Variedades

Pioneira, Glória Perez já abordou temas polêmicos e inovadores nas novelas

Escritora trouxe temas para reflexão ao longo de mais de 30 anos de carreira

Créditos: RD1
Glória Perez é uma das maiores autoras de novela dos últimos tempos - Divulgação

Rio de Janeiro - Atual novela das 21h da Globo, A Força do Querer, aborda aspectos da transexualidade. Por meio da personagem Ivana (Carol Duarte), a autora Glória Perez mostra os conflitos de uma pessoa que não se encaixa no corpo em que nasceu, e também de pais que criaram expectativas em relação ao comportamento de seus filhos e não conseguem aceitar a condição dos mesmos.

 

Temas polêmicos e controversos são constantes nas novelas de Glória. Desde quando fez uma crítica à falta de transportes em comunidades carentes em sua primeira solo na TV, "Partido Alto" (Globo, 1984), a autora percebeu que poderia introduzir debates ainda mais importantes em suas obras.

 

De "Partido Alto" à "A Força do Querer" se passaram mais de 30 anos, e Glória ao longo deste período abordou realidades poucos conhecidas pela maioria do público da TV, como a inseminação artificial em "Barriga de Aluguel", a esquizofrenia em "Caminho das Índias" e o tráfico de pessoas em "Salve Jorge". Em todas essas produções, as discussões se transformaram em ações reais e trouxeram resultados que ultrapassaram a ficção. Relembre:

 

AIDS em Carmem

Em 1987, na novela Carmem, da TV Manchete, Glória Perez ajudou a desconstruir o preconceito do senso comum de que só homossexuais e/ou pessoas promíscuas eram portadores de HIV. A autora ousou ao mostrar que personagem Rosimar (Theresa Amayo), uma dona de casa recatada, que contraiu o vírus da AIDS através de uma transfusão de sangue. Na trama, os outros personagens se afastaram dela e evitaram qualquer tipo de contato, representando o que geralmente acontecia na vida real. O drama de Rosimar foi inspirado na vida do sociólogo Betinho (Herbert de Souza), que morreu em 1997 em decorrência do vírus HIV, adquirido numa transfusão de sangue. Ele chegou a fazer participações na trama para endossar a abordagem.

 

Inseminação artificial em Barriga de Aluguel

Quando entregou a sinopse de Barriga de Aluguel à Globo, em 1984, a emissora considerou a discussão sobre a inseminação artificial "fantasiosa" e "inverossímil", e engavetou o projeto. Em 1990, após anos de resistência, a emissora resolveu produzir a história. A inseminação, na época, ainda não era conhecida pelo grande público, mas o folhetim monopolizou a audiência e gerou discussões em todo o país. Na trama, Ana (Cássia Kis) resolve contratar Clara (Cláudia Abreu), uma barriga de aluguel, para realizar o sonho de se tornar mãe. No entanto, a ?profissional? é tomada pelo sentimento da maternidade e reluta em entregar o bebê.

 

O meio de comunicação revolucionário em Explode Coração

É difícil imaginar as nossas vidas sem a comunicação por meio de redes sociais, mas em 1995, quando Glória levou ao ar a novela Explode Coração, a rede mundial de computadores era desconhecida pela maciça maioria dos público. Visionária, a autora abordou as novas possibilidades para a comunicação e causou enorme estranhamento ao mostrar personagens se falando por webcam, numa época em que o Skype ainda estava longe de existir. Perez mesclou o que existia de real na web com tramas futurísticas, que acabaram se confirmando nos anos seguintes. Na abertura do folhetim, o mago das artes visuais Hans Donner mostrou uma tela de touch screen e antecipou as invenções revolucionárias de Steve Jobs.

 

Crianças desaparecidas em Explode Coração

Explode Coração também fez história na televisão pela abordagem de um assunto de extrema importância no país: o desaparecimento de crianças. O sofrimento de mães desesperadas foi representado pela personagem Odaísa (Isadora Ribeiro), que se integrava a um grupo de 20 mulheres que se encontravam em uma praça no Rio de Janeiro com fotos de seus filhos desaparecidos. As exposições de imagens reais de crianças desaparecidas trouxeram resultados na vida real. Segundo o jornal "O Globo", 70 crianças voltaram para suas famílias após terem seu rosto mostrado na trama. Em um dos casos, uma menina de 11 anos que havia fugido de casa após sofrer agressões físicas do pai, resolveu fazer contato com a família após ver o apelo da mãe na TV.

 

Dependência química em O Clone

Em 2001, Glória Perez desmistificou o perfil de usuários de drogas e fez uma grande alerta em todo o país por meio dos personagens Mel (Débora Falabella), Nando (Thiago Fragoso) e Lobato (Osmar Prado). A abordagem responsável, que incluiu depoimentos de usuários anônimos e famosos, como o do ator Carlos Vereza e da cantora Nana Caymmi, fez com que a autora recebesse um prêmio do FBI, a polícia federal americana. Aqui no Brasil, Glória foi homenageada pela Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abrad) e recebeu o prêmio Personalidade dos anos 2001 e 2002, concedido pelo Conselho Estadual Antidrogas (Cead/RJ).

 

Visibilidade a deficientes visuais em América

Glória Perez criou ações socioeducativas para mostrar a importância da inclusão social dos deficientes visuais em América. Por meio dos personagens Flor (Bruna Marquezine) e Jatobá (Marcos Frota), a autora mostrou os problemas no dia-a-dia dessas pessoas, como as dificuldades encontradas para circularem livremente com seus cães-guias, e popularizou livros, exposições, apresentações de balés e danças para deficientes visuais. Na época, em entrevista ao site da trama, Glória comentou a repercussão do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência sobre a abordagem da tema. "O próprio presidente do Conade nos disse que ?América? conseguiu mais por essas pessoas do que em 40 anos de luta, mostrando do que elas são capazes, mostrando que elas merecem respeito", contou. A autora e os atores Marcos Frota e Bruna Marquezine receberam a Medalha Tiradentes em 2005 da Assembleia Legislativa do Rio, e foram homenageados pela Câmara Municipal do Rio.

 

Homossexualidade em América

Glória Perez também abordou os dilemas enfrentados pelos homossexuais em ambientes tipicamente machistas. Em América, Júnior (Bruno Gagliasso) era controlado pela mãe Neuta (Eliane Giardini), que morre de medo de ver o filho cair em algum descaminho e utiliza a figura do marido morto como forma de controlar o jovem. As tentativas, no entanto, foram frustradas, já que além de deseja trabalhar como estilista ou maquiador, Junior acaba se apaixonando por Zeca (Erom Cordeiro). Os dois ficaram juntos apenas no final, e apesar de a Globo vetar a cena do beijo entre eles, a abordagem ao tema gerou elogios de grupos sociais.

 

Esquizofrenia em Caminho das Índias

A cultura indiana não foi a única ousadia de Glória Perez em Caminho das Índias. A autora abordou a esquizofrenia por meio do personagem Tarso (Bruno Gagliasso), um jovem problemático que é diagnosticado com o transtorno mental e encontra resistência na própria casa para conseguir um tratamento, já que sua mãe, Melissa (Christiane Torloni), não consegue aceitar o problema do filho. Cercada de preconceitos e informações erradas, a esquizofrenia nunca havia sido discutida de forma educativa nas novelas e, apesar de algumas críticas de órgãos de medicina pela abordagem não tão real na ficção, o tema virou assuntos de reportagens na TV e gerou discussões em massa.

 

Tráfico de pessoas em Salve Jorge

O submundo do tráfico humano gera por ano em todo o mundo uma lucratividade de mais de 32 bilhões de dólares, mas é um crime que se mantém invisível na sociedade. Por conta disso, quando escreveu Salve Jorge, Glória Perez foi acusada de exagerar no drama de personagens escravizados. Em entrevista ao RD1, na época, a autora falou sobre a reação espantosa dos telespectadores com a realidade abordada no folhetim. "Quando comecei a trabalhar no tema me impressionou ver que pessoas informadas se recusavam a crer que no seculo XXI ainda existisse escravidão: mas ela está aí, acontecendo bem do nosso lado", disse. Em 2013, o "Fantástico"  mostrou uma operação da Polícia Federal que desmontou uma quadrilha de traficantes que exploravam mulheres em uma boate na Espanha. A denúncia foi feita por uma das mães das meninas que morava em Salvador (BA). Ela revelou à polícia que só procurou ajuda após assistir à novela e acreditar que a filha estava nas mesmas condições que a personagem Morena (Nanda Costa).

 

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