Tiago Segabinazzi

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento

Artigo de Tiago Segabinazzi

Créditos: Tiago Segabinazzi - jornalista

Do que percebi daqui de minha bolha, acho que fui o único a lamentar o anúncio de que a Netflix comprou os direitos de Cem anos de solidão para transformá-lo numa série. Não exatamente lamentei, mas não comemorei: sou muito cético em relação a adaptações da literatura para o audiovisual pela provável perda de qualidade que a troca de formato poderá causar.


Claro, essa é uma atitude purista e até ranzinza de quem quer colocar aquilo que aprendeu a gostar no altar do intocável. Por que macular uma obra divina com a imperfeição do toque do animal ousado? A tentativa deve ser castigada ainda enquanto desejo! Uma crítica pressuposta, pré-concebida e preconceituosa. Mas que exagero.


É só olhar para trás para ver que o cinema, a partir de livros já consagrados, conseguiu feitos indiscutíveis: O poderoso chefão (1972), O iluminado (1980), O silêncio dos inocentes (1991), Onde os fracos não têm vez (2007). Ou seja, é bem possível que uma grande obra surja. Além disso, como a proposta é fazer uma série, a história ficará menos condicionada pelo espremido tempo de um filme habitual - de até três horas.


Só que o romance de Gabriel García Marquez traz peculiaridades que parecem ser intransferíveis. Como conseguir aquela sensação de desorientação diante das sete gerações da família Buendía que alterna, combina e mistura os nomes José, Arcadio e Aureliano? No livro, estes personagens sem rosto nos fazem reler parágrafos e capítulos inteiros para tentar recuperar os acontecimentos e localizar cada um deles dentro da temporalidade da narrativa. Justamente ali, na busca pela lógica dos fatos, pela verossimilhança da história, que Gabo nos pega no contrapé, nos dá uma voadora com a suavidade que a palavra escrita permite e causa aquele questionamento: eu realmente estou lendo isso?


É impossível que se possa pinçar esses efeitos do livro e inseri-los no audiovisual. Vilém Flusser, filósofo tcheco, naturalizado brasileiro, dizia que a arte é a ação de informar um material que oferece sua própria resistência. Informar um livro com palavras é uma coisa, informar por meio do audiovisual é outra. Cem anos de solidão, quando virar uma série, será não uma adaptação, mas sim outra obra - com seus próprios méritos que veremos adiante.


Depois de (mais) uma semana de notícias ruins, achei melhor falar no realismo mágico que se passa com uma família e seus conhecidos na fictícia Macondo do que no realismo trágico dos personagens de Vivendas da Barra.

 


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