Colunistas

Contardo é pop


Faleceu essa semana Contardo Luigi Calligaris, italiano, nascido em Milão, em 1948. Estudou na Suiça e França com Piaget, Barthes e Lacan e, como poucos, conseguiu fazer a ponte entre a psicanalise, a literatura e a critica cultural. Contardo aborda em sua obra temas como cultura e psicanálise, em especial sobre a suposta obrigatoriedade da felicidade, do gozo, da beleza e dos excessos. O Brasil ficavum pouco mais inculto com sua partida.

Como uma homenagem póstuma, resolvi "entrevistá-lo" e acabei unindo a realidade de algumas respostas completas dele a colagens de grandes frases e reflexões desse intelectual europeu que escolheu viver nos trópicos.

Por que resolveu viver em São Paulo?

Calligaris: "Cheguei por acaso ao Brasil pela primeira vez, em 1985 ou 1986, porque estavam traduzindo um livro meu de psicanálise e leitura.(...) Eu nem sabia falar o português, só o espanhol. Em 1986, um pequeno grupo de paulistanos perguntou se eu toparia vir para São Paulo, por 15 dias a cada dois meses, pois eles queriam se organizar para fazer análise. Eu topei, era uma época muito especial..."

Como um psicanalista com formação freudiana enxerga a internet e as redes sociais?

Calligaris: "A modernidade é a era em que nossa existência social depende do olhar dos outros: somos quem conseguimos fazer que os outros acreditem que somos.(...) Cada época tem os adolescentes que merece"

A depressão não tem nenhuma relação com o materialismo do mundo moderno?

Calligaris: "Todo mundo associa, mas eu poderia objetar esse pensamento. Todo nosso funcionamento é baseado na insatisfação do desejo, na ideia de que isso é capaz de desdobramentos infinitos. E se você encontrar o objeto final da sua insatisfação, tudo para, porque não precisa comprar mais nada. (...) Então a insatisfação permanente é uma fonte de depressão? Penso que não, a insatisfação permanente é o que nos projeta para frente. 

A depressão tem mais a ver com a perda do desejo do que com o desejo insatisfeito."

Muitos relacionam o isolamento gerado pela vida virtual à tristeza e à depressão. Voltar a conviver em grupo seria a solução?

Calligaris: "As festas, em tese, deveriam espantar a tristeza, mas conseguem apenas escondê-la. O barulho mascara e desculpa nossa dificuldade de dizer ou de escutar qualquer coisa que preste. (...)

Como um europeu enxerga a elite brasileira?

Calligaris: "Poder sem cultura é vulgar porque
ele só se exibe."


Marcos Frank

Comments