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Já dormiram na rua

Japão foi da ascensão à crise. Estabilizou-se pela disciplina e competência


- Arquivo Pessoal
Após grande desenvolvimento entre 1960 e 1980, Japão entrou em processo recessivo fins do século passado. A recessão deu-se por colapso da bolha financeira. Japoneses chamam década perdida a de 1990. China passou a ocupar o espaço.  Visitei o país em 2008, ápice do período de queda e desemprego. Recrudesceu até meados de 2009. Anos seguintes iniciou-se reação. Isso se deu por políticas proativas do governo. Diversificou, diversificando atividades em fontes energéticas e incentivou incentivando a indústria eletrônica e de veículos híbridos.
 
Dois fatos marcaram a visita ao país. O primeiro, no aeroporto de Nagoia, onde número expressivo de jovens nipo-brasileiros voltavam a nosso país. Migraram ao Japão no período do "milagre do crescimento", empregando-se, em especial, nas empresas de tecnologia eletrônica e de fabricação de veículos. O mercado exportador diminuiu, a concorrência aumentou. Chegou o desemprego. O segundo fato marcante liga-se à questão de moradia. Com o gigante balançando e desemprego, quem ainda dispunha de alguns ienes, moeda japonesa, abrigava-se em hotéis-cápsula.
 
Hotel-cápsula oferece cubículos onde cabe apenas estreito beliche. A cápsula é tão baixa que é necessário curvar-se para entrar. Pensara não ser possível quarto menor do que o de hotel escolhido em Tóquio. Meia cama de casal ocupava o espaço. Minúsculo banheiro, com tanquinho de 1,20m para imersão. Com pernas dobradas. Vaso e pia de casa de boneca. O bairro, porém, o melhor da capital japonesa: Ginza. Com deslumbrante avenida de mesmo nome. Foi na elegante via, junto à feérica iluminação em lojas de alto nível, descortinada impensável cena: pessoas dormindo na rua.
 
Aqueles que já não podiam pagar hotel-cápsula criavam quarto-cama. Grande caixa de papelão abrigando corpo e mochila. E as sequelas da crise, enquanto aguardavam emprego.
Atualmente, a "terra do sol nascente", apesar de abalos sísmicos, pela localização entre placas tectônicas, acalmou abalos econômicos.
Foi da ascensão à crise. Estabilizou-se pela disciplina e competência na gestão dos recursos, em especial, importando produtos primários e exportando tecnologia.
Já dormiram nas ruas. Acordaram e se reergueram...
 
P.S.: Ressalte-se ainda duas características do povo japonês: foco e determinação.

Marisa Martins

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