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Culpa do Corona

Cristiano Duarte, jornalista, [email protected]


Muitas das coisas que eu conto em minhas crônicas têm na sua essência o imaginário. Mas não este causo. Este não. Este é de verdade. A verdade nua e crua e a vida como ela (também) é. Não vou nem aumentar para que não me chamem de mentiroso ou de exagerado feito um Cazuza.
O meu sogro é um dos homens mais rústicos que eu já conheci nos meus 30 anos de vida. "Carinho" pra ele não tem nada a ver com carícias ou juras de amor. "Carinho" para o seu Darci é um carro pequenininho dito com o seu sotaque de gringo que corta todos os "R" de seu dialeto falado quase que aos gritos.
Sua rotina passa por acordar às 5h, subir na moto sem capacete e percorrer os parreirais de uva para ver se tudo está como deixou no fim do dia anterior. Os primeiros goles de vinho (feito por ele mesmo) começam cedo para abrir o apetite antes de comer polenta brustolada e pão com salame no café da manhã.
É preciso testar a bebida que é parte de seu sustento. São 200 mil quilos colhidos de uva por ano e pelo menos 300 litros de vinho artesanal vendidos pela comunidade de São Valentim do Sul e para parte dos bebedouros mais rigorosos destas terras tupiniquins.
A pandemia de coronavírus tem alterado a rotina seu Darci. As idas até a bodega do Tarcísio já deixaram de fazer parte do cotidiano. O contato com suas mulheres, as quais gentilmente as chama de "potrancas", agora é só pelo telefone.
Uma que outra ele tem visto de quando em vez. Carla, nas terças. Sheila nas quintas-feiras. Lovane nos dias de desespero.
Darci sabe que estas mulheres corpulentas fazem quarentena e passam a semana toda esperando pelo seu chamado.

***

Aquela quarta-feira foi um dia triste. A solidão dos dias em meio à pandemia. Depois da lida nos parreirais de uva, Darci caminhava de um lado pro outro de sua casa. Zapeava a televisão e não via nada além das atualizações constantes sobre coronavírus pela Serra gaúcha. Petiscava um salame e por vezes ligava para suas amadas.
Não demorou para que procurasse Lovane. Não era uma saudade dela em específico. Era uma saudade de mulher. De sentir o cheiro e o sabor feminino.
Mas assim que adentrou com sua garrafa de Cabernet Sauvignon na casa de Lovane, meu sogro foi surpreendido.
Com um rolo de massa ela tentava atacar Darci enquanto esbraveja ameaças pelo cortiço.
- A Judite me mandou foto no "zapzap" de ti com aquela sem-vergonha da Sheila de mão dada na bodega. Quando que tu vai tomar vergonha na cara, Darci?
- Tava tomando vinho! Non convém misturar! - respondera de pronto Darci
Neste momento um garrafão de vinho vazio voa na sua direção. É hora de partir. De voltar para a quarentena e ficar em paz.
- Mah vá aonde? Fico sozinho, entón. Solidon é o melhor remédio - disse para si mesmo.

***

Acontece que Darci teve mais uma surpresa naquela quarta-feira. Uma surpresa chamada blitz da Polícia Rodoviária Estadual.
Parado na beira da estrada com sua S10 e com o coração partido, um policial se aproximou da caminhonete de Darci.
- Mah vá aonde (todos os são-valentinenses falam isso o tempo todo) com tanta pressa? - perguntou-lhe o guarda.
- Briguei com a muié - contou Darci.
- E esse bafo de bêbado? Vai me dizer que tu tomou um traguinho? - perguntou-lhe o policial.
- Mah vá aonde? Nunca.
- E essa garrafa de vinho no banco da tua caminhonete?
- Vinho é alimento. Eu ia dormir na casa da Lovane, mas ela fez fiasco e me vim embora
- Olha, seu Darci. Me perdoe. Mas teremos que fazer o teste do bafômetro. Você pode colaborar? - disse o guarda enquanto pegava o equipamento.
- Mah vá aonde? Tu non ouviu falar do corona? Non vou colocar minha boca neste troço, porco Dio. Vou saber aonde andou este bafômetro. Tenho minhas uva pra cuidar, homi!
O policial não pode fazer mais nada. Recolheu a carteira de motorista de seu Darci e mandou que buscasse ela no outro dia no posto de Encantado.
A multa vai lhe custar boa parte de seus parreirais.
A quarta-feira serviu para que Darci aprendesse o valor de ficar em casa pra não se incomodar.


Cristiano Duarte

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