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Youtuber explora casas abandonadas no Vale do Taquari

Vídeos de Lucas Silva preservam histórias de residências desabitadas no interior da região

Créditos: Julian Kober

Vale do Taquari - Com um celular na mão e uma lanterna portátil, o jovem Lucas Silva (24) prepara-se para entrar em uma casa abandonada no interior de Colinas. O acesso à propriedade é estreito e cercado por mato. A entrada da residência mostra os primeiros sinais de deterioração. A vegetação alta toma as escadas. Outrora verde, a pintura começa a desbotar. Em todas as paredes, teias de aranhas que viraram cemitério para centenas de insetos. E as janelas estão tão empoeiradas que torna-se difícil olhar para o interior do prédio. A luz do sol, que atravessa o mato denso, torna o local menos assustador, embora ainda pareça o cenário de um filme de assombração.
Para o espírito aventureiro de Lucas, o fascínio é maior que o medo. Ele liga a câmera do celular e começa a exploração. Logo na entrada, encontra dezenas de garrafas de cerveja e refrigerantes antigas, algumas da década de 1980, que foram empilhadas ali pelo antigo dono. "A pessoa que morava aqui era acumuladora. Então, todos os objetos que estavam guardados porque representavam alguma coisa para ele", explica.
Destemido, o jovem começa a entrar nos cômodos escuros. Cada passo com cuidado, para evitar que as tábuas antigas se partam e ele caia - algo que já aconteceu. A câmera continua a filmar, e o jovem narra o que encontra pelo local. "Fico pensando quantas memórias estas casas abandonadas guardam", comenta, enquanto atentá-se aos objetos jogados pelo chão da cozinha.
O vídeo que o jovem grava é para o seu canal no YouTube, Vida de Lucas, criado em dezembro de 2013. Desde então, já entrou mais de 30 residências abandonadas no Vale do Taquari, com o objetivo de mostrar seu interior e contar um pouco de suas histórias. "Meu objetivo é não deixar que esses lugares abandonados caiam no esquecimento. Porque, aos poucos, eles vão apodrecendo e logo não vão mais existir."

 

Paixão por antiguidades

Nascido em Lajeado, Lucas Silva considera-se um jovem nostálgico por uma época que não viveu. Apreciador de antiguidades, adquiriu um detector de metais para procurar objetos enterrados. "Ganhei de um fabricante que acompanha meu canal", diz.
E foi essa paixão que levou o rapaz a entrar nas residências abandonadas. "As casas de que eu mais gosto são aquelas em que encontro algum objeto, nem que seja um quadro religioso ou um roupeiro velho. Foge de tudo que estamos habituados. Mesmo vazio, eu crio na minha cabeça um filme de quando as pessoas viviam lá, se eram felizes ou não."

 

Sucesso na internet

Em cinco anos, Lucas já gravou mais de 70 vídeos. Tudo é feito de maneira bastante amadora, como o próprio jovem ressalta. "Custo zero", brinca. As filmagens são criadas com o celular e editadas no computador - tudo finalizado em cerca de três dias.
Com duração média de 20 minutos, Lucas precisou desenvolver o seu próprio estilo para fazer os vídeos, desde a narração, as filmagens e a edição. "Aos poucos, aprendi a fazer uma introdução, colocar uma trilha sonora e explorar mais. E com o feedback que recebia dos meus seguidores, fui aprimorando."
Hoje, o jovem que trabalha em uma pizzaria no Bairro Florestal, possui 22,4 mil seguidores e mais de 1,9 milhão de visualizações em seu canal no YouTube. "Jamais imaginava que teria tantos seguidores. E pensar que tudo começou apenas como uma brincadeira."

 

Investigação cuidadosa

Durante as explorações, Lucas sempre se questiona se o que está fazendo é certo. Apesar da recepção dos seus vídeos, o jovem recebe muitas críticas de pessoas que o acusam de estar invadindo as residências.
Por isso, o Youtuber adotou uma série de cuidados. O mais importante é a preservação dos objetos. Ele toca em tudo com muita atenção, como se estivesse mexendo em algo que fosse seu. Depois, coloca no mesmo lugar em que encontrou. Lucas também não identifica os proprietários ou endereço das casas, para evitar que outras pessoas invadam com más intensões. "Faço isso em respeito a quem morou ali. Até porque, muitas vezes, ocorreu de um familiar assistir a meus vídeos. E eu não quero que eles pensem que eu estou lá para roubar ou quebrar as coisas", destaca.

 

Relato de um fã

O estudante Rafael Coletti (23) é um dos seguidores do canal Vida de Lucas e afirma ter assistido a quase todos os vídeos. "Meio que vicia. No momento em que começa a olhar, dá vontade de ver mais e mais para conhecer outros lugares abandonados e curiosos", relata.
Fã de antiguidades, o jovem possui uma coleção com diversos objetos antigos, desde rádio valvulado original - que ainda está funcionando. E o entusiamo só aumentou desde que conheceu os vídeos do Lucas. "Eles me incentivam a procurar mais da historia e a conhecer novos objetos para futuramente comprar e guardar de lembrança para não deixar a história morrer."

 

Apuração

Para encontrar as casas abandonadas, Lucas passa muito tempo explorando o interior das cidades do Vale do Taquari. A conversa com os moradores é fundamental. Por isso, ele para, pergunta e pede orientações de como localizá-las.
E antes de entrar, o jovem pesquisa sobre a história das residências. Ouve os vizinhos e procura familiares. "É como se fosse o trabalho de um repórter, onde você precisa apurar todas as informações para poder narrar a história para as pessoas", explica. Além de ajudar na construção dos
vídeos, isso também evita riscos durante as gravações. "Minha preocupação é que alguém me confunda com um ladrão e eu acabe levando um tiro."

 

Sensacionalismo

Lucas é enfático ao falar sobre assombração ou algo do gênero. "Nunca vi nada", afirma. Durante as explorações, seu maior medo é encontrar cobras ou se machucar. "Aqui não tem grito, carro ou barulho da cidade. Tu só escuta o vento, as árvores e latidos (sic). É muita tranquilidade."
Apesar dos vídeos sobre casas abandonadas, o Youtuber evita que o seu canal seja associado ao tema assombração. "Não tem aparições, montagens ou nada disso para simular sustos. Evito sensacionalismo. Eu quero que o meu canal seja para quem é apaixonado por antiguidades."

 

 

 

https://youtu.be/Fnx3hpmvZ2A 

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