Lazer

Além do ponto


No nosso tempo de criança, a escola mandava fazer muitas redações. Tantas eram as redações que havia até um caderno exclusivo para tal. Nele ficava registrada a produção de um ano inteiro. Apesar de todo esse afinco, não dá para dizer que o resultado fosse grande coisa e, muito menos, que a gente gostasse da tarefa. 
Para falar a verdade, a gente não gostava nem um pouco - eu, pelo menos, não gostava. Fazer redação era um tipo de suplício que cabia encarar e padecer. 
 
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Uma parte da chateação da escrita ia por conta dos temas repetidos. Todo santo ano era a mesma coisa. Alguns temas, são inesquecíveis: "as minhas férias";  "a Páscoa";  "o Dia das Mães"; "a primavera". 
O caso é que a tarefa vinha e ninguém sabia o que dizer. Férias? Que férias! A gente ficava vagabundeando em casa quase do começo ao fim. Quando tudo ia bem, passava uns dias em casa de parentes. Praia, nem pensar. Viagens longas, fora de cogitação. Verdade seja dita: quem tinha irmãos se virava melhor nas férias. A companhia para brincar ficava bem à mão e os pretextos para briga se arranjavam facilmente.  
 
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Se fosse para escrever agora sobre as estações do ano, me daria um branco. Só me voltam velhas fórmulas. Da primavera eu lembraria as flores coloridas e o trinado dos pássaros. Sim, amigos, na gaiola eles podiam cantar, mas, nas redações de escola, os pássaros trinavam de forma maviosa. 
Do outono, por sua vez, cabia dizer que era a estação das frutas. A gente elogiava a dobradinha outono & frutas, meio a contragosto, meio cismado. O caso é que recém vínhamos saindo de um verão repleto de uvas, pêssegos, melancias, abacaxis...
 
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Tema de casa era sagrado. Enforcar a redação nem passava na cabeça. 
Fazer o quê, se faltava assunto? 
Parte da solução era convocar as artes da caligrafia. 
Assim: para preencher as vinte e poucas linhas de preceito, o pulo do gato era investir na letra. Aumentava-se e arredondava-se cada um dos caracteres e abria-se o máximo de espaço entre uma palavra e outra. 
Mas o efeito disso tinha lá o seu limite. Só colava, se o arranjo não fosse além do ponto. Afrouxar a letra, sim, mas não perder a dignidade.
 
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Estou me lembrando disto enquanto acompanho notícias deste país tão peculiar que o nosso é. A flexibilidade exercitada no caderno da escola poderia servir de modelo aqui. Quero dizer, artimanhas das antigas redações poderiam valer a quem lida com a coisa pública. Ser flexível, contemporizar, lotar os discursos de clichês, vá lá. Tá bem. Aceita-se.
Agora, dar corridão nos fatos, passar a perna no bom senso, trocar o dito por não dito... aí já fica muito. Nem a professorinha antiga teria deixado passar além do ponto.

Ivete Kist

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