Tiago Segabinazzi

Doutorado em Harvard

Artigo de Tiago Segabinazzi

Créditos: Tiago Segabinazzi - jornalista

Costumeiramente, uma bengala lembra fraqueza: é um acessório para ajudar numa dificuldade motora, de equilíbrio. Traz também um sentido de ser um apoio, não necessariamente físico, para alguma situação: "o café é a bengala do distraído que quer se concentrar". Parece se tratar de algo que viria sanar uma falta.

Não parecia ser o caso, na imponência de seu caminhar, daquele homem que subia a rua Saldanha Marinho: o passo firme, compassado e decidido prescindia da bengala, que ele segurava só com quatro dedos da mão direita. Ia pontuando a calçada enquanto seus joelhos abriam levemente para fora da linha dos quadris. Estava claramente confiante.

Ao chegar na esquina, uma pausa dramática para estufar o peito, levantar o maxilar e apontá-lo ao horizonte. Atravessou a rua, entrou no prédio e chamou o elevador. Com a ponta da bengala, apertou o botão do quarto andar e, já subindo, se apoiou sobre ela para ajeitar no espelho sua cartola imaginária no estilo Charles Chaplin. Empinou-a para a esquerda. Segurava um olho tenso como se tivesse um monóculo e como se tivesse mesmo um monóculo percebeu que o que trazia na mão era um guarda-chuva.

Há algum tempo, percebeu, havia perdido a confiança na bengala. Não via nela nada de fundamental para sua vida nem para a vida dos outros - além deste charme que conseguia performatizar tão bem, mesmo com um guarda-chuva. Talvez estivesse guardada no armário, no canto, atrás das caixas de calçados que já não usava - velhos demais para sair à rua, valiosos demais para se desfazer. O guarda-chuva, útil que era, ficava mais à vista.

Mas quem era esse outro cara que, no caminho de volta, ousava desfilar pela Bento com uma bengala? Uma bengala mesmo, marrom, discreta até nas batidas, pois tinha sola de borracha. Era um modelo daqueles tradicionais, com o cabo em forma de "J" _ só pode que ao puxar viria para fora uma pequena espada.
Incomodado, desconfiado e tomado por uma revolta interna, decidiu atacá-lo.

 


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