Tiago Segabinazzi

Você pensa que o rock é alma...

Artigo Tiago Segabinazzi

Créditos: Tiago Segabinazzi _ jornalista

Início do Carnaval: respiro festivo em meio ao impulso produtivo do apressado início de ano; momento de simplesmente gozar a vida sem se preocupar tanto com a confusão político-administrativa do país; hora de viver a vida diante da certeza da morte. Parece só festa, mas em meio às marchinhas de carnaval se ouve em coro uma vigorosa condenação do evento que cultua o corpo.


Frequentemente, surge - seja em forma de frase feita, de provérbio chinês ou de meme _ a ideia de que o rock seria o antídoto sonoro aos ritmos do carnaval, um refúgio da moral degenerada: "Música de carnaval é música para a bunda, rock é música pra alma". Mais ou menos assim.


É interessante perceber que este discurso atualiza na cultura pop o percurso do pensamento ocidental ao longo do tempo, que é a condenação do corpo como algo inferior: inferior em relação às ideias, na filosofia da Grécia antiga; inferior em relação à alma, para a tradição judaico-cristã; inferior em relação à racionalidade, para o pensamento moderno.


Nesta concepção - a "história oficial", diga-se -, o corpo seria algo inconfiável a atrapalhar a busca pelo puro pensamento que descobriria a verdade das coisas; algo transitório e perecível que se coloca como obstáculo da salvação da vida eterna. Com o passar do tempo, principalmente no século XX, as considerações sobre o corpo deixaram de ser tão severas - ou a estas se somaram aquelas que veem ali um potencial antes negado.


Neste contexto surgiu o rock n roll, um ritmo dançante que coloriu a face do pós-guerra e escandalizou a sociedade com sua indecência: os quadris inquietos de Elvis, as letras que convidavam a deitar e rolar a noite inteira e também anunciavam que o amor seria espalhado. Assim, ao invés do rock ser visto como antítese do carnaval, pode ser considerado seu parente próximo, que tem a exaltação do corpo como elemento que o constitui. E qual é o problema nisso?

 


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