Colunistas

Primeiro sintoma, o espirro


Aqui em Porto Alegre, de onde escrevo, as notícias são as mesmas - números de novos casos e de mortes confirmadas; a paisagem, incontornável, é a mesma - onde estaria esta peste invisível e insistente? O foco de atenção é o mesmo: a saúde pública. Quando vejo nuvens no céu, comemoraráveis devido à estiagem, imagino os prédios ao meu redor feitos de açúcar. A circulação de pessoas diminuiu de uma forma ágil, a estabilidade do comércio lhe é suscetível, nossa sociedade parece tão frágil. Suas construções são fruto do trabalho - para onde devem se dirigir as pessoas que caminham à minha frente, agora nem tão numerosas, com seu passo mais cauteloso e um mesmo olhar desenhado pela máscara respiratória. Seria exagero de minha parte? Espero que, em alguns meses, todo cuidado tomado agora seja considerado excessivo, para que não pareça insuficiente. [...]

Por que o desespero se outras doenças matam mais do que a Covid-19? É tentador, nessa hora, bancar o corajoso: brincar de ovelha negra e ficar apontando o dedo para o rebanho cauteloso; dizer que é apenas mais uma moda da mídia e dos interessados em vender vacinas; dizer que o vírus é inofensivo e o pânico obra demoníaca, como Edir Macedo. Essa figura (anti)heroica, do cowboy solitário, é encarnada pelo presidente sem partido. [...]

Existe uma força no novo coronavírus para além de seu perigo biológico: é o potencial simbólico de uma pandemia que não escolhe alvos, não privilegia classes sociais, nem tem uma geografia preferencial para atuar - como a malária, que afeta principalmente áreas mais pobres. Os infectados não se restringem aos "chineses", que para o olho do ocidental são todos iguais, inclusive os chineses da Coreia. Em poucos dias, o que caiu por terra foi a ideia de que as catástrofes "só acontecem com os outros" - entre os infectados está quem faz parte do universo simbólico que parece intocável, como Tom Hanks. Donald Trump, com todo poder econômico e bélico de um presidente dos EUA, diante da ameaça da contaminação, é vulnerável como qualquer outro. [...]

Como um pêndulo irresponsável, o bolsonarismo balançou o discurso entre: desdenhar a ciência - o que há é uma "histeria"; fazer uma live no Facebook com máscaras; acusar a China da culpa pela pandemia - ameaçando uma crise diplomática e até econômica. Entre 14 membros infectados pelo vírus, o presidente incentivou e participou dos protestos do domingo, colocando em risco a população e atentando contra os demais poderes da democracia - que já estão ignorando-o em sua luta quixotesca contra o esquerdismo. Janaína Paschoal, que quase foi sua vice, pediu que renunciasse e Miguel Reale Júnior defende que seja avaliada sua sanidade - são dois dos autores do pedido de impeachment de Dilma. Até Olavo de Carvalho o criticou. [...]

"Bolsonaro, acabou", disse um haitiano, diretamente ao presidente, segunda-feira, no Palácio da Alvorada. "Um haitiano" soa preconceituoso, mas é porque se trata de alguém falando em nome de qualquer um. "Estou falando brasileiro", disse ele. O capitão ficou estático, assim como sua claque, para onde ele vai reacender a confiança cega em sua própria ignorância. O profeta continuou: "Você não é presidente mais". Lavemos as mãos.


Tiago Segabinazzi

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