "a mulher atravessa o continente, ela quer", também disse ele. Chega a opinião do pai forte para colocar ordem na casa, com a severidade necessária de uma declaração firme que castiga quem desviou a norma, quem não seguiu a cartilha. Freud explica.


Tiago Segabinazzi

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