Tiago Segabinazzi

É pela paz que eu não quero seguir admitindo

Artigo de Tiago Segabinazzi

Créditos: Tiago Segabinazzi - jornalista

Esta última semana do governo Bolsonaro diz muito sobre sua política. Mais um decreto que facilita o acesso a armas de fogo e mais um ataque ao ensino e à pesquisa no país. Diante disso, a argumentação crítica a este tipo de política parece ser dispensável _ bastaria colocar as coisas lado a lado. Mas quando se vê as coisas através da mira, só o alvo é nítido, o que resta ao redor do ponto específico fica borrado. Por isso, para proteger os jovens da doutrinação, se facilita ainda mais a prática do tiro. Para que se veja tudo pela mira. Para que se veja tudo como alvo.

Agora, até jornalista que faz cobertura policial pode ter porte de arma. Foi dificultado o acesso a dados públicos de governo, como os da Reforma da Previdência, mas liberou a posse de arma. Mais do que uma segurança, essa medida é cognitiva: com a arma no coldre, faz o jornalista acreditar que está constantemente em perigo; que a proteção é um dever seu, e não do governo; que sair às ruas implica entrar no campo de batalha, estar pronto para atirar. Trata-se de uma reafirmação da narrativa de nós contra eles: estou com uma arma para me proteger "dos bandidos"; se estou contra os bandidos, sou do bem; se sou do bem, quem é contra mim é do mal.

Um político em mandato com o porte de arma tem estendido seu poder: de jurídico para também cibernético; uma simbiose homem-máquina, a extensão maquínica do corpo que automatiza e materializa o gesto de fazer arminha com a mão - como as imagens desta semana mostraram. Na cintura um revólver, no rosto um largo sorriso e no ombro o afago da indústria armamentista.

Quem sabe aumentar a possibilidade de compra de munição de 50 para até 5000 projéteis anuais faça a economia girar (o tambor) e salvar o país. Afinal, é uma das grandes promessas de campanha e engodo contra "tudo isso daí". Investir no ódio é o último cartucho de Bolsonaro. Sabemos que tem sido também o primeiro, desde o início do jogo. E este jogo com um só cartucho se chama roleta-russa.


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